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COLUNA VERTICAL


Sexta-feira, 19.07.19

Manifesto "POR UM PORTUGAL DE CORPO INTEIRO - CONTRA OS FUNDAMENTALISTAS DA CIDADE ESTADO"

Santana-Maia Leonardo

Com a adesão à União Europeia, os portugueses que, durante o tempo do Estado Novo, viveram esmagados sob o peso asfixiante da ditadura centralista do Terreiro do Paço, acreditaram que ia ser possível finalmente cumprir a principal promessa de Abril e que ainda hoje está plasmada na nossa Constituição.

Com efeito, segundo a nossa Constituição, uma das tarefas fundamentais do Estado é "promover a igualdade real entre os portugueses (...) e o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional" (artigo 9º e 90º), incumbindo-lhe prioritariamente "orientar o desenvolvimento económico e social no sentido de um crescimento equilibrado de todos os sectores e regiões e eliminar progressivamente as diferenças económicas e sociais entre a cidade e o campo." (artigo 81º/e). Por sua vez, o artigo 13º/1 da CRP declara que "todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei."

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De boas intenções está o inferno cheio. E a verdade nua e crua é que, quarenta anos após o 25 de Abril e vinte e cinco anos após a abertura da torneira dos fundos comunitários, Portugal não só não se tornou num país mais harmonioso como os sucessivos governos se empenharam em transformar a A1 no nosso Mediterrâneo interior, a verdadeira fronteira de Portugal e da cidadania portuguesa.

Com efeito, tendo em conta o enorme desequilíbrio actualmente existente entre as duas margens da A1, o interior do país já não tem sequer verdadeira representatividade política, quer por força do número de eleitores, quer porque os seus eleitos, em boa verdade, vêem na sua eleição o salvo-conduto para poderem pular a cerca e fixar residência em Lisboa.

Quanto ao nosso modelo económico, ainda existe alguma divergência entre os diferentes partidos políticos. No entanto, quanto ao nosso modelo de desenvolvimento, não há, em todo o espectro político, um único partido que levante a voz com firmeza contra este modelo assente na Cidade Estado grega e defenda, com convicção, o modelo holandês das cidades médias, o único que garante o "desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional", a pedra de toque da nossa Constituição.

E não nos venham com o estafado argumento da rede de auto-estradas, construída com os fundos comunitários, para defender a tese da coesão territorial. A rede de auto-estradas só é um factor de coesão territorial num país nivelado. Porque se o país estiver inclinado para um dos lados, as auto-estradas ainda vão acelerar mais o processo de esvaziamento do território. Como é óbvio.

Quem olhar para a configuração de Portugal não pode deixar de saber que Lisboa e a frente marítima exercem sobre todo o território nacional, por natureza, uma força de atracção irresistível. Consequentemente, se um Governo quer efectivamente promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, como lhe impõe a Constituição, só tem uma forma de contrariar essa força: através da deslocalização de serviços e de órgãos de direcção do Estado para o interior do país, sob pena de Portugal ficar confinado, muito em breve, à região da Grande Lisboa. E o exemplo deveria ser dado pelo Presidente da República, pelo Governo e pela Assembleia da República.

Portugal é hoje um micro-país que reproduz em ponto grande o mesmo modelo de desenvolvimento dos micro-municípios em que está sub-dividido: uma sede de concelho desproporcionada em relação às restantes localidades do município que, numa primeira fase, cresce à conta do esvaziamento das freguesias rurais para, numa segunda fase, ela própria se começar a esvaziar para Lisboa e para o litoral, perdendo população activa e massa crítica. Ou seja, começa-se por migrar dentro do próprio território para depois se emigrar.

Um território com dez milhões de habitantes é uma pequena cidade. Acontece que os sucessivos governos, em vez de governarem Portugal como se fosse uma cidade, continuam a governar Lisboa como se fosse o país.

