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COLUNA VERTICAL


Terça-feira, 23.08.16

Campeonato de futebol ou circo romano?

Santana-Maia Leonardo

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O que Benfica de Lisboa, FC Porto e Sporting de Lisboa querem objectivamente, como ficou mais uma vez demonstrado com a reacção pública da entourage benfiquista, onde se inclui obviamente uma comunicação social servil, ao empate cedido perante o Vitória, não é um campeonato de futebol mas um circo romano onde as outras equipas fazem o papel de cristãos destinados a serem devorados pelas feras para gáudio das turbas romanas que enchem as bancadas do circo.

E quando algum cristão, despojado de armas e com as próprias mãos, consegue derrotar alguma fera ou amansá-la, a turba indigna-se contra o chefe do circo por terem lançado o cristão às feras sem, antes, lhe terem amarrado as mãos atrás das costas.

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Domingo, 21.08.16

Liderança é isto!

Uma menina, de 13 anos, ganhou um prémio e foi cantar o hino dos EUA, num jogo da NBA. Vinte mil pessoas no estádio. Ela afinada e compenetrada. De repente, o braço tremeu, engasgou-se, esqueceu-se da letra... e DEU-LHE UMA BRANCA!!! Treze anos, sozinha, ali no meio, e o público ameaça uma VAIA.

No entanto, Mo Cheeks, técnico dos Portland Trail Blazers, aparece ao seu lado e começa a cantar, incentivando-a, e trazendo o público. Só o técnico tomou a iniciativa de ir até lá para ajudar, enquanto à volta dela começava-se a ensaiar a vaia. Mo Cheeks mostra o que é liderança e como uma atitude de apoio, NA HORA CERTA, pode fazer uma grande diferença, para ajudarmos a mudar a história do JOGO da vida.

Será que isso já não nos aconteceu? E a nossa atitude, foi como a do técnico Mo Cheeks ou como a de todos os outros que estavam à sua volta?

HÁ PESSOAS QUE ESTÃO NO MUNDO PARA AJUDAR... OUTRAS PARA VAIAR.

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Sexta-feira, 19.08.16

Vasco da Gama

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Quando Bartolomeu Dias chegou a Lisboa, depois de ter dobrado o Cabo da Boa Esperança, com aquela conversa tão portuguesa de que a Índia era muito longe, D. João II, alentejano de alma e coração, tanto assim que passava a maior parte do tempo em Évora, percebeu logo que só um alentejano é que conseguia lá chegar.

D. João II conhecia o nosso povo como a palma das suas mãos. Em qualquer empreendimento, os portugueses arrancam sempre a toda a velocidade mas, na primeira subida, ficam logo com os bofes de fora. Ao contrário, os alentejanos, com o seu passinho de lesma, chegam a todo o lado num instante.

E como Vasco da Gama tinha experiência de mar porque costumava ir dormir a sesta com a namorada para a ilha do Pessegueiro, D. João II decidiu-se por  ele. Mandou-o chamar e disse-lhe: "Tens de levar o Bartolomeu até à Índia porque ele não consegue lá chegar sozinho." E o Vasco da Gama, que sabia falar inglês, respondeu: "Ok." Os alentejanos são de poucas falas. É por esta razão que os sonetos no Alentejo só têm quatro versos. Tu aqui ou desembuchas depressa ou a gente vai-se deitar.

Quando regressou da viagem, o rei D. Manuel quis saber se a Índia era muito longe: "Longe? É já ali ao virar da esquina". E foi, assim, graças ao passinho de lesma de um alentejano que os portugueses chegaram à Índia.

E os Descobrimentos só não foram um sucesso maior porque a maioria das naus eram comandadas por portugueses armados em carapaus de corrida. Iam sempre "prego na chapa" e depois, quando chegavam à curva em cotovelo, a nau dava duas cambalhotas e ia tudo ao fundo. Ou seja, o Cabo da Boa Esperança rapidamente se transformou em Cabo das Tormentas. E quem é que era o culpado? À boa maneira portuguesa, o culpado nunca eram eles, era sempre o Adamastor. Enfim, com gente desta, nunca chegamos a lado nenhum.

