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Entrevista de Santana-Maia Leonardo
ao Jornal Alto Alentejo - edição de 16-5-2012
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É um livre pensador, não obedece a cânones nem a disciplinas partidárias. Nasceu em Lisboa no dia 5 de Outubro de 1958 e viveu em Setúbal até aos 9 anos de idade. Com a morte do seu pai, veio viver para casa do seus avós maternos em Ponte de Sor. A sua mãe licencia-se em Direito, tendo sido delegada do Procurador da República em Nisa e Portalegre, vindo, mais tarde, a ser primeira juíza na história da magistratura portuguesa a chegar ao Supremo Tribunal de Justiça.
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Santana-Maia Leonardo estudou no Liceu de Portalegre no ano de 1974/75. É licenciado em Direito e em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses e Franceses). Actualmente, é advogado, vereador da Câmara de Abrantes e vogal do Conselho de Jurisdição da Associação de Futebol de Portalegre.
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Foi professor de Português do ensino secundário, durante 26 anos, presidente do Eléctrico Futebol Clube, director e fundador do jornal regional A PONTE, fundador da Associação dos Autarcas Sociais Democratas do Distrito de Portalegre, presidente do Conselho de Jurisdição da Distrital de Portalegre do PSD e vereador da Câmara Municipal de Ponte de Sor.
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Pertenceu à direcção que reeditou a revista da Associação Académica de Coimbra «Via Latina» (1980/81) e é autor dos livros «Mistério da Santaníssima Quaternidade» (Coimbra Editora, 1980), «Eléctrico – Um Clube com Alma» (2004) e «Bocage, Meu Irmão» (Editorial Minerva, 2006). Colabora com vários jornais e a sua opinião é, por regra, aplaudida em diversos quadrantes, devido à sua frontalidade e por não ser politicamente correcta. A qualidade da escrita é inegável e, concorde-se ou não com o que diz, revela três qualidades raras: retrata um pensamento estruturado e transmite-o de forma clara e concisa.
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Santana Maia-Leonardo faz o lançamento nacional do seu livro «Rexistir» na próxima sexta-feira, pelas 17h no Café Alentejano, em Portalegre, onde inclui dois textos de antologia - «Alentejo» e «O Alentejano».
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Alto Alentejo – A escrita dá-lhe prazer, isso é inegável, mas dá-lhe também uma oportunidade de afirmar posições que, muitas delas, não são cómodas.
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Santana-Maia Leonardo - Eu escrevo como sempre vivi: contra a corrente. Neste país, a massa cinzenta acaba sempre por desaguar em Lisboa. Mas eu nasci em Lisboa e decidi fazer o percurso inverso. Eu sou alentejano por convicção, única forma de ser alentejano. E é por esta razão que eu decidi fazer a apresentação nacional do meu livro na capital do Alto Alentejo e no café Alentejano que representam bem todos os valores que a pós-modernidade lusitana está a destruir.
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AA – Escreve há muitos anos. Destaque dois ou três momentos marcantes desse percurso.
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SML - Aos 12 anos, quando o Padre Fernando Farinha me convence a começar a escrever uma coluna de opinião no jornal Ecos do Sor porque considera que eu tenho qualidades para a escrita que devem ser desenvolvidas. Aos 19 anos, quando a Prof.ª Dr.ª André Cabrée Rocha, mulher de Miguel Torga, me convida para colaborar no nº1 da revista Cadernos de Literatura com o poema «O Canalha», ao lado de Miguel Torga, Pedro Tamen e Sophia de Mello Breyner Andresen. E, finalmente, aos 22 anos, quando a Prof.ª Dr.ª André Cabrée Rocha me tenta convencer a ir trabalhar e viver para Lisboa, ou seja, a não regressar a Ponte de Sor, com o argumento de que se o fizesse perderia a oportunidade de vir a ser um grande escritor. E nunca mais me esqueço das suas palavras: «o senhor foi a pessoa que conheci em toda a minha vida com maior facilidade para escrever». Mas a minha decisão estava tomada. Não podia ser contra a macrocefalia da capital e, depois, ir para lá viver e abandonar a terra que me criou. Para mim, a escrita é uma arma ao serviço dos meus ideais e das minhas convicções. Eu não sou um escritor/artista, sou escritor/soldado. A Palavra e o Exemplo são as duas únicas armas capazes de transformar o mundo e de o melhorar. É nisto que eu acredito e sempre foi este o meu caminho.
AA – O que. sentiu quando descobre que, na net, começaram a circular dois textos seus – O Alentejo e O Alentejano (este com o título "A Raça do Alentejano") – atribuído a outros autores ou mesmo apócrifos?
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SML - Ver os nossos textos serem acarinhados e divulgados de mão em mão e de mail em mail dá-nos um enorme prazer. Mas criar um texto é como fazer filho. O texto, tal como o filho, devem ser independentes do seu autor, mas custa muito ver o filho rejeitar o nome do pai. Quando vemos um texto nosso, ser divulgado com o nome de outra pessoa, sentimos a mesma tristeza de ver o nosso filho usar um apelido que não é o nosso.
