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COLUNA VERTICAL



Domingo, 31.07.16

O inesquecível JJ, o melhor de sempre

Um filho de um amigo meu perguntou-me outro dia qual tinha sido para mim o melhor jogador do Vitória.

Para mim, o melhor jogador do mundo de todos os tempos foi este.

Melhor do que Messi, Cristiano Ronaldo, Eusébio, Maradona e Pelé.

E foi o melhor de sempre porque foi o jogador do Vitória que me fez sonhar que um dia o Vitória havia de ser campeão.

Jacinto João foi jogador do Vitória que mais contribuiu para que tivesse uma infância feliz.

Nesse tempo, ser do Vitória era motivo de orgulho.

Jogávamos contra todas as equipas olhos nos olhos, sem subserviências, nem tremores.  

Jacinto João 1.jpg

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Sábado, 30.07.16

A República (é) de Lisboa e o Reino de Portugal

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Nasci no dia 5 de Outubro, numa família republicana. A causa monárquica sempre me pareceu uma coisa tão deslocada no tempo que nunca questionei a natureza republicana do regime. Até hoje. Com efeito, ocorreram dois acontecimentos este ano que me fizeram mudar radicalmente de ideias: um externo (a sucessão de D. Juan Carlos) e outro interno (a reforma do mapa judiciário).

Com a sucessão de D. Juan Carlos, percebi uma coisa que, nesse momento, se tornou óbvia para mim, tendo em conta o fervilhar dos nacionalismos: que apenas o Rei era capaz de garantir a unidade do Estado espanhol. Por sua vez, com a reforma do mapa judiciário, percebi que, à medida que os votos se vão amontando na reduzida faixa litoral Lisboa - Porto, a República vai-se confinando paulatinamente a esse território. Ou seja, enquanto a monarquia tem o condão de esticar o território, a República encolhe-o.

O Rei, ao contrário do Presidente da República, é uma instituição que, por via da sucessão hereditária, transporta consigo todo o património histórico e cultural do reino. E, nessa medida, resiste muito melhor às pulsões das modas e do tempo presente, sempre efémero e circunstancial, do que um Presidente da República que, para ser eleito, tem de ser da cor da moda e andar a reboque das maiorias. Por alguma razão, o Rei é de Portugal e o Presidente é da República.

Nas monarquias parlamentares, até o povo tem mais facilidade em distinguir o essencial do circunstancial. O essencial, que tem a ver com a independência nacional, a soberania e a unidade do estado, tem por referência a figura do Rei; o circunstancial, que tem a ver com a governação do país em cada momento, depende inteiramente do Parlamento eleito.

Neste momento, por via da concentração dos votos na região de Lisboa, a República deixou de ser portuguesa e passou a ser lisboeta. E a elite política que nos governa e que se vai amontoando em Lisboa é incapaz de abrir mão do que quer que seja com vista a equilibrar e repovoar o território. O mais que se lhes consegue arrancar é meia-dúzia de frases feitas, que reproduzem sempre nos discursos de circunstância, e uns putativos incentivos à fixação de algumas empresas no interior, incentivos esses a que se candidatam apenas as empresas que, por natureza, não podem ficar no litoral.

Ora, como todos sabemos, num país com a nossa configuração, em que a costa litoral é o que tem maior valor económico e o mais apelativo do ponto de vista empresarial, o interior só pode ser repovoado através da deslocação de serviços de Lisboa para o interior, designadamente, da universidade pública, dos quartéis da tropa, de grandes hospitais, de Tribunais, de Direcções Gerais, de Ministérios, etc.. Tanto mais que Lisboa é uma zona sísmica pelo que não é prudente que tudo isto aí se amontoe.

No entanto, o processo é precisamente o inverso. Ao mesmo tempo que fala em investir no interior, o Governo vai varrendo, literalmente, as pessoas do interior para o litoral com o encerramento de escolas, tribunais, centros de saúde, etc.

Antes que seja demasiado tarde, Alentejo, Beira Interior e Trás-os-Montes deviam unir-se e formar um grande movimento com vista a resistir ao poder político de Lisboa, sob pena de, muito em breve, quer por força das políticas dos governos, quer por força da quebra de natalidade que vai ter especial impacto nestas regiões, assistirem à morte das suas aldeias, vilas e cidades. É a HORA!