Ponte de Sor, 13 de Dezembro de 2014

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Sexta-feira, 19.08.16

Os direitos humanos

Dtos Humanos.jpg

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Quinta-feira, 18.08.16

A Raiva e o Orgulho

Extractos do livro " A RAIVA E O ORGULHO" de Oriana Fallaci

*escrito em Setembro de 2001, após os atentados de 11 de Setembro

Raiva e Orgulho.jpg

 

«Há momentos na Vida em que calar se torna uma culpa e falar uma obrigação. Um dever cívico, um desafio moral, um imperativo categórico a que não podemos fugir.» (pág. 14)

«Para mim, escrever é uma coisa muito séria. Não é uma brincadeira, uma distracção ou um desabafo. Não o é porque nunca me esqueço que de que as coisas escritas podem fazer um grande bem e também um grande mal, curar ou matar. Estuda a História e verás que, por detrás de cada acontecimento de Bem ou Mal, há sempre um escrito. Um livro, um artigo, um manifesto, uma poesia, uma oração, uma canção.» (pág. 19-20)

«O Passado é uma escola que não se pode prescindir, porque, quando não se conhece o Passado, não se poderá entender o Presente nem tentar influenciar o Futuro com os sonhos e as fantasias.» (pag.117)

«É um país tão dividido, a Itália! Tão faccioso, tão envenenado pelas suas mesquinhices tribais! Odeiam-se mesmo no interior dos partidos políticos, na Itália. Não conseguem manter-se unidos nem quando têm o mesmo emblema. Ciumentos, biliosos, vaidosos e mesquinhos, só pensam nos seus interesses pessoais. Só se preocupam com a sua carreirinha, com a sua gloriazinha, com a sua popularidade superficial e supérflua. Pelos seus interesses pessoais tornam-se despeitados e traem-se uns aos outros...» (pág.73-74)

«Os budistas nunca usam a palavra "inimigo". Apurei que nunca fizeram prosélitos com violência, nunca efectuaram conquistas territoriais a pretexto da religião e nem sequer concebem o conceito de Guerra Santa.» (pág.125)

«A Itália produz mais cavalieri e commendatori que brutamontes e vira-casacas. Uma vez um Presidente da República queria meter-me nesse montão. Para o impedir, tive de lhe mandar dizer que, se o tentasse, mover-lhe-ia um processo por difamação.» (pág.163-164)

«Porque está definida há muitos séculos e é muito precisa, a nossa identidade cultural não pode suportar uma onda migratória composta por pessoas que, de uma forma ou de outra, querem mudar o nosso sistema de vida. Os nossos princípios, os nossos valores.» (pág.145-146)

«Estou a dizer que não há lugar para os muezins, para os minaretes, para os falsos abstémios, para o maldito chador e o ainda mais maldito burkah.» (pág. 146)

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Quarta-feira, 17.08.16

Francisca Gomes, a vencedora da I FestFado do Alto Alentejo, vai cantar em Abrantes no dia 18 na Praça Raimundo Soares

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Terça-feira, 16.08.16

O Direito, a Moral e a Ética

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras

0 SM 1.jpgNão devemos, obviamente, confundir o Direito, a Moral e a Ética, porque se tratam de três conceitos diferentes e que visam realidades diferentes. No entanto, isso não significa, como hoje muito boa gente por aí apregoa, que não estejam interligados.

O Direito tem a ver com os actos, a Moral com os hábitos e a Ética com a configuração do carácter. Ora, uma sequência de actos vai gerando em nós a tendência para os repetir. Por sua vez, a aquisição de bons hábitos conduz necessariamente à estruturação do carácter.

Acontece que o problema português reside precisamente no nosso direito que impede, com a sua volatilidade, a aquisição de bons hábitos. Com efeito, as nossas leis, ao serem alteradas e interpretadas, sistematicamente, ao sabor das conveniências do legislador e dos seus amigos, perderam há muito o seu carácter sagrado e intemporal, deixando de ser respeitadas não só pelo cidadão comum como também por quem tem a obrigação de as fazer cumprir.

A Constituição inglesa é a mais antiga do mundo e não é escrita. Em Portugal, pelo contrário, tem de estar tudo escrito, porque, se não estiver escrito, ninguém sabe se pode ou não pode passar um cheque “careca”, matar uma mosca ou assaltar um banco.

No entanto, apesar de sermos um povo tão zeloso na elaboração das suas leis em que tudo tem de estar escrito tim-tim por tim-tim, falta sempre qualquer coisa quando se trata de as aplicar a algum governante ou amigo apanhado com a "boca na botija". Neste casos, a solução nunca é aplicar a lei mas aperfeiçoá-la ainda mais para que, da próxima vez, não haja qualquer dúvida de que o comportamento é ilícito e deve ser punido. Se bem que, da próxima vez que isso acontecer, vai-se chegar forçosamente à conclusão de que a lei, afinal, ainda não é suficientemente explícita pelo que será necessário voltar a aperfeiçoá-la para que possa ser aplicada da próxima vez. Ou seja, os aperfeiçoamentos da lei, em Portugal, servem sempre para limpar condutas ilícitas actuais fazendo crer que a lei vigente as permitia.