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AA – Gosta mais de ser professor, advogado ou escritor?
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SML – Tenho a felicidade de gostar de tudo o que faço na vida. E é por isso que consigo fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Quando gostamos daquilo que fazemos, nada custa e cansamo-nos menos. Mas este é um segredo que aprendi com a minha mãe. Quando temos uma coisa para fazer, temos duas opções: ou a fazemos por gosto ou com sacrifício. Ora, o segredo é precisamente fazer sempre tudo por gosto.
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AA - Por que decidiu dedicar o seu livro ao nosso conterrâneo Raúl Cóias?
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SML - Raúl Cóias foi meu colega e amigo e era um homem extraordinário. Representava na perfeição o estereótipo do poeta romântico que eu idealizei na minha juventude. Sempre que ouvia falar de poetas, esses seres incompreendidos pelos seus contemporâneos que levavam vidas fora do comum e fora de horas, eu imaginava um indivíduo que, mais tarde, tive a felicidade de conhecer. Com efeito, quando conheci Raúl Cóias, percebi imediatamente que estava perante o poeta, tal como eu imaginava os poetas. E isso aproximou-nos. Raúl Cóias tinha uma predileção especial pelo soneto e foi, ao desafio com ele, no bar "A Lareira", no Gavião, que eu escrevi o soneto «Manifesto Anti-Dantas», a que ele achou imensa graça. E foi este soneto que acabou por ser o pontapé de saída para o livro de poesia satírica «Bocage, Meu Irmão», publicado para comemorar bicentenário da morte de Bocage.
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AA - Ideologicamente, já percebemos que não é de esquerda e que é mesmo contra a esquerda. No entanto, também não se identifica com a direita...
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SML - Este livro é objectivamente contra a esquerda como seria contra a direita se tivesse sido publicado antes do 25 de Abril. E é contra a esquerda porque é hoje a esquerda que domina culturalmente o mundo e que impõe a ditadura do politicamente correcto. Antes do 25 de Abril, quem se atrevesse a discordar ou a questionar algum dos dogmas do regime era logo catologado como «comunista». Hoje quem se atreve a questionar algum dos dogmas da esquerda bem pensante é logo rotulado de conservador, reaccionário ou de direita. Ora, eu rejeito terminantemente esta divisão do mundo entre bons (esquerda) e maus (direita). Durante os 26 anos em que fui professor, corrigi sempre os testes sem olhar para o nome do aluno. Um bom aluno pode dizer um disparate e um mau aluno pode dizer uma coisa acertada. Mas, em Portugal, mais importante do que o que se diz é quem o diz. Acredito no Bem e no Mal, mas não acredito em pessoas boas e más, por natureza. Todos nós somos capazes do Bem e do Mal. Para mim, cada um de nós deve, em consciência e perante o caso concreto, escolher a cor que se adequa, sem nos preocuparmos se é de esquerda ou de direita.
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AA.- Mas é costume dizer-se que a rejeição da divisão entre Esquerda/Direita é própria das pessoas de direita.
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SML - Tal como antigamente era costume dizer-se que quem criticava o regime era comunista, o que, como sabe, não era verdade. E hoje a esquerda procura inibir quem discorda dos seus dogmas usando o mesmo método da rotulagem que era usado pelo anterior regime. Mas uma coisa lhe digo. Não sou crente. Mas prefiro o mundo criado pelo Deus em que a direita acredita do que o mundo governado pelo Deus que a esquerda julga que é. O Deus em que a direita acredita é um deus de rosto humano, que aceita o homem como um ser imperfeito, com as suas limitações e fraquezas. Pelo contrário, o Deus que a esquerda julga que é, é um deus persecutório e prepotente para quem o ser humano é uma espécie de máquina destinada a ser programada de acordo com as suas taras e manias. A forma como a esquerda quer regulamentar e regular a nossa vida, ao mais ínfimo pormenor, impondo o que comemos, bebemos, fazemos e pensamos é absolutamente revoltante e aviltante da natureza humana. Odeio esta esquerda fascista e fascizante que destruiu os valores judaico-cristãos em que se fundou a civilização ocidental, acabando por tornar irracional e selvagem o sistema capitalista.
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AA - Ideologicamente já se definiu como conservador.
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SML - Os chineses têm um ditado de que eu gosto muito: «quando o filho chega à conclusão de que o seu pai tinha razão, em regra já tem um filho que acha que o seu pai está errado». É esta dialética entre pais e filhos que faz o mundo andar. Os filhos funcionam como acelerador, mas os pais têm de ser o travão, caso contrário o carro despista-se na primeira curva. E o nosso problema hoje é que o carro só tem acelerador, uma vez que os pais se demitiram da sua função de travão e condução. Ser conservador não é ser contra que se mude o que está mal, mas olhar com desconfiança e reserva para todos os experimentalismos. E tivessem sido os nossos políticos mais prudentes e mais sensatos, ou seja, mais conservadores, e hoje o país não estaria tão pobre e com todas as suas instituições arruinadas e destruídas, física e moralmente.