Março de 2014

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Sexta-feira, 29.07.16

Caixa Banco (CGD + Novo Banco)

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Quinta-feira, 28.07.16

Meu avô, pai e mestre

Santana-Maia Leonardo - Nova Aliança de 26-7-2013 

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No dia 26 de Julho de 1990, dia de Sant'Ana e dia dos avós,  faleceu o homem que mais me marcou e que eu mais admirei em toda a minha vida: António Maria de Santana Maia, nascido em Mouriscas, no dia 26 de Maio de 1903.

Começou por ser meu avô e acabou por ser meu pai e o meu mestre.

Dinheiro, propriamente dito, nunca me deu. Mas aprendi com ele que só dá dinheiro aos filhos quem não tem mais nada para lhe dar. Ou, como ele me dizia: «só se deve dar dinheiro a um filho quando ele não precisar dele».

Quando o conheci, já era um homem considerado e respeitado não só em Ponte de Sor, onde fixou residência, como no distrito de Santarém e Portalegre.

Advogado brilhante e conceituado, muito para além das fronteiras destes dois distritos, foi ainda notário, presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor e agricultor.

Como Presidente da Câmara, cargo que ocupou apenas durante um curto período e com a condição de não se filiar no partido do regime, a ele se deve o primeiro Plano de Urbanização de Ponte de Sor, conseguido contra muitas resistências, em virtude do mesmo prever a expropriação de terrenos de algumas famílias importantes e com peso em Ponte de Sor.

E como Presidente da Câmara soube ainda resistir à tentação de utilizar o cargo e a sua influência para impedir, com o eclodir da guerra colonial em 1961, que o seu filho embarcasse para o Norte de Angola num dos primeiros contingentes de soldados portugueses. Enquanto, para uma larga maioria, os cargos públicos são um meio para obter favores, para outros, impõem-lhes o dever moral de dar o exemplo.

Homem íntegro, de palavra, de convicções e de coragem, soube guiar toda a sua vida pelos padrões morais do berço humilde onde nascera.

A sua cultura impressionava. Nunca houve uma palavra, um conceito, uma dúvida, um livro de que eu lhe falasse ou que lhe perguntasse que ele não conhecesse ou que não soubesse a resposta.

E apesar de ser de pequena estatura (1,60m de altura), foi até hoje o único homem ao pé do qual eu, com o meu 1,92m, me senti sempre pequeno.

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Quarta-feira, 27.07.16

Aproveite para ler nas férias uma reflexão politicamente incorrecta sobre Portugal e os portugueses

"A TERRA DE NINGUÉM" é uma reflexão extremamente crítica sobre Portugal e os portugueses, as nossas instituições e as nossas rotinas.

Sem nos conhecermos e reconhecermos os nossos defeitos, erros e insuficiências, é impossível mudar o nosso destino.

A 3ª edição do livro "A Terra de Ninguém" pode ser adquirido nas lojas da Livraria Bertrand, na Livraria Alêtheia (Lisboa - Rua de O Século,  13), na Livraria Nun' Alvares (Portalegre) e na Farmácia Silva (Abrantes).

Pode ainda ser adquirida na net, bastando clicar sobre a foto do livro:

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Terça-feira, 26.07.16

Abrantes

Recordar um texto que escrevi precisamente há um ano.

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Santana-Maia Leonardo - Nova Aliança de 24-7-2015

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Houve, uma altura, em que acreditei que Abrantes tinha carácter para se afirmar como uma das cidades mais importantes da região centro, capaz de fazer a ponte entre Lisboa e Espanha, liderando o território até à fronteira espanhola e funcionando como uma cidade tampão no processo de desertificação.

Enganei-me redondamente. Enquanto D. Luísa de Gusmão preferia ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida, Abrantes optou por ser duque a vida toda. Mas infelizmente nem duque de trunfo é. Pelo contrário, Abrantes é, hoje, a carta mais descartável do baralho do Médio Tejo e do distrito de Santarém.

E não nos iludamos: Abrantes já não tem condições para reverter a situação até porque o processo de desertificação começa sempre por levar os melhores, os mais qualificados e os mais ambiciosos. E não se muda o destino de uma cidade ou de uma região quando se deixa partir os melhores.