Moral da história: com um Direito como o nosso, não há moral que vingue nem carácter que não vergue.

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Segunda-feira, 15.08.16

O animal mais perigoso do mundo

Tubarão.jpeg

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Domingo, 14.08.16

D. Nuno Álvares Pereira

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpgD. Nuno era filho do Prior do Crato. Ainda hoje há quem discuta se nasceu em Flor da Rosa, no Crato, ou em Cernache do Bonjardim, como se o local do nascimento fosse relevante para um alentejano. Para se ser alfacinha, é que é necessário nascer em Lisboa. Agora, um alentejano nasce num sítio qualquer. Que D. Nuno era alentejano é uma evidência, não só pela cepa de que era feito como até pela táctica militar utilizada. E é bom não esquecer que foi como fronteiro do Alentejo que D. Nuno, na batalha de Atoleiros, demonstrou ao mestre de Avis (outro alentejano) que, para ganhar aos castelhanos, bastava meia-dúzia de alentejanos, liderados por um alentejano e com uma táctica alentejana.

E foi, por isso, que o mestre de Avis e D. Nuno, quando partiram de Lisboa para Aljubarrota, deram a volta pelo Alentejo, porque já sabiam que, na hora da verdade, não podiam contar com os alfacinhas. Quando dessem de caras com milhares de cavalos a investir contra eles, davam todos de frosques... Em todo o caso, os alfacinhas tiveram um papel decisivo que não podemos escamotear, já que foram eles que carregaram com os alentejanos até ao campo de batalha.

E até se conta que, à saída de Lisboa, estranhando a volta pelo Alentejo, o ministro Mário Lino terá dito ao Mestre de Avis: "Ó Mestre, olhe que aí não mora ninguém!", ao que o mestre de Avis respondeu: "são poucos mas bons".

Chegados a Aljubarrota, D. Nuno aplicou a mesma táctica da batalha de Atoleiros. Mandou sentar os alentejanos em forma de mesa e disse-lhes: "Fiquem aí e não se mexam!" E os alentejanos aproveitaram logo para bater uma sesta pela força do calor e embalados pelo tropel da cavalaria inimiga que investia a todo o galope sobre o indolente quadrado alentejano.

E foi precisamente quando a primeira leva de cavaleiros se preparava para atropelar a vanguarda alentejana que se ouviu a voz de comando de D. Nuno: "Levantem as lanças!"

Os alentejanos levantaram as lanças e foi um desastre. Um desastre para os castelhanos, bem entendido. Ou melhor, para os castelhanos, para os franceses e para os portugueses, porque é bom não esquecer que, já naquele tempo, a maioria dos portugueses olhava sempre para a grandeza dos clubes em confronto antes de tomar partido. Só que desta vez fizeram mal as contas. Esqueceram-se que um exército de trinta mil castelhanos, franceses e portugueses é demasiado pequeno para derrotar meia-dúzia de alentejanos. Azar o deles!

Ponte de Sor, 13 de Dezembro de 2014

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Sábado, 13.08.16

Os heróis alentejanos

Terra de Ninguém - 3ª Edição.jpg

A História de Portugal tem três grandes marcos históricos: a batalha de Aljubarrota, a descoberta do caminho marítimo para a Índia e a revolução de  25 de Abril. E, como não podia deixar de ser, o sucesso destes três acontecimentos históricos dependeu da liderança de três alentejanos: D. Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e Salgueiro Maia.

Não fosse D. Nuno alentejano e teríamos sido massacrados em Aljubarrota; não fosse Vasco da Gama alentejano e ainda hoje não tínhamos chegado à Índia; não fosse Salgueiro Maia alentejano e o 25 de Abril não teria sido a Revolução dos Cravos.

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Sexta-feira, 12.08.16

Cresce e aparece!

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Sexta-feira, 12.08.16

O alentejano

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpg

«O alentejano é uma raça apurada.»

A raça do alentejano? É, assim, a modos que atravessado. Nem é bem branco, nem preto, nem castanho, nem amarelo, nem vermelho…. E também não é bem judeu, nem bem cigano. Como é que hei-de explicar? É uma mistura disto tudo com uma pinga de azeite e uma côdea de pão.

