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COLUNA VERTICAL



Domingo, 30.07.17

A água, o Aquapolis e as diversas barreiras artificiais nos rios

Manuel António (*)

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Algumas ideias e abordagens ligeiras escritas com o único intuito de promover o debate.

I

SOBRE A ÁGUA

A água é um elemento natural e fundamental à vida. No entanto a forma como a usamos actualmente nada tem de natural: na indústria, agricultura e consumo humano. Sabemos que ter água em casa não é uma coisa natural – o natural seria ir buscá-la à fonte e, assim, os consumos seriam incomensuravelmente inferiores, e não gastaríamos 160 litros de água por dia..
Assim, quando incorporamos elementos não naturais no processo, quase sempre também temos que arranjar soluções artificiais para os resolver.
Para além disso sabemos das alterações climatéricas, das pluviosidades reduzidas e dum tipo de floresta que não é geradora de solo – antes pelo contrário. Como sabemos, um solo rico guarda sete vezes mais água, que uma terra pobre. Assim, além de chover menos, a água não fica onde chove e vai-se para longe, quase sempre agravando os problemas erosivos.
Torna-se assim imperioso – porque as pessoas não estão receptivas à ideia de lhes faltar água em casa –  ter água disponível, sempre. Até há uns tempos funcionaram os aquedutos, os poços e as fontes, mas esse tempo já lá vai há muito. Depois vieram as barragens e os furos. Os furos – alguns deles a profundidades malucas (estão a captar água que choveu há décadas). Mas é tal a quantidade de água que se retira dos veios freáticos e aquíferos, que esses níveis médios estão a baixar assustadoramente. Assim, muitas árvores morrem devido à baixa humidade presente no solo, a desertificação avança. E este problema vai agravar-se assustadoramente.

Como isso se resolve?                                                   

Redução do consumo; parando as alterações climáticas; fazendo barragens, albufeiras, charcas; fazendo uma radical transformação na floresta?

Presentemente a única forma razoável de o fazer é através da retenção das águas das chuvas; barragens, açudes, charcas, albufeiras, etc. – pois além de reservas diretas, estas estruturas alimentam permanentemente os aquíferos e veios freáticos (para além de serem ajudas importantes no controlo de cheias).

Vamos fazer estruturas dessas em todo o lado? Não!!! Por exemplo há rios livres em Portugal, que deveriam continuar eternamente livres. E assim manter a biodiversidade, assegurar a chegada de areia e alimento ao mar.

Os que já estão “impedidos” dessas funções devem, quanto a mim serem rentabilizados ao máximo nessas vertentes.

Para além disso, essas estruturas de massas de água guardada, têm outras funções como, por exemplo: reduzir a temperatura média do ar, lazer, turismo, desporto e, no caso nas barragens maiores, uma função fundamental aos nossos tempos – a produção de electricidade. 

Como sabemos estamos completamente dependentes na água, mas igualmente da electricidade. Mas enquanto a água se consegue armazenar, a electricidade não – a cada segundo o que se produz tem que ser igual ao que se consome. Só as barragens conseguem armazenar energia, que depois transformamos em electricidade. 

Se não queremos energia nuclear, se queremos reduzir ao máximo possível as termoeléctricas, sobra o sol, o vento e a água.
Como nem sempre há sol, nem sempre há vento, logo, as barragens são imprescindíveis. 

Mais, se prevemos e queremos a mobilidade elétrica – os consumos de electricidade vão aumentar bastante e serão as barragens com tecnologia reversível que serão as reservas energéticas. E, inclusivamente, consumam a energia em excesso que é gerada nas eólicas quando estamos a dormir e quase não gastamos electricidade.

Portanto, o discurso anti barragens é, quanto a mim, inconsequente e perigoso – é, nalguns casos, subsidiado pelos donos da energia nuclear.

Evidentemente que associado às barragens exigimos água de qualidade, sempre (Castelo de Bode é um bom exemplo). Também, quase sempre, estão associadas dinâmicas geradoras de economias locais e, consequentemente, fixadoras de população (O rio Douro é um exemplo, como é Montargil, ou o Alqueva).

II

AÇUDE EM ABRANTES E BARREIRA ARTEFICIAL NA CENTRAL

 

Lembrar que o açude não é uma escolha, o açude foi uma escolha; o açude existe! Se deveria existir ou não é outra conversa. Na altura não nos revíamos naquela “prioridade”.  Mas o Nelson também dizia: mas a EU dás-nos dinheiro para fazer o açude, mas não nos dá dinheiro para fazermos ETAR.