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Segunda-feira, 25.07.16

Atentado falhado no Rio de Janeiro

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Domingo, 24.07.16

Portugal e Lisboa

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A forma como o Governo [1] se prepara para fazer a distribuição dos fundos comunitários é ultra-vergonhosa. Mais uma vez e seguindo à risca o roteiro do Bloco Central, o grosso da fatia vai ser engolida pela região mais rica de Portugal e por uma das mais ricas da União Europeia. Ou seja, mais uma vez, a região mais rica de Portugal vai abotoar-se com os fundos destinados às regiões mais pobres.

Quando é a pedir, Portugal invoca o facto de ser um país pobre e periférico mas, depois, quando se apanha com o dinheiro no bolso, manda às malvas as regiões mais pobres e periféricas de Portugal.

Infelizmente a liderança socialista de António Costa [2] também não deixa antever uma alteração de estratégia relativamente a esta matéria. Bem pelo contrário ou não fosse António Costa presidente da câmara de Portugal. Aliás, o simples facto de acumular o cargo de presidente da câmara de Lisboa com o de secretário-geral do PS é bem demonstrativo desta maneira tão politicamente portuguesa de confundir Portugal com Lisboa. Ou acha o leitor que seria possível acumular os cargos se, em vez de presidente da câmara de Lisboa, fosse presidente da câmara de Bragança, Viseu, Portalegre ou Beja?

Dezembro de 2014

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[1] Governo de coligação PSD-CDS.

[2] Secretário-geral do PS, candidato a primeiro-ministro e presidente da câmara de Lisboa.

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Domingo, 24.07.16

Francisca Gomes (Abrantes) venceu a Gala Final de FestFado

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Francisca Gomes, de Abrantes, venceu a Iª edição de FestFado do Alto Alentejo, que decorreu em Ponte de Sor durante os últimos 6 meses e que teve a Gala Final no passado dia 22 de Julho, no Cine Teatro local.

A excelente organização, que teve na nossa conhecida Dora Maria o seu cérebro e que envolveu fadistas consagrados nas seis sessões de selecção dos finalistas, conseguiu atrair fadistas de todo o país de enorma qualidade, o que tornou ainda mais notável a vitória da fadista de Abrantes na Gala Final.

Com efeito, só uma fadista de excelência seria capaz de arrebatar o primeiro lugar e, desta forma, ter a oportunidade de gravar um disco com o selo de garantia de Mestre Custódio Castelo, o presidente do júri.

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Sexta-feira, 22.07.16

O encerramento das escolas

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Hoje «o superior interesse das crianças» é o chavão com que os mais cínicos enchem a boca para justificar aquilo que não é nem do interesse das crianças, nem dos pais, nem do país.

É óbvio que, do ponto de vista individual, a cidade e, em última instância, a capital oferecem ao cidadão melhores condições e mais oportunidades a todos os níveis (educação, profissão, lazer, etc). No entanto, do ponto de vista colectivo, é absolutamente essencial o (re)povoamento do território e o combate à desertificação do interior. Ou seja, para que a qualidade de vida das pessoas que vivem na cidade e na capital seja sustentável a médio prazo, é necessário que as aldeias e freguesias do interior se mantenham povoadas.

Ora, se a vida na cidade e na capital oferece melhores condições e mais oportunidades ao cidadão, tal significa que quem vive na cidade e na capital tem de aceitar pagar o preço para que a fixação de pessoas no interior seja atractiva e estas se sintam compensadas desse seu sacrifício pelo bem de todos.

Isto não significa, obviamente, que a escola só por si garanta a fixação das pessoas nas freguesias rurais. Mas a escola é o mínimo que se pode oferecer a quem aí aceitar viver. Sendo certo que as contrapartidas a pagar às populações que aceitem viver nas freguesias rurais não se pode resumir à escola. Tem de se lhes conceder vantagens na compra de habitação, no acesso à saúde e à educação, nos transportes, oferecer-lhes equipamentos de lazer e de ocupação de tempos livres, conceder-lhes benefícios e isenções fiscais, etc.

E só desta forma, criando condições à fixação das populações nas freguesias rurais do interior do país, se pode, em boa verdade, falar do superior interesse das crianças: crescer num país com futuro.

Setembro de 2010

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Quinta-feira, 21.07.16

Quem se persegue a si próprio nunca se consegue agarrar

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Terça-feira, 19.07.16

Abrantes, cidade do Alto Alentejo

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A localização de Abrantes no centro de Portugal, a meio caminho entre Lisboa e Espanha e entre o Algarve e a Galiza, deveria torná-la só por si numa das cidades mais importantes do nosso país. Não é, por acaso, que reza o ditado que é “no meio que está a virtude”. E num país tão pequeno como o nosso, Abrantes, pela sua localização geográfica, deveria aspirar a ser, pelo menos, a capital da Região Centro.

