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Quarta-feira, 17.06.15

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Quarta-feira, 17.06.15

Carta aberta aos militantes socialistas

Henrique Neto - Candidato a Presidente da República

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Desde que apresentei a minha candidatura à Presidência da República que os órgãos de comunicação social não se cansam de me interrogar sobre as minhas relações com o Partido Socialista. Pessoalmente não vejo grande interesse nesta questão, no meio de tantos problemas que o nosso País enfrenta, mas também não quero deixar de esclarecer a minha posição.

Depois de aderir ao PS fui um entusiasta das políticas decididas durante os Estados Gerais para uma Nova Democracia e depois apoiei o Governo do PS tanto quanto as oportunidades me permitiram, até ao momento em que o partido deixou de cumprir as suas promessas eleitorais, se afastou de uma governação consequente com o interesse nacional e passou a navegar à vista sem coerência estratégica, comprometendo com isso o futuro do País.

Por exemplo, uma das principais críticas feitas aos governos de Cavaco Silva era a da política do betão; ora os nossos governos continuaram essa política de mais auto-estradas, estádios inúteis, Expo, Polis, etc. A especulação imobiliária, com a construção excessiva na periferia das grandes cidades e o abandono dos centros urbanos, levou a que interesses corruptos de promotores imobiliários invadissem as autarquias, por via de decisões e de indecisões que não podiam ter o meu apoio.

Fui muito crítico dos governos de José Sócrates por razões muito concretas: autoritarismo, endividamento do Estado para além de toda a prudência, parcerias público-privadas ruinosas, privilégios de sectores da economia de bens não transaccionáveis à custa do conjunto da economia, nomeadamente das exportações e das famílias. Estive ainda contra a intervenção do Estado no sistema financeiro e contra a visível promiscuidade entre a política e os negócios, nomeadamente do BES/GES, mas também contra as intervenções feitas no BPN, BPP e PT e contra o uso da Caixa Geral de Depósitos na especulação financeira das empresas do regime.

Sempre critiquei a direita portuguesa e nunca me revi nas suas políticas, nomeadamente nas do actual Governo, mas reconheço que o ataque ao Estado Social foi muito facilitado pela dependência financeira do Estado, resultante da gestão aventureira anterior. Em coerência, apoiei António José Seguro no seu esforço de afastar o PS da promiscuidade dos interesses, bem como na tentativa de fazer algumas reformas essenciais para que o PS voltasse a ter o seu lugar junto dos portugueses, como o grande partido da liberdade, da verdade e da tolerância. Infelizmente, o sistema que nos trouxe até esta crise de valores não deixou que as reformas se fizessem em toda a sua extensão. Lamento-o, como lamento que as propostas que apresentei aos XII e XIII Congressos não tenham sido ouvidas, já que teriam conduzido Portugal para o progresso e para o crescimento económico. A Irlanda , que então propus ao PS como o modelo para a governação económica de Portugal, tem agora uma economia a crescer acima dos 4% ao ano. Poderia ter sido esse o nosso caso.

Sei que muitos membros do Partido Socialista não gostaram das minhas críticas, como sei que alguns não gostaram que eu tenha alertado para os seus interesses em negócios pouco claros, como por exemplo a venda da GALP à italiana ENI. Todavia, sempre estive na primeira linha da defesa dos valores e da honradez do PS, pensando no futuro, e não fui eu que conduziu o País para a dependência externa, para a estagnação económica e para o empobrecimento das famílias portuguesas, ao mesmo tempo que muita gente enriqueceu sem causa conhecida.

Finalmente, se fui crítico, assumindo o legado histórico do PS, foi porque para além de militante socialista sou português e não há para mim interesse partidário que possa sobrepor-se à defesa coerente e exigente de uma vida melhor e mais digna para todos os portugueses, que merecem viver num País moderno, desenvolvido e justo.

Em qualquer caso, chegado aqui, tenho a consciência tranquila: a minha candidatura é a consequência natural do meu empenhamento de muitos anos e não foram as minhas críticas que prejudicaram o PS, ou que o colocaram na difícil situação em que hoje se encontra. Eu apenas fiz o que me foi possível para o evitar.

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