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COLUNA VERTICAL



Terça-feira, 08.08.17

Fundamentos para a não demolição do antigo Mercado Diário de Abrantes

Armindo Silveira (*)

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No fim do Verão de 2016, a polémica sobre a anunciada demolição do antigo mercado diário de Abrantes estava ao rubro. Populares, indignados, comentavam em surdina esta incompreensível decisão. Nessa altura, por uma feliz coincidência, propus que se fizesse um estudo sobre o mesmo. A proposta foi aceite e eu fiquei com a tarefa de fazer estudo. Assim, foram horas e horas de pesquisa em manuscritos, jornais, fotos e outros documentos dividido entre o Arquivo Municipal Eduardo Campos e na Biblioteca António Botto. O artigo pode ser lido na Revista Zahara nº 29, de Julho de 2017.

Algumas breves notas sobre o mercado coberto

O mercado coberto de Abrantes, destinado à venda de géneros alimentícios, foi inaugurado a 1 de janeiro de 1933. A localização gerou discórdia e no fim de 1927 e início de 1928, foi amplamente debatida através de diversas reuniões de câmara extraordinárias e o Jornal de Abrantes realizou um inquérito onde foram propostas várias localizações.

Reparação e ampliação do mercado coberto em 1948

O projeto de reparação e ampliação do Mercado Municipal de Abrantes data de novembro de 1948 e é da responsabilidade do Arquiteto António Varela, do Engenheiro Jorge de Sena e do Desenhador Manuel Rodrigues. Os responsáveis do projeto em causa justificam a necessidade das obras, com o mau estado da construção, o seu aspeto arquitetónico absolutamente impróprio e a necessidade de alargar as instalações para fazer face ao crescente movimento comercial.

A  1 de setembro de 1949 a obra foi adjudicada ao construtor abrantino António Serra. O orçamento foi assinado pelo Engenheiro Civil Jorge de Sena.

A 28 de março de 1952,, com a presença do Engenheiro Jaime Pascoal de Brito, da Direção Geral dos Serviços de Urbanização, do Major Manuel Machado, Presidente da Câmara Municipal de Abrantes, e de António Serra, empreiteiro, procedeu-se à receção definitiva obra.

Neste artigo de opinião vou-me focar exclusivamente na reparação e ampliação do Mercado Municipal de Abrantes “datada” de 1948 e porquê? Por causa do Arquiteto e Engenheiro Civil responsáveis pela reparação e ampliação, respetivamente, António Varela, do Jorge Cândido de Sena. Mas afinal que são estas personalidades?

António Varela, arquitecto

Segundo, a tese de Hugo Nazareth Fernandes, Contributos para uma hermenêutica da Tradição no Modernismo Português – António Varela o Legado do Invisível – Composição, traçado e simbólica de um arquitecto à sombra de gigantes (1930-1940) António Jorge Rodrigues Varela, professor, pintor e arquitecto, nasceu em Leiria, a 17 de Novembro de 1903. Estudou desenho, na Escola das Belas Artes no Porto com António Carneiro, Acácio Lino e José de Brito e arquitetura com Marques da Silva que concluiu em 1924.

António Varela foi um “quase anónimo” arquiteto modernista português, que ao contrário de outros colegas de profissão, amigos e colaboradores próximos, entre os quais se destacam Almada Negreiros e Jorge Segurado, não se “manifestou”, não se “promoveu” e, aparentemente, não “falou”.  

Durante quase toda a década de 30, António Varela e Jorge Segurado, formaram uma dupla sólida de trabalho cujo início parece remontar a 1931 e à Grande Exposição Industrial Português. Em 1933 elaboraram o projeto definitivo da Casa da Moeda. O Plano de uma Cidade Olímpica em Lisboa no Campo Grande, em 1934 é mais um dos inúmeros projetos de ambos. A década de 30 ficou ainda marcada pela divulgação da sua proposta para o Mercado de Coimbra, obra que não foi executada, mas que permite compreender a sua ação na remodelação de equipamentos públicos tais como o Mercado de Peniche (1940) e o Mercado Diário de Abrantes (1948).

A sua obra incontornável é a Fábrica de Matosinhos da Algarve Exportador Lda de Matosinhos (1938) pois caracteriza de forma mais exata a figura do arquiteto em torno da reflexão entre a Modernidade e marcou indubitavelmente o apogeu do modernismo no panorama nacional da indústria conserveira.

