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COLUNA VERTICAL



Segunda-feira, 31.10.16

"O Cântico Negro" de José Régio na voz de João Villaret

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

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Sábado, 29.10.16

El cant del Barça - Més que un club

FCB.jpg

Para se perceber o que significa o FC Barcelona, temos de conhecer a história do clube nos anos da ditadura de Primo de Rivera, da guerra civil e do franquismo, quando se tornou num clube integrador e lutador, colocando-se do lado das causas justas e da democracia.

Em 1925, o presidente fundador do Barça, o suiço Hans Gamper, é inabilitado para sempre de pertencer aos órgãos directivos do clube, por imposição do ditador Primo de Rivera.

O grito "Visca el Barça!" é proibido e, durante a férrea ditadura franquista, o FC Barcelona é obrigado a mudar o nome para CF Barcelona (espanholização do nome), a alterar o emblema (eliminação das quatro barras da bandeira catalã) e o nome "Barça" é proibido.

Enquanto o mítico presidente do Real Madrid Santiago Bernabéu era um ultraconservador que lutou ao lado dos franquistas, tendo participado, inclusive, no cerco a Barcelona no final da guerra civil, o presidente do Barça Josep Suñol é fuzilado, no dia 6 de Agosto de 1936, quando rebenta a guerra civil, por soldados franquistas.

Durante a ditadura franquista, o FC Barrcelona converteu-se, praticamente, no único veículo de protesto contra a ditadura.

E é precisamente este passado histórico do Barça que leva o presidente Narcis de Carreras, no seu discurso de 17 de Janeiro de 1968, a proferir a frase que se tornou no lema do clube: "O FC Barcelona é algo mais do que um clube de futebol."

Visca el Barça!

Hino FCB (português).jpg

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Quinta-feira, 27.10.16

Os vouchers e o Benfica

Santana-Maia Leonardo

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Dois em cada três portugueses é do Benfica. Isto é garantido pelos próprios benfiquistas. Basta ouvi-los falar no café ou na televisão. E mesmo admitindo que o Benfica ainda não tenha atingido este número, não tardará muito em alcançá-lo, tendo em conta a apetência natural dos portugueses por se colarem às maiorias vencedores, sejam elas quais forem. E se acrescentarmos a isto a paixão clubística, a irracionalidade e o fervor religioso de que os benfiquistas tanto se gabam, forçoso será concluir que o Benfica, ao contrário dos outros clubes, não necessita de corromper ninguém para ser naturalmente favorecido. Basta tão-só que os seus fervorosos e fiéis adeptos, onde quer que exerçam funções (dirigentes, jogadores e adeptos das equipas adversárias, árbitros, observadores, dirigentes federativos, jornalistas, funcionários públicos, magistrados, polícias, etc), contribuam activamente para as vitórias do seu clube do coração.

Neste contexto, os vouchers para quatro refeições sem limite de preço por cada árbitro e cada observador (ainda que bem mais valiosos do que aquela tão famosa prenda dos pequenos apitos em ouro que eram dados apenas aos árbitros) só podem servir para recordar, no final de cada jogo, as vantagens de se ser benfiquista ou, caso não se seja, de não se afrontar o Benfica e assim ali se poder regressar, sem correr o risco de ser vetado, para receber mais umas refeiçõezinhas. (E ainda dizem que não há fome neste país!…)

Ninguém questiona aqui nem a grandeza do Benfica, nem o bom trabalho desenvolvido por Filipe Vieira na recuperação do prestígio do clube, nem a qualidade do treinador Rui Vitória que, na minha opinião, é superior a Jorge Jesus, porque tem aquilo que falta a este e que é essencial num líder na hora da verdade: o controlo emocional.

Agora, há uma coisa que é impossível de escamotear: não é possível haver verdade desportiva, como resulta claramente do estudo da UEFA, se um dos clubes participantes tem maioria absoluta dos adeptos desse país. O mesmo aconteceria se o Barcelona disputasse o campeonato da Catalunha.

Chegados aqui só vejo uma solução para termos um campeonato competitivo e asseado: o nosso campeonato passar a ser disputado pelas Casas do Benfica. Sendo certo que esta solução, dada natural subserviência dos portugueses em relação a Lisboa, também não é segura, uma vez que o mais certo seria os adeptos do Benfica de Coimbra, Faro ou Vila Real passarem a torcer pela Casa de Lisboa, em vez de torcerem pela Casa do Benfica da sua terra.

