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COLUNA VERTICAL



Domingo, 21.12.08

A CRISE DA DEMOCRACIA

por João Salvador Fernandes

 

Hoje em dia, na maior parte dos países democráticos ocidentais, as taxas de abstenção são amplamente superiores às percentagens de votantes. Nalguns casos ultrapassam mesmo os 60% e demonstram que as pessoas estão, gradualmente, a virar as costas à democracia.
 
Com efeito, a principal conclusão que se retira deste cenário é de que as actuais vitórias eleitorais não são as vitórias da maioria; são as vitórias da maioria dentro da minoria. As pessoas simplesmente não votam. Preferem o conforto dos seus lares ao pequeno esforço de se deslocarem para votar, gritando silenciosamente: «Estamos descontentes! Estamos irritados! Pior do que tudo, encontramo-nos desamparados!»
 
Não me iludo e sei bem que muita gente também não vota por proselitismo ideológico, ou mera pânria; mas não se pode escamotear a verdade e fingir que tudo está bem; que a democracia manter-se-á imanentemente conexionada com a política da maior parte dos países, comummente denominados ocidentais, se nada mudar nessa mesma sociedade ocidental.
 
As duas principais razões para a recusa em exercer o direito/dever de votar são a descredibilização das instituições democráticas e a falta de qualidade dos políticos.
 
Quando vemos, ouvimos e lemos, quase todos os dias, que instituições, como o Banco de Portugal, não cumprem as suas funções, não conseguimos deixar de nos indignar. Contudo, no momento em que descobrimos que os políticos cedem ao laxismo e à corrupção, essa indignação transforma-se noutros sentimentos. Isto é: ou ficamos apáticos e descoroçoados, ou tornamo-nos agressivos e irascíveis, por verificarmos que as actuais classes políticas tentam, cada vez mais, obnubilar-nos a visão, para que deixemos passar todas as falcatruas que vão cometendo.
 
De facto, as pessoas entreolham-se e perguntam-se: «Como é possível que isto ocorra? Porque hei-de votar em alguém que não cumpre as suas promessas? Porque hei-de ter confiança em indivíduos que nem comparecem nas sessões das instituições para as quais foram eleitos?»
 
Como é óbvio, a mancha mefítica que é espalhada por estes homens alastra-se e entranha-se nos vários órgãos do corpo que é a democracia, enfraquecendo-a compassadamente.
 
Por consequência, verificamos que a falta de qualidade e escrúpulos dos políticos distancia os cidadãos destes países da democracia, ouvindo-se, ocasionalmente, pelo menos em Portugal, aquela assustadora frase: «Do que precisávamos era de um novo Salazar.»
 
Nesse sentido, aqueles que consideram que a democracia é o melhor dos regimes políticos, porquanto, não sendo perfeito, está dotado dos melhores meios para solucionar os problemas da humanidade, podendo, em determinados aspectos, ficar aquém de outros regimes, mas no cômputo geral, encontrar os desfechos mais justos e correctos para as dificuldades com que se depara, têm de lhe reabilitar a imagem. É preciso lavá-la, expurgá-la dos políticos corruptos que utilizam as instituições democráticas para alargarem as suas redes de influências e que baixam a cabeça aos líderes dos grupos de interesses. Porém, não chega retirá-los; é forçoso procurar as melhores e mais competentes individualidades para os mais importantes lugares, tendo como critérios: o mérito, a capacidade, a eficácia e a imarcescibilidade. Só assim se deixará de fechar os olhos aos grandes golpes financeiros que, em tempo de crise, são revelados, porque as circunstâncias forçam à inspecção dos buracos que, até à altura, haviam sido ignorados.
 
Ainda assim, qualquer câmbio afigura-se assaz complexo; pois são raras as pessoas com qualidade que querem ocupar posições de poder. A maior parte foge dos cargos políticos por saber que será pressionada a agir, amiúde, contra os interesses do seu país, ou porque simplesmente se sente nauseada pelas intrigas que grassam em grande parte dos recantos da actual política democrática.
 
A transformação tem de ser drástica, ou não antevejo um bom futuro para a democracia. Na verdade, a sua queda não será de um momento para o outro, pois escuda um conjunto de princípios que agradam às pessoas, dando-lhe bases fortes e alguma blindagem. Todavia, o cansaço aumenta e as suas falhas são empoladas, dia após dia, pelos escândalos mediáticos e pela falta de segurança. Não nos podemos esquecer que o regime democrático oferece aos seus inimigos as armas para o combater; tais como: a tolerância e a liberdade de expressão.
 
Consequentemente, como referido, ou a credibilidade é restaurada, ou, em breve, os cidadãos dos países ocidentais estarão dispostos a procurar novas soluções políticas, que podem redundar na criação de novos regimes políticos abertos à liberdade, quer material, quer formal; ou no regresso, diria mais retrocesso, a ideologias políticas constringentes e excessivamente limitadoras dos direitos, liberdades e garantias.
 
Por isso, é importante que a campanha do Dr. Santana-Maia Leonardo tenha em conta esta necessidade de ciscar a democracia, visto que todos os contributos são essenciais para a sobrevivência do regime democrático.

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1 comentário

De MAL CARNE a 15.01.2009 às 19:34

Não há crise da democracia. Há uma crise da Europa que chegou ao fim de um ciclo e não atina com um novo modelo para encetar um novo ciclo. A Europa tornou-se numa «tia» de meia idade, ainda próspera, mas avessa a qualquer risco, e que vai deixando as suas economias serem corroídas pela inacção, por essa aversão ao risco.

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