Se o poder político insistir em continuar a viver fechado, dentro das muralhas de Lisboa, num ovo com a casca cada vez mais grossa, Portugal vai morrer sem sair da casca. Para haver crescimento sustentável e renovação das gerações num pequeno país como o nosso, é necessário, antes de mais, que não o tornemos ainda mais pequeno, amontoando tudo o que mexe dentro de uma região superlotada.

Cabe, pois, ao poder político esticar a área territorial da Grande Lisboa a todo o território nacional, em vez de continuar a encolher Portugal para melhor caber dentro da capital. Com mais espaço tudo se torna mais fácil.

Experimentem colocar o Presidente da República e o Tribunal Constitucional em Beja, a sede do Governo e os principais ministérios nos distritos de Portalegre e Castelo Branco; o Supremo Tribunal de Justiça e os restantes ministérios nos distritos de Viseu e Guarda; a Assembleia da República em Bragança (230 deputados em Bragança criam riqueza; em Lisboa criam despesa). Depois distribuam as direcções gerais e as secretarias de Estado pelos distritos respectivos, os quartéis militares e as universidades pelas cidades vocacionadas para os receber e verão como tudo muda.

Lisboa, por um lado, perdia pressão urbanística e tornava-se uma cidade mais barata e onde era mais fácil viver e trabalhar. O interior, por sua vez, ganhava dinamismo e crescia naturalmente, em população, massa crítica e economicamente. E Portugal tornava-se naturalmente um país menos atreito à corrupção, na medida em que o poder político e o poder económico deixavam de partilhar a mesma cama. Para que haja uma verdadeira separação de poderes, não basta que a Constituição a proclame, é necessário também que os poderes vivam separados.

Por outro lado, a deslocalização da capital política para a fronteira espanhola, para além de nivelar o território, fazia com que Portugal ficasse com duas frentes: a atlântica e a continental, valorizando, desta forma, a sua ligação a Espanha e à Europa.

Além disso, ficavam criadas as condições para uma significativa população jovem activa poder ter, criar e educar tranquilamente os seus filhos. As cidades de província oferecem aos jovens pais tempo e condições para criarem os seus filhos que Lisboa não tem capacidade de oferecer.

Por outro lado, o apoio inter-geracional ficava também mais facilmente garantido porque seria mais fácil manter os filhos perto da casa dos seus pais e avós. Sem esquecer que é impossível tomar medidas efectivas no combate à desertificação e na promoção da natalidade, quando o Governo vive fechado dentro de um ovo a abarrotar pelas costuras.

Quanto à Regionalização (na versão político-administrativa), de que eu sou um adversário confesso, não só não é, neste momento, solução como iria acelerar ainda mais o processo de desertificação, reduzindo Portugal a três cidades: Lisboa, Porto e Faro. Este tipo de regionalização só é defensável em países com grande coesão territorial, caso contrário ainda vai acentuar mais as assimetrias. Como é evidente.

Aliás, os grandes defensores da Regionalização são precisamente aqueles que aspiram a que a sua cidade seja a Lisboa da sua região. Ou seja, não pretendem inverter o modelo da Cidade Estado mas copiá-lo.

Ora, existe um argumento verdadeiramente demolidor contra a Regionalização: a unidade milenar de um pequeno país que uma fabulosa rede de auto-estradas e o acesso generalizado à internet teve o condão de tornar todas as cidades vizinhas.

Mas é precisamente chegados aqui que aqueles que são contra a Regionalização não extraem a consequente ilação.

Com efeito, se é verdade que Lisboa está hoje perto de tudo, como argumentam e bem aqueles que são contra a Regionalização, por que razão, então, está hoje tudo em Lisboa?

Para quem não saiba, a distância entre Portalegre e Lisboa é precisamente igual à distância entre Lisboa e Portalegre.

E, digam-me com franqueza, faz sentido atravancar Lisboa com todos os órgãos de direcção do estado e da administração pública, com universidades públicas e quartéis militares, obrigando o país inteiro a esvaziar-se para Lisboa, para depois se vir reivindicar a introdução de portagens na entrada de Lisboa porque a cidade já não suporta tanto trânsito automóvel e começa a ter níveis de poluição preocupantes?