Infelizmente, Abrantes não só não tem sabido tirar partido da sua localização estratégica como está a perder importância regional de forma acelerada.

Se olharmos desapaixonadamente para o mapa de Portugal, não podemos deixar de concluir que não faz qualquer sentido autonomizar um distrito extremamente pobre, desertificado e pequeno, como é o caso do distrito de Portalegre, ainda por cima encravado junto à fronteira espanhola. Os distritos de Portalegre e Santarém deveriam ser obviamente um único distrito, até porque não têm dimensão, nem população para mais. E Abrantes deveria ter capacidade e energia para unir e fortalecer os laços entre ambos, puxando Santarém para Espanha e Portalegre para Lisboa, dando coesão ao novo distrito, em benefício de todos.

Mantendo-se os dois distritos separados, Abrantes tinha tudo a ganhar em pertencer ao distrito de Portalegre e tudo a perder em ficar no distrito de Santarém. Não é necessário ser muito inteligente para chegar a esta conclusão óbvia. Com efeito, se Abrantes pertencesse ao distrito de Portalegre, seria a cidade mais importante deste distrito, não só por ser a mais populosa mas sobretudo por se localizar do lado ocidental do distrito, ou seja, do lado certo. O Hospital e o Tribunal de Abrantes ganhariam uma relevância natural, no contexto distrital. Quando se está doente, por exemplo, toda a gente quer aproximar-se de Lisboa.

Pelo contrário, no distrito de Santarém, Abrantes fica na ponta esquecida. A não ser as pessoas de Abrantes, quem é que, no distrito de Santarém, troca o Hospital de Santarém, Torres Novas ou Tomar pelo de Abrantes? Quem é que quer andar para trás? E quem diz o Hospital diz o resto. Veja-se o que sucedeu ao tribunal de Círculo de Abrantes. Desapareceu do mapa, sendo hoje Abrantes uma cidade mais irrelevante do que Ponte de Sor, na nova organização judiciária. E quantas pessoas de Torres Novas, Tomar ou Santarém vêm fazer compras a Abrantes? É mais fácil ver pessoas de Abrantes em Santarém, Tomar, Torres Novas ou Leiria do que o contrário. Quem faz e sempre fez vida com Abrantes são as localidades da outra margem do Tejo: Gavião, Ponte de Sor e Bemposta.

Abrantes, se pertencesse ao distrito de Portalegre, tinha não só todas as condições para crescer e transformar-se na cidade mais importante do distrito como daria sustentabilidade e viabilidade a um distrito que, neste momento, é já uma pura ficção. Além disso, Abrantes é uma cidade tipicamente do Alto Alentejo, ou seja, uma zona de transição entre o Alentejo (a sul), as Beiras (a norte) e o Ribatejo (a oeste). Aliás, Abrantes reúne estas três características: Bemposta (Alentejo), Tramagal (Ribatejo) e Mouriscas (Beiras).  

Por que razão, então, o poder político abrantino não se bate para que Abrantes passe a pertencer ao distrito de Portalegre e à sub-região do Alto Alentejo? A resposta parece-me tão óbvia que nem necessitaria de ser respondida. Por que será, estimado leitor? Porque, para os políticos de Abrantes, o caminho mais perto para chegar à capital é Tomar, Santarém e Lisboa. Ou seja, os interesses do município de Abrantes são, neste caso, conflituantes com a carreira dos políticos locais. Sem esquecer que Abrantes é uma excelente cidade para os políticos abrantinos convertidos a Lisboa: não custa nada dar aqui um saltinho para vir fazer campanha eleitoral, dar uma palestra ou jantar com militantes e simpatizantes. Fica apenas a uma hora de caminho e até dá para ir e vir no mesmo dia.

Dezembro de 2014

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Domingo, 17.07.16

Obrigado, Éder!

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Agora que terminou o Europeu e os portugueses se preparam para regressar às suas tão interessantes conversas de café, era bom que cada um de nós, antes de abrir a boca na defesa de teorias sociológicas de meia-tigela, não se esquecesse de uma coisa:

o mais importante golo da história do futebol português foi marcado por um preto, nascido na Guiné, filho de pais guineenses, criado desde os cinco anos de idade numa instituição, cujo pai está a cumprir pena de prisão por homicídio e que não jogou em nenhum clube de Lisboa e Porto (nem no Benfica, nem no Sporting, nem no Porto).