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Quinta-feira, 27.10.16

Pierre Kroll explica num cartoon o actual problema da Europa

Cartoon de Pierre Kroll (2011) 

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Quarta-feira, 26.10.16

Não há pai p'rà esquerda

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpg

Dois pais dispõem apenas de um pão para dividir pelos seus cinco filhos.

O primeiro pai reúne os seus cinco filhos em volta da mesa, divide o pão em cinco partes e pede a cada um dos filhos para tirar um bocado.

Por sua vez, o segundo pai, esquerdista convicto, reúne os seus cinco filhos em volta da mesa e bota discurso: “Meus queridos filhos! Enquanto eu mandar nesta casa, nunca haverá de faltar pão na nossa mesa. Por alguma razão o nosso lema sempre foi “a imaginação ao poder”. Por isso, peço-vos que olhem para a mesa e imaginem seis pães. Eu, como sou o mais velho, fico já com este. Os outros cinco são para vocês. E se ficarem com fome, é só imaginarem mais seis que eu até dispenso o meu para que possam encher a barriguinha.

Moral da história: os filhos do primeiro pai ficam todos insatisfeitos, um por ter ficado com o pior bocado, outro com o mais pequeno, outro com a côdea, outro com o miolo, outro porque era pouco... Por sua vez, os filhos do pai esquerdista ficam todos satisfeitos, apesar de não terem comido nada, porque nenhum deles se sentiu preterido ou prejudicado. Pelo contrário, não podiam ter sido tratados com maior igualdade.

É por esta razão que os portugueses são de esquerda. Preferem morrer de fome do que correr o risco de ver o vizinho comer um bocado melhor ou maior do que o dele..

Dezembro de 2012

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Terça-feira, 25.10.16

Prisão fundamentalista

Cartoon de Rui Pimentel (2001) 

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Segunda-feira, 24.10.16

Péssimos patrões, óptimos capatazes

Santana-Maia Leonardo

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Escrevo artigos de opinião, em jornais nacionais e regionais (de norte a sul do país, ilhas incluído), desde os meus 12 anos, ou seja, desde 1970. Apesar de gostar muito de futebol, quer como espectador, quer como jogador, nunca escrevi, até ao ano passado, um único artigo de opinião que versasse sobre o futebol porque olhei sempre para o futebol como um entretenimento e um jogo, nunca lhe tendo dado qualquer relevância política.

Só depois de ler o estudo da UEFA publicado no ano passado sobre a relação dos adeptos com os clubes em cada país, percebi que o futebol português reproduz, na perfeição, essa forma tão especial de ser português: péssimos patrões, óptimos capatazes; reverentes com os de cima, implacáveis com os de baixo.  

O português prefere sempre bajular os grandes a associar-se aos seus iguais ou ao seu vizinho para fazer frente aos grandes. Veja-se o caso dos autarcas em que preferem sempre bajular Lisboa (e, se possível, passar a perna ao vizinho do lado) a associar-se aos concelhos vizinhos para fazer frente Lisboa. Com o vizinho é uma rivalidade de morte; com Lisboa é sempre de chapéu na mão. No futebol e no resto.

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Domingo, 23.10.16

E não sobrou ninguém

 

E NÃO SOBROU NINGUÉM

(Martin Niemöller)

 

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram; 

já não havia mais ninguém para reclamar.

 

INTERTEXTO

(Bertold Brecht)

 

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

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Sábado, 22.10.16

BPN

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Quarta-feira, 19.10.16

Os verdadeiramente grandes e os batoteiros

Santana-Maia Leonardo

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No futebol profissional existem hoje dois tipos de clubes: (I) os clubes de topo que disputam o título da Liga dos Campeões e dos principais campeonatos europeus; e (II)  os clubes que funcionam como viveiros destes clubes e onde se incluem os principais clubes portugueses. E Sporting CP, SL Benfica e FC Porto querem garantir precisamente que o campeonato português é apenas disputado por estes três clubes para terem acesso à montra da Liga dos Campeões, vender o seu produto e dar dinheiro a ganhar aos administradores das respectivas SAD. Reduz-se hoje objectivamente a isto o papel dos principais clubes portugueses. O resto é propaganda interna para manter iludidos os devotos da seita.

Não há um único clube de topo que não fique satisfeito por lhe sair na rifa um clube português. Os nossos gloriosos são os Tondelas e os Aroucas da Liga dos Campeões. As equipas portuguesas até podem bater o pé aos verdadeiramente grandes, mas é mais provável o Arouca eliminar o SL Benfica da Taça do que o SL Benfica eliminar o Barcelona ou o Real Madrid da Liga dos Campeões.