Dos amarelos, herdámos a filosofia oriental, a paciência de chinês e aquela paz interior do tipo “não há nada que me chateie”; dos pretos, o gosto pela savana, por não fazer nada e pelos prazeres da vida; dos judeus, o humor cáustico e refinado e as anedotas curtas e autobiográficas; dos árabes, a pele curtida pelo sol do deserto e esse jeito especial de nos escarrancharmos nos camelos; dos ciganos, a esperteza de enganar os outros, convencendo-os de que são eles que nos estão a enganar a nós; dos brancos, o olhar intelectual de carneiro mal morto; e dos vermelhos, essa grande maluqueira de sermos todos iguais.  

O alentejano, como se vê, mais do que uma raça pura, é uma raça apurada. Ou melhor, uma caldeirada feita com os melhores ingredientes de cada uma das raças. Não é fácil fazer um alentejano. Por isso, há tão poucos.

É certo que os judeus são o povo eleito de Deus. Mas os alentejanos têm uma enorme vantagem sobre os judeus: nunca foram eleitos por ninguém, o que é o melhor certificado da sua qualidade.

Conhecem, por acaso, alguém que preste que já tenha sido eleito para alguma coisa? Até o próprio Milton Friedman reconhece isso quando afirma que «as qualidades necessárias para ser eleito são quase sempre o contrário das que se exigem para bem governar».

E já imaginaram o que seria o mundo governado por um alentejano? Era um descanso.

Ponte de Sor, 8 de Abril de 2008

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Quinta-feira, 11.08.16

Alentejo

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Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que, à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.

O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.

Portugal nasceu no Norte, mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade; Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras, um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia, para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que, para o homem comum, fica muito longe, para um alentejano, fica já ali. Para um alentejano, não há longe, nem distância, porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.

D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»

Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer.

Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.»

Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.

Mas, para que uma pessoa se ria de si própria, não basta ser ridícula, porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra apenas disponível nos seres humanos topo de gama.

Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.

E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.

Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!

É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar? 

Ponte de Sor, 15 de Dezembro de 2005

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Quarta-feira, 10.08.16

CAPÍTULO IV - Reflexões alentejanas

Terra de Ninguém - 3ª Edição.jpg

 

CAPÍTULO IV

Reflexões alentejanas

 

"A vida é dura para quem é mole"

Provérbio alentejano

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Terça-feira, 09.08.16

O Fogo de Santelmo

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 10-8-2015

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Hoje é frequente ouvirmos dirigentes da administração pública e do poder local, professores, magistrados, advogados, etc. desabafarem que não têm tempo para ler. Que não tenham tempo para ler, eu até compreendo. O que eu já não compreendo é como pode uma pessoa que não tem tempo para ler ser dirigente da administração pública ou do poder local, ser professor, magistrado ou advogado.

Como dizia Hipócrates, «aquele que só sabe de medicina nem mesmo de medicina sabe.” E se alguém pensa que o que aprende na Universidade é suficiente para o exercício competente e qualificado da sua profissão, porque o resto vem com a experiência, está muito enganado. E este é, precisamente, um dos nossos grandes problemas, na medida em que a falta de estudo e de leitura (e quando me refiro a leitura, não me refiro obviamente ao Correio da Manhã e aos romances de faca e alguidar) torna as pessoas limitadas e com as vistas curtas. E não há pior magistrado, advogado, professor, dirigente local, regional ou nacional do que uma pessoa com vistas curtas.

Existe uma estância n’ Os Lusíadas que coloca precisamente o dedo na ferida e que hoje ainda continua actual, provavelmente porque muita gente fala n’Os Lusíadas sem nunca os ter lido. Refiro-me à estância que introduz o episódio “O Fogo de Santelmo e A Tromba Marítima”: “Os casos vi que os rudos marinheiros,/ Que têm por mestra a longa experiência,/ Contam por certos sempre e verdadeiros,/ Julgando as cousas só pela aparência,/ E que os que têm juízos mais inteiros,/ Que só por puro engenho e por ciência,/ Vêem do mundo os segredos escondidos,/ Julgam por falsos, ou mal entendidos.

Dum lado, temos, assim, os rudes marinheiros que têm a experiência mas não têm estudos e que, por isso, não têm capacidade para entender os novos fenómenos a que assistem; do outro lado, temos os estudiosos que, por assentarem todo o seu conhecimento no saber livresco, faltando-lhes a experiência, tomam por falsos os relatos dos marinheiros.

E nós hoje continuamos praticamente na mesma, elogiando muito Camões mas sem lhe seguir o exemplo: “Nem me falta na vida honesto estudo,/ Com longa experiência misturado (…)” Esta é a chave da sabedoria. E sabedoria é precisamente o que nos falta. Ou seja, a simbiose entre o conhecimento e a experiência.

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