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COLUNA VERTICAL



Sexta-feira, 23.01.09

A ARTE DE FAZER LIXO

Santana Maia in Semanário de 16/3/09

 

Antigamente, a obra de arte estava ao alcance do discernimento de qualquer pessoa, porque estava directamente relacionada com o conceito de beleza. Era o tempo em que imperava a estética aristotélica, a estética da beleza. E o que distinguia o génio do homem comum era precisamente o facto de aquele conseguir conceber coisas belas, dignas de admiração e que demonstravam talento.
 
Hoje, porém, já ninguém se atreve a bater palmas ou elogiar o que quer que seja sem antes ouvir a opinião abalizada dos decifradores das obras de arte. Porque, sem a sua opinião, ninguém sabe se está perante uma obra de arte ou uma porcaria qualquer.
 
Quem já teve a oportunidade de visitar os museus de Arte Moderna que vão proliferando por esse mundo fora, não pode deixar de concluir que é extremamente difícil distinguir grande parte das obras de arte expostas de um guarda-chuva esquecido num canto de uma sala ou de um bocado de reboco caído da parede. Ainda há pouco tempo, no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, uma obra de arte de Jimmy Durham foi destruída por uma inculta empregada de limpeza que resolveu deitar para o lixo os cacos de um lavatório partido que encontrou no chão e que afinal faziam parte da genial obra de arte. É que a obra de arte era precisamente isso: um lavatório vulgaríssimo a quem o artista tinha transformado numa obra de arte depois de o partir de um lado com uma marretada. E a obra de arte era constituída pelo lavatório e pelos cacos caídos no chão.
 
Por sua vez, em Frankfurt, os homens do lixo resolveram atirar para o incinerador a obra de arte de Michael Beutler colocada numa rua da cidade. É certo que a cidade ficou mais limpa, mas o presidente da Câmara ficou ofendidíssimo com os funcionários camarários por não terem reconhecido nuns desperdícios de construção civil uma obra de arte.
 
No entanto, se esta empregada de limpeza e estes homens do lixo se tivessem cruzado com o Moisés e o David de Miguel Ângelo de certeza que não os confundiriam com um bocado de entulho. O mesmo já não sucederia se os levássemos ao Parque Eduardo VII ver o monumento ao 25 de Abril. Donde se conclui que, ao contrário do burguês urbano letrado, qualquer homem do lixo ou mulher da limpeza consegue distinguir facilmente uma obra de arte de um monte de pedras ou de uns cacos de um lavatório vulgar.
 
O culto do criador que hoje se pratica e incentiva serve, na maior parte das vezes e infelizmente, para promover medíocres e dar de comer a comparsas ideologicamente afins. E para comprovar isto mesmo, o jornal Sunday Times resolveu, recentemente, mandar dactilografar cópias integrais dos romances “Num País Livre” (a obra mais aclamada do prémio Nobel Sir Vidiadhar Surajprasad Naipaul) e “Holiday” (escrito pelo vencedor do «Prémio Booker», em 1974, Stanley Middleston) e enviou-as, sob o pseudónimo de jovens aspirantes que queriam publicar o seu primeiro livro, para avaliação das principais editoras e agentes literários britânicos. Nenhuma das grandes editoras britânicas mostrou interesse na sua publicação.
 
Ou seja, hoje em dia, o único critério para avaliar a qualidade de uma obra é o nome de quem a assina. Se for X é uma obra de arte; se for Y é uma porcaria, para já não utilizar outra expressão bem mais adequada. O nome faz-se e promove-se na comunicação social a partir da tertúlia de amigos e de certas correntes ideológicas. E a partir daqui, o sucesso está garantido, tendo em conta que vivemos num mundo onde as pessoas são criadas, desde o berço, a seguirem as modas como rebanhos de ovelhas.
 
Aliás, basta olharmos hoje para um ser humano com olhos de ver e um mínimo de senso crítico para ficarmos de boca aberta: como é possível certas pessoas conseguirem sair à rua, depois de se verem ao espelho? E não faltará mesmo gente disposta a vazar um olho ou a cortar um dedo, no dia em que um artista de vanguarda se lembrar de o fazer. Se bem que, para apreciar certas obras de arte, já é necessário estar cego dos dois.

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4 comentários

De O Cidadão abt a 24.01.2009 às 09:53

Olha! Uma tanguinha vermelha!
È um troféu de caça? Senhor Doutor? Esta imagem reporta cá o Cidadão para o Norte de África e as respectivas Odaliscas. Numa das aventuras foi-lhe proporcionada uma noite das arábias ao partilhar a tenda de uns beduínos, quando a certa altura da night, foram oferecidas cá ao rapaz umas fumaças em cachimbo de água, acompanhadas por quentinho chá verde! A coisa ia a meio, quando, ás tantas, por detrás de umas cortinas, surgiu uma moça ondulante, dançando mui suavemente ao som de duas cítaras e uma flauta! Cá o Cidadão vai tentar descrever o indescritível! A miúda media para aí um metro e setenta e cinco, morena do Sol do deserto, fartos cabelos negros e ondulantes cobriam-na até meio das costas desnudadas, voluptuosa de seios que mostravam dificuldade em se conterem no seu resguardo, um saiote em franjinhas revelador de um belo par de coxas, chocalhinhos de ouro á cintura, tal cascavel suada, meneando as ancas ao ritmo de todo aquele corpinho esguio, de baixo acima e de cima abaixo, ao sabor da música… em insinuosos movimentos ondulatórios qual serpente, parecendo mesmo ser invertebrada… uma fantástica tentação, portanto… a coisa foi aquecendo, os beduínos iam mostrando uns rostos generosos cá ao Cidadão ainda próconfuso… mais adiante… esfregou-se a lâmpada de Aladino que a Odalisca lhe revelou, já noutra tenda mais privada! Ah! Catano!!! Está a ver a associação de ideias com a tanguinha do Senhor Doutor! O princípio de acção-reacção, Freud, etc. È que a tanguinha da miúda era parecida com esta da foto! Chiça! Foi então quando… ali… Bábá!
Por agora, cá o Cidadão tem que largar os teclados e raspar-se, porque a Companheira está para ali com um ar pródesconfiado… e se lê estas cenas, haverá com toda a certeza violência doméstica por estas bandas!
De um seu amigo.

De Rexistir a 25.01.2009 às 04:22


Cidadão Abt

Esta tanguinha é uma das obras de arte assinadas por Jimmy Durham .

Santana-Maia Leonardo

De tz a 24.01.2009 às 17:46

uma das intervenientes do espectáculo "We are one", comemorativo da posse de Obama como 44º presidente dos EUA, citava JFK, na faculdade de Amherst, em 1963:
"Vejo poucas coisas mais importantes para o futuro do nosso país e da civilização do que o total reconhecimento do artista. Para a arte poder alimentar as raízes da nossa cultura, a sociedade tem que libertar o artista, para que este siga a sua visão aonde quer que ela o leve".


De Rexistir a 25.01.2009 às 04:20

Concordo consigo. Mas a arte tem de se distinguir do lixo. Porque se o lixo for arte, todos somos artistas, o que significa que ninguém é artista.

Santana-Maia Leonardo

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