Este modelo de "grandes" e "pequenos" também se reproduz à nossa escala, servindo os clubes "pequenos" como barrigas de aluguer dos "grandes" para estes rodarem os seus jogadores, mas de modo viciado, uma vez que, na Liga dos Campeões, apesar de haver "grandes" e "pequenos", os clubes partem todos em pé de igualdade. Ou seja, recebem todos o mesmo e podem usar todos os jogadores inscritos, sejam emprestados ou não.

Ora, isso em Portugal não sucede porque os grandes não querem correr qualquer risco de não ficar nos lugares de acesso à Liga dos Campeões.  Em Portugal, o campeonato de futebol é um jogo de batoteiros e não há povo como o português para exultar com as vitórias dos seus, ainda que alcançadas com batota.

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Terça-feira, 18.10.16

O português comum raciocina precisamente ao contrário e, depois, admira-se de Portugal ir ao fundo

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Segunda-feira, 17.10.16

Politicamente sou ateu

Santana-Maia Leonardo - Público de 11-12-2013

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Costumo definir-me politicamente como conservador, liberal e socialista. Conservador nos valores; liberal na economia; e socialista nas preocupações sociais. E o PSD era um partido que correspondia bem a esta minha definição.

Distinguia-se do PS sobretudo por dois aspectos: o PS era menos liberal na economia do que o PSD e o PSD era menos fracturante nos valores do que o PS. Isso resultava, aliás, da base de apoio dos dois partidos. Enquanto o PSD representava, sobretudo, os pequenos e médios comerciantes, empresários, agricultores e profissionais liberais, o PS tinha as suas raízes no funcionalismo público.

Quanto ao resto, tinham muita coisa em comum, desde logo as mesmas preocupações sociais e a partilha dos mesmos valores democráticos, designadamente dos valores fundadores das democracias liberais: respeito pelas minorias, pelo estado de direito, pela liberdade de expressão e de opinião e pelos direitos da oposição. É esse património que se está a perder no PSD, uma vez que existe cada vez mais gente a fingir que é mas que verdadeiramente já não é.

Como escreveu recentemente Pacheco Pereira, na génese do PSD, “havia um conjunto de pessoas notáveis a nível local, personalidades com influência. Eram médicos, pequenos industriais, comerciantes, empresários, advogados, operários em muitos casos, com influência nas suas freguesias, cuja vida não dependia do seu papel nas estruturas partidárias. (…) Hoje, há estruturas do partido, com pessoas com carreiras dentro do partido, cuja única preocupação é gerir as suas próprias carreiras (…) e, quando o PSD está no poder, comunicam com os lugares de influência nacional, assessores do governo, administrações regionais.” 

Hoje Portugal está literalmente partido ao meio: de um lado, o sector financeiro e as grandes empresas, protegidos pela lei e pelo governo qualquer que ele seja; e do outro, o funcionalismo público e os assalariados, defendidos nas ruas e nas mesas das conversações pelos sindicatos e pela esquerda.

No actual espectro partidário, não existe nenhum partido que defenda e/ou represente os pequenos e médios agricultores, empresários, comerciantes e profissionais liberais, ou seja, aqueles que são responsáveis por 90% dos postos de trabalho, e que foram, em tempos, a base eleitoral e a razão de ser do PSD. E quando o sector mais dinâmico da sociedade não tem ninguém que o represente politicamente, só se se pode esperar o pior.

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Domingo, 16.10.16

Ladrões!

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Sexta-feira, 14.10.16

Carta aberta aos sócios (vivos) do Vitória e a todos os setubalenses de raça

Santana-Maia Leonardo - Sócio n.º694 de 5/6/1965

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Fiz-me sócio do Vitória no dia 5 de Junho de 1965, com seis anos de idade. Nesse tempo, Setúbal e Vitória tinham sido unidos por Deus e só a morte os podia separar. Em 1967, o meu pai faleceu nesta cidade, com 37 anos, e deixei Setúbal para sempre. Apenas o Vitória, que levei comigo, me mantinha ligado à minha Setúbal, ao meu pai e àquele tempo em que juntos festejávamos e sofríamos por amor ao Vitória e por devoção a Setúbal no Estádio do Bonfim.