Por um lado, colocam lá tudo e obrigam toda a gente a ir para lá ou a ter de lá ir, e, depois, querem impedir as pessoas de lá ir, alegando excesso de trânsito, de poluição e de pessoas.

É bom não esquecer, quando ouvimos os nossos governantes falar em incentivos para fixar as populações nas regiões do interior, que o nosso problema hoje já não é fixar a população porque quem aqui vive irá fixar residência no cemitério muito em breve.

O que o interior precisa urgentemente é de uma política corajosa que obrigue uma significativa população activa e culta que hoje se amontoa na Região da Grande Lisboa a repovoar o território e a fixar-se nas cidades do interior. E isso só se consegue com a deslocalização de ministérios, secretarias de Estado, direcções-gerais, universidades, hospitais, tribunais superiores para o interior do país.

Se Lisboa continuar a aumentar a oferta de serviços para dar resposta ao enorme fluxo populacional que inevitavelmente atrai, muito em breve até a Universidade de Coimbra fecha.

Ora, o interior não pode ser visto apenas pelos senhores de Lisboa  como o local de destino de gente que só serve para semear batatas, de empresas altamente poluentes ou de aterros sanitários.

Após o 25 de Abril, apenas a cidade do Porto conseguiu, de forma consistente, enfrentar o poder de Lisboa.

Em todo o caso, Porto e Lisboa são cidades da orla costeira pelo que se impunha que Bragança, Vila Real, Coimbra, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja dessem as mãos para obrigar o Terreiro do Paço a esticar Lisboa até à fronteira espanhola sob pena de a fronteira espanhola se esticar até à A1, caso o Governo de Lisboa insista em abandonar o território nacional.

Mas se a Regionalização não é a solução, os micro-municípios também o não são e pela mesma razão.

Para vivermos num país equilibrado, quer do ponto de vista estrutural, quer do ponto de vista da defesa do estado de direito, as autarquias têm de ganhar dimensão.

Não é possível sequer garantir a independência do exercício do cargo, nem a racionalidade económica e a boa gestão dos recursos, a políticos eleitos em autarquias com menos de 100 ou 200 mil eleitores, dependendo da área territorial, o que não significa, saliente-se, o encerramento dos serviços públicos prestados pelas câmaras municipais.

Pelo contrário, o actual modelo é que vai levar inevitavelmente ao encerramento das câmaras municipais num processo de canibalização em que os grandes vão devorando os pequenos.

Ora, não se deve confundir serviços de proximidade com políticos de proximidade.

Os serviços devem estar próximos das pessoas mas os eleitos têm de estar necessariamente a uma distância de segurança que os impeça de ficarem reféns de um pequeno colégio eleitoral.

Concluindo: somos um pequeno país cuja organização política e administrativa, para além de o tornar ainda mais pequeno, torna-nos pequeninos porque promove e fomenta a corrupção, a inveja, a mediocridade e o caciquismo.

Fernão Capelo Gaivota, um dos meus heróis de referência juntamente com o corvo Vicente de Miguel Torga, dizia uma coisa óbvia: "Vê mais longe a gaivota que voa mais alto."

Acontece que o nosso sistema político obriga o nosso povo a voar muito baixinho.

E quem voa baixinho tem necessariamente as vistas curtas.

É, precisamente, por esta razão que quem ambiciona voos mais altos tem obrigatoriamente de sair de Portugal.

É certo que, se quiséssemos, podíamos mudar o nosso destino.

Como disse Alexandre Herculano, "o desejo mede os obstáculos, a vontade vence-os."

Mas o nosso problema é precisamente esse há mais de duzentos anos: muito desejo mas nenhuma vontade.

Ou melhor, quem tem vontade de mudar muda de país e só aqui fica quem quer que tudo continue na mesma como a lesma.

Portalegre, 11 de Julho de 2015

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Domingo, 14.07.19

Contra a Regionalização! Pela Deslitorialização!

