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COLUNA VERTICAL



Segunda-feira, 12.06.17

Muito obrigado, Manuel Henrique Cardoso!

Santana-Maia Leonardo

Manuel Cardoso.jpg

Manuel Henrique Cardoso marcou-me profundamente e contribuiu decisivamente para a minha formação como pessoa, como cidadão e como homem. Eu sei que na hora da morte é sempre fácil o elogio e a assunção das dívidas.

Mas a minha dívida de gratidão a Manuel Henrique Cardoso já foi assumida publicamente há muito tempo e consta expressamente do meu livro "Eléctrico - um clube com alma" que publiquei em Abril de 2004. Por isso, neste momento, profundamente doloroso para mim, deixo aqui o meu testemunho, transcrevendo, precisamente, a passagem do meu livro "Eléctrico - um clube com alma", dedicado a Manuel Henrique Cardoso:

«(...) O objectivo da direcção [do Eléctrico, na época de 1971/72,] era a subida de divisão e o treinador escolhido para cumprir este objectivo foi o consagrado Manuel Henrique Cardoso, antiga glória do Belenenses. Apesar de não ter conseguido cumprir este objectivo, Manuel Henrique Cardoso foi um treinador que deixou obra no Eléctrico.

O Mini-Eléctrico foi, na verdadeira acepção da palavra, um criação sua e que marcou, de resto, a minha geração. No Mini-Eléctrico, vivi a minha primeira experiência democrática e de dirigente desportivo.

O Mini-Eléctrico era constituído por cerca de uma centena de jovens com idades compreendidas entre os cinco e os doze anos. Apesar de ainda vivermos em ditadura, Manuel Cardoso teve a inteligência, a coragem e a intuição de aplicar ao Mini-Eléctrico, provavelmente sem ter consciência disso, mas com inteiro sucesso, o modelo revolucionário das pedagogias não directivas que estava a dar os primeiros passos na Europa democrática.

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O Mini-Eléctrico teve, assim, a sua primeira direcção formada exclusivamente pelos seguintes jovens de 11 e 12 anos: António José Sanganha (tesoureiro), António José de Matos Fernandes, António Manuel de Matos Fernandes, José Manuel de Matos Fernandes, João António, José Rafael de Figueiredo Marques Adegas, José Filipe Cordeiro Batista e eu próprio. A nossa primeira sede foi numa divisão pertencente ao meu avô, existente ao lado da garagem sita no fundo do quintal e que dava para a Rua de Santo António e onde, mais tarde, veio a ser construída a casa do meu tio Armando. Aí reuníamos periodicamente e guardávamos o nosso arquivo.

Numa primeira fase e sempre com a supervisão de Manuel Cardoso, utilizou-se o Campo do Eléctrico, nos Cadeirões, para a prática de várias modalidades e com a improvisação de vários campos. Cada campo contava com equipas formadas por miúdos com as mesmas idades. A preparação física era específica e adequada às idades, conforme o desenvolvimento físico de cada criança, e era levada a cabo no saudoso pinhal, servindo as agulhas dos pinheiros de alcatifa e colchão para a execução de cada exercício.

Numa segunda fase, com o aumento do número de atletas, a direcção teve necessidade de obter novas instalações. A sua sede passou a funcionar então num andar, sito na Travessa das Freiras, cedido por Manuel Matos Fernandes, pai de dois directores do Mini-Eléctrico, e onde funciona hoje a Pontex. 

A direcção conseguiu também que fosse cedido ao Mini-Eléctrico o espaço em frente da Casa do Povo, onde se iniciaram as obras com vista à construção de um mini-polivalente (o primeiro do concelho de Ponte de Sor),  com pista de atletismo, campo de jogos, salto em altura, salto em comprimento, lançamento do peso, etc. Acontece que, quando as obras já decorriam, os proprietários do terreno resolveram loteá-lo.

Tivemos assim de recorrer ao presidente da Casa do Povo que nos cedeu o terreno existente ao lado desta para aí construirmos um campo com tabelas de madeira e em terra batida para a prática das várias modalidades. Aqui pudemos contar com a ajuda de João Sanganha, pai do nosso tesoureiro, que nos forneceu as madeiras. Em cada dia praticava-se uma modalidade diferente: futebol de 5, andebol, jogos tradicionais, etc.

Todos nós tínhamos uma preocupação muito grande com a higiene. Todos os atletas, após os jogos, tinham de tomar banho nos balneários e os mais velhos verificavam se os mais novos tinham surro atrás das orelhas e as unhas grandes e sujas. Se isso acontecesse, para além de serem penalizados, não alinhando nas suas equipas, eram obrigados a tomar banho. Todos os atletas do Mini-Eléctrico eram, periodicamente, inspeccionados pelo médico do clube, existindo uma ficha médica de cada atleta. Na escola, todos os atletas tinham que ter aproveitamento, sendo este controlo feito pelos directores que tinham a responsabilidade dessa área.

Foi, entretanto, criado um grupo de teatro que tinha por actores jovens de ambos os sexos. A primeira peça a ser representada foi “As Formiguinhas”. Os ensaios realizaram-se no nosso Teatro-Cinema e eram dirigidos por João Zêzere. A peça foi à cena várias vezes em Ponte de Sor e nos arredores, como por exemplo, em S. Facundo (Abrantes). Nestas saídas, contámos sempre com o apoio e a dedicação de Normando Gandum, presidente da Assembleia Geral e a quem nós carinhosamente chamávamos “O Capitão”, que nos transportava nas carrinhas do clube. Realizámos periodicamente exposições de trabalhos feitos pelos atletas do Mini-Eléctrico (em cera, desenho, pintura e artesanato), cujas receitas serviam para pagamento das nossas despesas.

No âmbito social, o Mini-Eléctrico lutou sempre contra todas as formas de discriminação, aceitando e integrando todas as crianças de ambos os sexos e de todas as classes sociais.

Todo este trabalho teve o apoio dos pais, das instituições locais, de algumas casas comerciais e indústrias. Mas, nunca será demais realçar, todas estas actividades só tiveram êxito graças à dedicação, esforço e amor pela juventude da nossa terra de um homem chamado Manuel Henrique Cardoso que, tendo vindo para Ponte de Sor para levar o Eléctrico à terceira divisão, acabou por fazer muito mais do que isso: ajudou toda uma geração de jovens pontessorenses a ser HOMENS.»

Muito obrigado, Manuel Henrique Cardoso! Muito do que sou a si o devo!

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