Merece destaque também a Casa da Rua de Alcolena. Projetada em 1951-1955 integrava onze paredes revestidas de azulejos e um vitral da autoria de José de Almada Negreiros, uma escultura e dez baixos-relevos de António Paiva. Com respeito à conjugação das artes na Casa da Rua de Alcolena, o papel e o peso do arquitecto estão ainda por definir. A sua presença mais discreta e silenciosa, face à do proprietário [José Manuel Mota Gomes Fróis Ferrão] e do pintor, levanta inúmeras hipóteses acerca das suas tarefas e da sua influência nas decisões que brotaram na edificação desta obra de Arte Total que é a Casa da Rua de Alcolena.

António Rodrigues Varela faleceu precocemente a 3 de Julho de 1962, na solidão do hospital, sem avisar a família do estado terminal do tumor que o tinha atingido.

A Remodelação do Mercado Diário de Abrantes

 A «obsessão» modernista de Varela em torno do diálogo entre o  «círculo»  e  o  «quadrado»  reemerge  no  caso  da  sua remodelação  do  Mercado  de  Abrantes  (1948)  e  parece revelar a sua preocupação modernista de redefinir o espaço, procurando a sua «concisão» racionalista, sobrepondo-se a uma retórica regionalista da pré-existente.

 Aqui, para além do recurso a uma nova estrutura interior composta por pilares e vigas em betão armado, os tectos abobadados com entradas de luz zenitais (invisíveis do lado da fachada de rua) e as leituras sígnicas dos óculos, que  se  repetem  num  gesto  «quase  hipnótico»,  parecem  querer retificar  o  desenho  das  antigas  fachadas  em  tijolo  numa  interpretação moderna  e  renovada,  revelando  a  necessidade  do  autor  em  conferir  uma expressão  mais  geométrica  e  abstracta  a  estes  pequenos  equipamentos públicos de província.

Jorge Cândido de Sena, engenheiro civil

Jorge Cândido de Sena, escritor, professor universitário, tradutor, poeta e ensaísta, nasceu em Lisboa. Formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto e desenvolveu a sua  carreira profissional (1948-1959)  na Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização e na Junta Autónoma de Estradas. Em 1959 partiu para o Brasil, onde fez o doutoramento na área de Literatura Portuguesa (1964). E a partir de então ensinou como catedrático de Literaturas Portuguesa e Brasileira e Literatura Comparada, também nas universidades de Santa Bárbara e de Wisconsin (EUA).

É, hoje, considerado uma das figuras centrais e influentes da cultura do nosso século XX, mas grande parte da sua existência foi vivida no exílio, no Brasil e nos Estados Unidos da América, por oposição ao regime de Salazar e do Estado Novo, que impediram a sua criatividade crítica e de rara frontalidade: Jorge de Sena (1919-1978), autor de "O Físico Prodigioso", "Sinais de Fogo" e "No Reino da Estupidez", morreu há 37 anos, a 4 de Junho, no seu refúgio de Santa Bárbara (Califórnia).

A Sra Maria do Céu Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Abrantes, afirmou, diversas vezes, que o antigo mercado diário de Abrantes não tem qualquer valor arquitetónico baseando-se na opinião de alguns arquitetos mas nunca revelando o seu nome nem apresentado qualquer documento assinado pelos mesmos.

Na sessão de Assembleia Municipal de 29 de Setembro de 2016 foi aprovado, pela maioria PS, o Plano de Urbanização de Abrantes (PUA) onde consta a demolição do antigo mercado.  Nesta sessão, o membro do Bloco de Esquerda apresentou diversas propostas, onde se incluía a não demolição do antigo mercado. Foi em vão!

Perante estes dados, a maioria do PS Abrantino, dificilmente poderá continuar a defender a demolição do antigo mercado diário de Abrantes. Sugiro que a revisão urgente do projeto “Nó do Mercado” é fundamental para salvar uma das obras do arquiteto modernista português António Varela que, realço novamente, privou com Almada Negreiros, Jorge Segurado e Jorge de Sena. Aguardamos por essa revisão!

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(*) Candidato a presidente da Câmara de Abrantes pelo BE

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