Santana-Maia Leonardo Diário As Beiras de 27-6-2016

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Se os portugueses pensassem com olhos, como o pastor Alberto Caeiro, não podiam deixar de constatar que Portugal é hoje formado por apenas três regiões: a região de Lisboa, a região do Porto e o Algarve. Tudo o resto é povoamento disperso e lares de Terceira Idade.

Defender a regionalização e a descentralização num país com esta configuração é contribuir para acelerar ainda mais o processo de desertificação do território que, em breve, por este andar, estará reduzido apenas à cidade de Lisboa e à vila do Porto.

A fronteira espanhola fica, hoje, recordo, a pouco mais de uma hora do litoral e de Lisboa. E se for por mail ou por fax não demora sequer um segundo a fazer a travessia. Ou seja, o que o interior do território precisa não é de multiplicar e aumentar o poder e as mordomias dos tiranetes locais, mas de pessoas.

Um território com dez milhões de habitantes é uma pequena cidade. Acontece que os sucessivos governos, em vez de governarem Portugal como se fosse uma cidade, continuam a governar Lisboa como se fosse o país. O que Portugal necessita não é de descentralização ou de regionalização mas de deslitoralização. E isso só se consegue fazendo recuar para o interior do território ministérios, secretarias de Estado, direcções-gerais, universidades públicas, quartéis militares, hospitais, tribunais superiores, a Presidência da República, etc.

E não vale a pena o povo de Lisboa assustar-se porque Lisboa está hoje perto de tudo, o que significa que é indiferente um ministério estar hoje em Lisboa, Santarém, Coimbra, Castelo Branco ou Beja. O tempo que se demora a chegar ao centro de Lisboa é precisamente o mesmo de quem mora em Sintra ou no Barreiro. Além disso, Lisboa ficava mais descongestionada e a qualidade de vida dos funcionários públicos aumentava substancialmente, na medida em que ficavam criadas as condições para poderem ter, criar e educar tranquilamente os seus filhos. As cidades de província oferecem aos jovens pais tempo e condições para criarem os seus filhos que Lisboa não tem capacidade de oferecer.

Por outro lado, um simples ministério que, em Lisboa, só serve para atrapalhar o trânsito e aumentar a poluição, em qualquer cidade de província provocava um autêntico boom económico. Se o Governo quer, efectivamente, criar condições para haver um saudável crescimento económico, tem de esticar a Região de Lisboa a todo o território nacional e não reduzir Portugal à Região de Lisboa.

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Quarta-feira, 10.07.19

O país das moscas

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Santana-Maia Leonardo

Até há bem pouco tempo, vivi convencido de que os portugueses, em geral, tinham uma consciência ética e a perfeita noção do Bem e do Mal, até pela suas constantes e vibrantes manifestações de indignação, quer nas mesas de café, quer nas redes sociais, contra a corrupção, o compadrio e as cunhas. Mas não têm. Ou melhor, para o cidadão português, o Bem e o Mal não são conceitos abstractos que se aplicam a todos por igual mas conceitos bem concretos e relativos que têm, por única referência, os seus próprios interesses. Por exemplo, a cunha tanto pode ser um Bem como um Mal. É um Bem se beneficiar a sua filha num concurso público; é um Mal se beneficiar a filha do vizinho.

Ora, chegados aqui, não podemos deixar de concluir pela inutilidade de qualquer tentativa de regeneração social porque as mesmas pessoas que se colocam ao nosso lado quando denunciamos os vícios dos governantes, autarcas e dirigentes desportivos são as mesmas que defendem e praticam os mesmos vícios quando o seu partido ou clube toma o poder. Como facilmente se constata, os portugueses não criticam os outros porque discordam dos seus métodos. Pelo contrário, criticam-nos por inveja porque, se tiverem a oportunidade, fazem precisamente o mesmo (ou pior). E não só fazem o mesmo como não concebem sequer que alguém pense ou aja de outra forma.

Mesmo com os processos judiciais mais mediáticos se constata esta dualidade de critérios. As mesmas pessoas que invocam a presunção de inocência em benefício dos seus são precisamente aquelas que não respeitam sequer as decisões absolutórias transitadas em julgado que dizem respeito aos adversários.

