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COLUNA VERTICAL



Domingo, 08.02.09

O MONÓLITO

 por Manuel Catarino

 
Armado em tonto, a cantarolar logo de manhã, porque só pode ser tonto quem cantarola com esta crise, meto a chave na caixa do correio e sai de lá de dentro uma molhada de papel. Umas poucas contas e um montão de publicidade de produtos que eram um regalo para os olhos e uma asfixia para a carteira. No meio deste embrulho vejo uma revista com um papel de superior qualidade e uma excelente impressão, seguramente cara.
 
Mas, se a primeira publicidade era gratuita, já esta revista, também ela de publicidade mas encapotada, daquela publicidade subliminar que é proibida aos publicitários, foi-me posta na caixa do correio porque eu, contribuinte, involuntariamente, já a tinha pago e bem cara. O seu interior era um olhar para dentro da obra do executivo e uma afronta a gastos sumptuosos para um concelho com tantas carências. Já a contracapa apresentava uma composição de arquitectura vetusta, elegante e sóbria como é a cidade de Abrantes e, no meio destes “monumentos”, um monólito.
 
Sabem os senhores governantes que esta composição fez-me retroceder aos anos 90, quando o país presidiu, pela primeira vez, à Comunidade e se construiu também um edifício paralelipipédico junto ao Mosteiro dos Jerónimos a que pomposamente chamaram Centro Cultural? Seguramente conhecem as controvérsias sobre a estética e o enquadramento urbanístico, as derrapagens orçamentais na sua construção e as actuais, na manutenção. Estamos todos a pagar essa vaidade e esta afirmação não é populismo.
A sensação que temos é que a falta de criatividade deste executivo para implementar incentivos à fixação de residentes na parte da cidade mais antiga, fomentar actividades e comércio local, recuperar imóveis apalaçados para fins culturais e assim evitar que as ruas da cidade, que tão bem recuperou, sirvam só para sair, levou-os a copiar o modelo de Belém, independentemente de quem pagará a factura.
 
Não temos formação técnica para avaliar do mérito de um projecto arquitectónico assim arrojado. Aliás, pensamos que, mesmo que se trate de um projecto de autor reconhecido, não tem forçosamente de ser do interesse de Abrantes ou do concelho e, que se saiba, ainda não foi explicado aos abrantinos da sua rentabilidade, porque a arte também é um negócio. Já agora, senhores governantes deste concelho, expliquem também aos eleitores a razão da nova geminação. É que, com tantas passeatas a França, Cabo Verde e agora ao Japão é difícil de acreditar que os nossos impostos têm uma razão social. Rejeitamos que identifiquem este discurso com populismo, porque ele assenta, tão só, na consciência do descrédito de setenta por cento dos portugueses na classe política.
 
 Agora que, como candidato a uma junta de freguesia, também estou na política, não gostaria que me identificassem com este carreirismo despesista. Importa pois adoptar uma postura de rigor e ética para com os dinheiros públicos e estabelecer prioridades, tendo em conta as verdadeiras carências das aldeias do concelho e da própria cidade. Olhemos, a título de exemplo, para as povoações que não possuem saneamento básico e que coercivamente o pagam.

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