Sabemos que foi um equipamento caro e, supostamente, de manutenção cara. Por isso é preciso saber do que estamos a falar – se é incomportável em termos financeiros, deve assumir-se o problema dessa forma.  Mas ser-se contra o açude atestando-lhe culpas que ele não tem, isso não é admissível: os peixes não morreram nem morrem por causa do açude, as areias e os sedimentos não deixam de ir para o mar devido ao açude.  O açude até tem mais uma função importante de oxigenação da água e assim permitir que vejamos a tal espuma – quase sempre sinónimo de água poluída.
Dizendo que o açude é o responsável pelas desgraças é estar a ilibar a Câmara Municipal pela má manutenção e ainda pior condução da estrutura; ter uma campanha contra o açude é a melhor forma de pôr gente a vandalizar uma estrutura cara, que pertence aos munícipes e que são eles a pagar a conta. Aos políticos exige-se responsabilidade na defesa da coisa pública.

Também pelo anteriormente exposto fica claro que uma reserva de água – mesmo pequena – tem muitas vantagens. No caso de Abrantes, antes da construção do açude tínhamos situações em que durante meses se passava o rio a pé. Com o açude e o respectivo espelho de água a população passou a desfrutar mais o Tejo, dinamizou o desporto (uma atleta olímpica), a economia, o lazer. 

III

SOBRE O TRAVESSÃO DA PEGOP

 

Sempre existiu desde que existe central. Nunca ninguém refilou com o travessão e quase ninguém sabia da sua existência. Os pescadores sabiam e gostavam – pois, por ser uma parte mais funda era onde se apanhavam os peixes grandes.

O travessão deu nas vistas devido à sua recuperação totalmente descabida e abusiva. As autoridades tomaram conta do abuso e a obra far-se-á sem problemas de maior – ou seja, como estava há 25 anos atrás. Como está agora devido ao gingantismo e percolação não serve a ninguém.

Devemos fazer uma campanha contra o travessão? Não!!! 

O açude – desde que cumpra a regras (permita a transposição de peixes e embarcações – não cria problema nenhum, antes pelo contrário. Num rio em que grande parte do tempo vai quase sem água e que sofre atentados incríveis ao nível da irregularidade dos caudais, ter aquela massa de água estável é um benefício a todos os níveis. Ainda por cima sem custos para o erário público.

Lembrar que a Central do Pego rejeita água com mais cinco graus do que a que capta. Se não houver uma massa de água razoável, esse aumento de temperatura na água e nas margens pode provocar alterações na biodiversidade.

Ter uma luta contra o travessão até pode dar uns votos dos desentendidos e más línguas, mas paga-se em credibilidade. De resto deve exigir-se obras que cumpram os pressupostos do licenciamento.

IV

AQUAPOLIS

 

Há duas componentes completamente separadas e que o pessoal mistura: Uma é o objectivo -  de nível político -; a outra é do nível da funcionalidade e arquitectura - mais ou menos técnica.

O Bloco sempre foi a favor e continua a ser – em todo o lado – que os rios sejam devolvidos à comunidade. Porque os rios são fonte de fruição – não consumista – e porque as pessoas, ao estarem próximas do rio, o vigiam e se tornam exigentes na sua defesa.
Nessa perspetiva  só podemos ser a favor do Aquapolis ou outra qualquer designação que lhe queiram atribuir. 

Sobre a arquitectura, funcionalidade e se cumpre os objectivos, é outra discussão. Eu pessoalmente não gosto daquilo por aí além. Vi coisas por esse mundo fora, muito mais bonitas e muito mais funcionais. Agora, sobre o que é bonito ou funcional cada um terá uma opinião diferente (como costuma dizer-se, a arquitectura não se referenda). 

Eu fui de boleia com o Albano, à inauguração daquilo. Ele apontou montes de coisas que não gostava e era do PS. Se viesse outro arquitecto diria outras e cada pessoa apresentará outras.

Evidentemente que há erros crassos: colocar um anfiteatro “debaixo” da ponte rodoviária, não lembra a ninguém - mas o arquitecto fez e o Nelson aceitou -; colocar espécie de árvores que trazem as raízes à superfície – e que destroem as máquinas de cortar relva e levantam o cimento, não lembra a ninguém – mas o arquitecto fez e o Nelson aceitou; não ter árvores a fazer sombra aos pesqueiros e passeios junto à água é uma vergonha; e mais uma carrada de coisas.

Também o objectivo de levar pessoas está a ser cumprido? Vão pessoas, mas será que podem e devem ir mais? Toda a gente vai para lá de carro, será que seria esse o objectivo?

Por isso sempre defendemos e continuo a defender que recuperar a Rua da Barca – que liga o centro da cidade ao Tejo – é algo fundamental e estruturante desse objectivo inicial que é devolver o rio à cidade.

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(*) militante de Abrantes do BE e ex-candidato a presidente da câmara de Abrantes pelo BE

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