Portugal é um pequeno país organizado em forma piramidal em que a base da pirâmide assenta em micro-poderes de raiz ditatorial que odeiam o mérito, temem a inteligência e perseguem os livres pensadores. Aliás, os portugueses, como se tem visto ao longo da nossa história recente, são como o vinho: os melhores são para exportação.

Um povo com este tipo de organização e que relativiza a noção do Bem e do Mal aos seus próprios interesses impede, inevitavelmente, qualquer solução que vise a regeneração do sistema na medida em que os comportamentos não se alteram com a mudança de protagonistas, seja de partidos, de dirigentes ou de políticos. Daí o ditado português que resume, na perfeição, a desilusão com a alternância e a mudança: “mudam as moscas mas a merda é a mesma.”

Como diz o povo, “se não os consegues vencer, junta-te a eles.” Não me vou juntar a eles, mas decidi passar a viver afastado deles.

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Terça-feira, 09.07.19

Platão e Disraeli

PLATÃO

"Um povo digno não carece de leis que lhe digam como agir responsavelmente; ao passo que um povo indigno encontrará sempre maneira de contornar as leis."

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Sexta-feira, 05.07.19

A seriedade dos árbitros e afins

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Santana-Maia Leonardo

Os portugueses têm sempre por hábito fazer apelo à seriedade dos árbitros e afins como se residisse aí a solução do problema da parcialidade dos decisores.

É evidente que a seriedade ajuda muito mas isso não é legislável, nem quantificável, nem se consegue regulamentar até porque toda a gente é mais ou menos séria consoante as circunstâncias. Se estiver em causa, por exemplo, a vida dos filhos ou o próprio emprego, para não baixarmos demasiado a fasquia, poucas pessoas colocarão a seriedade acima de tudo.

Ou seja, o contexto em que uma pessoa se encontra é fundamental para garantir a sua liberdade de decidir. E em Portugal, isso não existe.

Por exemplo, num jogo Vitória - Braga, se se nomear um árbitro de Faro, o árbitro sai de Faro e regressa a Faro sem sentir qualquer pressão. No entanto, se um dos intervenientes for o Benfica ou o Sporting, isso já não sucede. Até dentro da própria casa se cruza com adeptos destas equipas (mulher, pais, filhos, tios, primos, sobrinhos, etc), para já não falar no local de trabalho ou no café.

Discutir o VAR ou a independência da arbitragem em Portugal não faz sequer sentido porque não estão criadas as condições mínimas para garantir a independência e imparcialidade dos decisores.

Quais são essas condições mínimas?  Vou dar um exemplo que toda a gente percebe. Se eu tiver uma questão com o meu vizinho, o juiz, por muito competente que seja, não pode ser nem da família do meu vizinho, nem viver na casa dele. Ou seja, um árbitro para arbitrar um jogo do Benfica e do Sporting não pode viver numa casa onde vivem benfiquistas e sportinguistas, nem viver cercado, no local de trabalho e no café, por benfiquistas e sportinguistas porque isso condiciona necessariamente a sua liberdade de decidir com imparcialidade, isenção e independência.

É precisamente por essa razão que árbitros portugueses não arbitram a selecção portuguesa ou equipas portuguesas em competições internacionais.

Concluindo: tendo em conta que há, pelo menos, 6 milhões de benfiquistas e 4 milhões de sportinguistas, tal significa que só árbitros estrangeiros reúnem condições para poderem arbitrar jogos Benfica, Sporting e Porto com imparcialidade, isenção e independência.

Isto não significa que não possam cometer erros graves, significa apenas que têm liberdade para decidir sem estarem condicionados, o que é essencial para a salvaguarda da integridade das competições.

Chamo a atenção para o facto de sermos o único país da Europa, segundo o estudo da UEFA de 2015, onde é impossível nomear um decisor de qualquer parte do território nacional cuja população não seja maioritariamente afecta ao Benfica, Sporting e Porto (95%). Isto vicia tudo!