Uma das minhas grandes aspirações, quando pedi ao meu pai para me fazer sócio do Vitória com 6 anos de idade (fui eu que pedi), era um dia chegar a sócio n.º1. Para os mais distraídos ou ignorantes, é importante sublinhar que o sócio n.º1 é o símbolo vivo, a bandeira viva, uma verdadeira instituição dentro do próprio clube, porque é ele o depositário dos valores e do património imorredoiro da instituição. O sócio n.º1 não tem poder executivo mas tem o valor simbólico do rei nas monarquias constitucionais. E o seu sucessor natural não são, como é óbvio, os seus filhos ou netos mas o sócio n.º2 e assim sucessivamente.

Até há cerca de uma semana, já me tinha conformado de, por razões naturais, não conseguir cumprir o sonho de infância de chegar a sócio n.º1. Com efeito, para se chegar a sócio n.º1 não basta ser leal ao clube a vida inteira, é necessário também uma grande longevidade, requisito essencial que eu não perspectivo poder preencher.

No entanto, há cerca de uma semana, recebi um dos maiores baldes de água fria de toda a minha vida. Segundo me disseram, a assembleia ou a direcção do clube tinham decidido, há uns anos a esta parte, acabar com as actualizações dos números de sócios. Ou seja, os números de sócios que, em qualquer colectividade viva, digna e honrada, se destinam a hierarquizar os sócios pela sua antiguidade e lealdade ao clube, no Vitória servem, neste momento, para identificar os talhões do cemitério onde estão ou vão ser enterrados os titulares do respectivo número de sócio à data da sua morte.

Pelos vistos, os números de sócios inferiores ao meu deixaram de ser ocupados por sócios vivos mais antigos do que eu para se transformarem em jazigos usados pelos herdeiros do sócio falecido como se o número de sócio fosse propriedade dos sócios e pudesse ser livremente transmitido aos seus herdeiros. Por este andar, qualquer dia também passam a ser vendidos, se é que o não são já.

Eu bem estranhava o meu número de sócio manter-se inalterado há tantos anos mas sempre pensei que isso se devesse ao facto de os sócios mais antigos do que eu serem também mais resistentes. No dia em que recebi esta triste notícia, não consegui dormir e pensei, durante toda a noite, em entregar o meu cartão de sócio. Se o Vitória já morreu, tenham a coragem de o enterrar mas não o transformem num cemitério. Jacinto João, Emídio Graça, Vítor Batista, Jaime Graça e tantos outros grandes jogadores que vestiram com orgulho a camisola do Vitória continuarão a viver certamente no coração de todos os vitorianos mas não podem fazer parte do actual plantel do Vitória. Com os sócios passa-se rigorosamente o mesmo.

Que o clube esteja falido, deixa-me triste!

Que o Estádio do Bonfim, que já foi um dos maiores estádios nacionais, esteja decadente, deixa-me desolado!

Que Setúbal se conforme, hoje, ao triste papel de bairro periférico de Lisboa, envergonha-me!

Mas ver o Vitória transformado num enorme cemitério, provavelmente por já não haver gente viva e que ame verdadeiramente Setúbal e o Vitória em número suficiente, mata-me!

Se o Vitória ainda não morreu (para ser sincero, já não estou tão certo disso), cuidem dele com a dignidade que um clube com a sua grandeza merece, começando por enterrar os sócios que já morrerem para que os vivos ocupem o seu lugar e possam celebrar a VIDA, prestando desta forma a melhor homenagem a todos aqueles, designadamente, aos sócios falecidos, que lutaram, viveram e morreram pelo Vitória.

Não existe grandeza sem mística e não existe mística sem símbolos, sem valores e sem referências. Se o Vitória quer voltar a ser o Vitória tem de renascer das cinzas e tem de começar por dentro e, pelos vistos, do zero.

Como dizia Victor Cunha Rego, “o importante num salto não é o cavalo ou seus arreios: é o coração do cavaleiro”. A qualidade sempre foi mais importante do que o número. Poucos mas bons. Para reconquistar Setúbal e conquistar a Liga, o Vitória e a sua direcção não precisam de muitos soldados mas de um exército leal, disciplinado e organizado, ainda que, no início da caminhada, possa ser pequeno. Mas tem de ser composto por soldados vivos e com grande coração e não por jazigos, campas fúnebres ou infiltrados. E os oficiais deste exército têm de ser os sócios mais antigos. São eles que têm de ter o carisma de arrastar e mobilizar, com o seu exemplo e dedicação, os nossos soldados à Vitória e ao Vitória.

Não quero morrer sem ver o Vitória campeão nacional. E já não posso esperar muito tempo. Pelo Vitória! Até à Vitória Final!

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Sexta-feira, 14.10.16

A democracia portuguesa

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