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Sábado, 16.07.16

O regresso de Odorico

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Já mandei abrir um rigoroso inquérito para apurar as responsabilidades e punir os responsáveis”. Era sempre assim que reagia Odorico Paraguaçu quando falhava alguma das suas ínvias iniciativas para inaugurar o célebre cemitério de Sucupira. E perante o olhar atónito dos seus colaboradores, que bem sabiam ser ele o principal responsável, Odorico tranquilizava-os. O importante era ganhar tempo para o assunto deixar de ser notícia. E, depois, quando o assunto caísse no esquecimento, o inquérito seria arquivado por inconclusivo.

Ao repetir agora a rábula de Odorico Paraguaçu, a ministra da Justiça [1] deve estar convencida de que só ela é que vê telenovelas em Portugal. Infelizmente, nós já nos rimos o suficiente com Odorico para agora já não acharmos graça à repetição da novela em versão feminina.

Em todo o caso, para aqueles intelectuais que não gostam de novelas e, consequentemente, não se aperceberam que Odorico Paraguaçu é o novo ministro da Justiça, gostaria de lhes chamar a atenção para uma coisa óbvia: com Citius ou sem Citius, a justiça ficava sempre sitiada.

Mas deixemos os “entretanto” e passemos aos “finalmente”. Há tribunais com cinco vezes mais juízes do que salas de audiência. Transferiram-se mais de três milhões de processos para tribunais que não tinham nem instalações, nem funcionários em número suficiente para os receber, o que significa que foi uma sorte o Citius não funcionar porque camuflou todos os outros gravíssimos problemas.

Além disso, é ofensivo ouvir a ministra insinuar que contra esta reforma estão interesses poderosos, quando os grandes defensores desta reforma são precisamente as grandes sociedades de advogados e o poder económico e financeiro sediado em Lisboa que acham que os tribunais só deviam servir para resolver os seus problemas, falando sempre com enorme desprezo e enfado das ninharias que afectam a vida da ralé e do interior pobre.

Os únicos interesses violentamente atingidos por esta reforma são precisamente os das pessoas mais pobres das zonas mais pobres de Portugal que ficaram a mais de 100 Km dos tribunais de comarca, sendo certo que 10 Km na serra não demoram a percorrer o mesmo tempo que 10 Km de metropolitano. E sabendo-se que o apoio judiciário não paga o transporte de táxi, como se garante o acesso ao direito e à justiça desta gente que não tem meios nem transporte público que lhes possibilite a deslocação ao tribunal?

Esta gente já vive no fundo de um poço e o Governo retira-lhe agora a única escada de acesso à cidadania.

Para já não falar das consequências para as empresas e serviços do interior sediados fora das capitais de distrito quando ficarem dias inteiros privados dos seus trabalhadores que sejam indicados como testemunhas, uma vez que estas vão ter de se deslocar em grupo e a primeira a ser ouvida vai ter de esperar pela última. Perde-se, assim, uma das medidas emblemáticas do novo Código de Processo Civil que obriga os juízes a fixar as horas em que as testemunhas vão ser ouvidas.

Além disso, como o interior pobre litiga quase todo com apoio judiciário, as custas com as deslocações e os dias perdidos pelas testemunhas não só vão aumentar muito como vão ser pagas pelo Estado, o que vai sobrecarregar ainda mais o orçamento do ministério da Justiça.

Concluindo: para que a reforma do mapa judiciário resulte numa verdadeira poupança do funcionamento da máquina judiciária, é necessário privar o interior pobre de aceder ao direito e à justiça. Caso contrário, a justiça sairá mais cara ao Estado, às empresas e aos cidadãos.

Acontece que privar o interior pobre de aceder ao direito e à justiça constitui uma violação flagrante de um princípio constitucional estruturante do Estado de Direito democrático. Em Portugal, já havia portugueses de primeira e de segunda. Agora passa a haver uma terceira categoria: os excluídos.

Outubro de 2014

______________

[1] Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça do PSD

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Quinta-feira, 14.07.16

Porque

Sophia de Mello Breyner Andresen in Mar Novo (1958)

 

Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.

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