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Quarta-feira, 03.07.19

Em defesa do futebol inglês contra a VARgonha

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Santana-Maia Leonardo

Como adepto incondicional do futebol inglês, espero que a Liga Inglesa respeite a vontade da maioria dos adeptos do futebol inglês e não introduza o VAR que, para além de não tornar a competição mais justa, retira-lhe emoção e ritmo, duas componentes essenciais do futebol inglês.

O que a organização da liga inglesa tem de continuar a garantir é, em primeiro lugar, a independência e a imparcialidade dos decisores e, em segundo lugar, a sua competência.

A Copa América tem sido um bom exemplo de, como a existência do VAR, para além de retirar ritmo e tempo ao jogo, não torna a competição mais justa.

A verdadeira justiça é a JUSTIÇA RELATIVA. Um exemplo para que percebam: se o meu carro estiver mal-estacionado, é justo que eu seja multado. No entanto, se, para além do meu carro, estiverem mais 10 carros mal-estacionados, já não é justo que a Polícia me multe apenas a mim.

Ora, aquilo que o VAR faz, em Portugal e, pelos vistos, na Copa América, é tratar de forma diferente casos que são rigorosamente iguais. Ora, isto não só não é justiça como ainda torna a competição mais injusta porque favorece o clube que tem mais peso institucional.

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Domingo, 30.06.19

A cultura da batota

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Santana-Maia Leonardo

A venda de João Félix para o Atlético de Madrid deixou a nação benfiquista em êxtase, apesar de toda a gente saber qual o destino das verbas das vendas de Jorge Mendes: uma parte é consumida pela pesada administração das SAD e a outra para comprar jogadores de Jorge Mendes e sustentar uma chusma de jogadores que não têm outra função a não ser desvirtuar a competição.

Em Portugal, o clube dominante, porque não tem dinheiro para disputar o mercado com os grandes clubes europeus, prefere investir em jogadores de segunda linha para emprestar aos chamados clubes “pequenos” com o objectivo, por um lado, de reforçar esses clubes contra os seus adversários e enfraquecê-los quando joga contra eles e, por outro, reforçar o seu poder nos diferentes órgãos associativos.

Como todos sabemos, os jogos entre Benfica, Sporting e Porto são sempre de resultado imprevisível, mesmo que uma dessas equipas seja melhor do que as outras. O futebol é tão imprevisível que, por muito grande que sejam as diferenças entre clubes do mesmo nível, o resultado nunca é garantido. Daí que a vitória no campeonato dependa muito dos jogos com os outros clubes de menos nomeada.

E o que se passa em Portugal é que o clube com maior disponibilidade económica, através da vergonhosa política de empréstimos maciços de jogadores, transforma a competição numa prova de obstáculos para os seus adversários e praticamente sem obstáculos para si.

Esta cultura da batota está tão entranhada que poucos a denunciam. Em Portugal, a discussão sobre a verdade desportiva centra-se quase exclusivamente no VAR. Ou seja, é como se numa corrida de 400 metros obstáculos em que fosse permitido a um corredor correr numa pista sem obstáculos, a discussão sobre a verdade desportiva da prova se centrasse sobre a existência do Photofinish.

Enquanto os portugueses não conseguirem ter uma relação saudável com a competição desportiva, assente no fair play, no respeito pelos adversários e na integridade das competições, nunca conseguiremos resolver o problema estrutural da corrupção em Portugal. Quem é educado no jogo da batota cresce e forma-se como corrupto. 

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Segunda-feira, 24.06.19

Mentes sãs num competição sã

Santana-Maia Leonardo

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Só pode existir uma verdadeira competição se for disputada entre clubes com existência real, ou seja, com adeptos, e com autonomia desportiva e económica.

Caso contrário, será uma competição viciada à nascença.

A maioria dos clubes que disputam a I Liga não cumpre nenhum destes requisitos.

Os clubes fictícios e os mochileiros deviam estar proibidos de disputar as competições do clube-mãe ou do clube que lhe paga as contas, única forma de garantir, ab initio, a integridade da competição.

É isso que distingue, logo à partida, as verdadeiras competições do jogo da batota.

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Segunda-feira, 24.06.19

António Geraldes na Academia das Ciências de Lisboa

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Os membros da Academia de Ciências de Lisboa elegeram recentemente para a integrar, na área do Direito e da Ciência Política, como Correspondente Nacional, o juiz conselheiro António Santos Abrantes Geraldes.

Tal eleição, pela honra e distinção que encerra, é o reconhecimento do mérito que toda a gente não pode deixar de reconhecer a António Geraldes e, por isso, não pode deixar de encher de orgulho todos os seus amigos e certamente os seus colegas do Supremo Tribunal de Justiça.

Pelos vistos, ainda existem, em Portugal, Instituições que premeiam o mérito e a excelência.

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Terça-feira, 18.06.19

A hipocrisia desportiva

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Santana-Maia Leonardo

(I)

Toda a gente sabe que as SAD da maioria dos clubes portugueses apenas servem para esconder uma realidade que toda a gente sabe qual é porque está à vista de todos: o domínio dos clubes dominantes e dos seus investidores sobre a maioria dos restantes clubes que funcionam como verdadeiros clubes-satélite.

Não seria mais honesto e transparente permitir que as equipas B, C e D do Benfica, Sporting e Porto disputassem a I Liga, em vez de assistirmos a esta palhaçada de se simularem putativas vendas e empréstimos de jogadores com o único intuito de injectar dinheiro e financiar o clube satélite?

(II)

Durante os últimos anos, temos ouvido Porto, Benfica e Sporting a queixarem-se de haver clubes que disputam os jogos com os três grandes com intensidades diferentes, insinuando dessa forma que as referidas equipas estariam ao serviço do "grande" contra o qual coloca menos intensidade no jogo.

Isto veio-me à memória quando li os extractos das escutas telefónicas da operação OIKOS.

E porquê? Porque das escutas telefónicas resulta que os jogadores subornados apenas deviam jogar com menos intensidade, não devendo cometer actos flagrantes que prejudicassem a sua equipa para não levantar suspeitas.

Será que em Portugal também há equipas pagas para jogar com menos intensidade contra algumas equipas? Benfica, Sporting e Porto devem saber do que se queixam certamente pelo que fazem...

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Sábado, 15.06.19

As ligas ricas e as ligas pobres

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Santana-Maia Leonardo

Tal como acontece com os países, enquanto as ligas ricas geram riqueza, as ligas pobres geram ricos.

E nós somos efectivamente um liga pobre que, tal como acontece com os países pobres, é dominada por uma oligarquia que enriquece, apropriando-se da matéria-prima existente no país e vendendo-a às ligas ricas, sem que a liga portuguesa, tal como os povos dos países pobres, ganhe alguma coisa com isso. Ganham os dirigentes e os intermediários mas a liga e os clubes continuam pobres e a viver na miséria.

Luís Filipe Vieira, na Liga Portuguesa, age e comporta-se como um verdadeiro José Eduardo dos Santos e Pinto da Costa como um dos generais angolanos que aspira a suceder-lhe, enquanto o povo/clubes vivem na miséria e são obrigados a viver das suas esmolas e a prestar-lhes vassalagem.

E quando ouvimos, na sua boçalidade, um auto-denominado presidente de um dos maiores clubes do mundo entusiasmar o povo com a promessa de reservar 15 milhões para a compra de um avançado, só dá vontade de rir. Das duas uma: ou o clube não é assim tão grande como o pintam ou falta um zero aos 15 milhões.

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Sexta-feira, 07.06.19

Sejamos justos

Santana-Maia Leonardo

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Cristiano Ronaldo é,sem sombra de dúvida, o melhor jogador português.

Mas se a Bola de Ouro e o The Best têm apenas em conta as perfomances de cada jogador nos títulos conquistados em cada época, temos de concluir que o único jogador português com palmarés esta época para se candidatar à Bola de Ouro e ao The Best é Bernardo Silva. 

Bernardo Silva foi eleito o melhor jogador do Manchester City, precisamente o clube que bateu o record de títulos do melhor e mais competitivo campeonato do mundo. Venceu o campeonato inglês, a Taça de Inglaterra, a Taça da Liga e a Supertaça Inglesa. Além disso, foi eliminado da Champions nas meias-finais nas circunstâncias que todos viram, depois de um jogo épico e de terem falhado um penalti no jogo da primeira mão. E se Portugal está na Final Four da Liga das Nações, é, sobretudo, graças a ele, porque Cristiano Ronaldo não participou sequer nas eliminatórias.

Por sua vez, Cristiano Ronaldo, para além de ter feito alguns bons jogos, ganhou apenas a Liga italiana, o que é uma rotina para a Juventus, tendo sido eliminado da Champions, nos quartos de final pelo Ajax, e da Taça de Itália pelo Atalanta, o que significa que a Juventus fez uma época inferior às anteriores.

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Quinta-feira, 06.06.19

Movimento pela Paz no Futebol

Santana-Maia Leonardo

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Rui Santos, na sua luta pela higienização do futebol português, resolveu lançar o Movimento pela Paz no Futebol.

Ora, como explicou Javier Tebas (na foto), presidente de Liga Espanhola, só a centralização dos direitos televisivos tem capacidade para pacificar o futebol, na medida em que coloca a competição por cima dos clubes, técnicos e jogadores.

Sem centralização, é a lei da selva porque quem conseguir melhores resultados desportivos também consegue melhores direitos televisivos. E, nestas circunstâncias, vale tudo até tirar olhos...

Com a centralização, quem compra paga mais mas não aceita que os competidores ponham em causa o produto que lhe foi vendido. COMO É ÓBVIO.

É precisamente por essa razão que, no resto da Europa, não assistimos às palhaçadas dos programas televisivos e dos departamentos de comunicação que assistimos em Portugal, ou não fôssemos o único país europeu onde não existe centralização do direitos televisivos.

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Sábado, 01.06.19

As pessoas corruptas e a corrupção em pessoa

Santana-Maia Leonardo

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Se acompanharam o caso dos resultados combinados no futebol espanhol, também devem ter lido sobre a principal causa apontada: os baixos salários e/ou os salários em atraso praticados pelos clubes das divisões secundárias. 

A I e II Liga inglesas e a I Liga espanhola estão, de certa forma, protegidas devido à centralização dos direitos televisivos que não só permite aumentar a competitividade e as receitas mas sobretudo porque dá a todos os clubes e jogadores meios para terem uma vida digna e não viverem em permanente estado de necessidade.

A centralização dos direitos televisivos, para além de não retirar um cêntimo de receitas aos grandes clubes, torna a competição mais atractiva, mais justa, mais equilibrada e menos permissiva à viciação de resultados.   

Ora, se isto é uma evidência, por que razão Benfica, Sporting e Porto, com o consentimento das SAD dos restantes clubes, não querem a centralização dos direitos televisivos, sendo um caso único na União Europeia?

A resposta é óbvia: porque, com a independência económica dos pequenos clubes e com os salários em dia, ficava muito mais difícil comprar jogos e subornar clubes e jogadores. Os Boaventuras, os Paulo Gonçalves, os Geraldes, os Teles, assim como todos os Apitos Dourados, Verdes e Encarnados, deixavam de ter utilidade e de fazer sentido.

Perguntam os mais ingénuos: mas se Benfica, Sporting e Porto não perdem receitas com a centralização dos direitos televisivos, por que razão se opõem à centralização, permitindo, dessa forma, que a liga portuguesa se continue a disputar fora das quatro linhas, com jogos de influências, subornos, compra de resultados e de jogadores?

A resposta é mais do que óbvia: porque a não centralização dos direitos televisivos garante, logo à partida, os lugares europeus a estes três clubes e ao Braga, sem necessidade de correrem qualquer risco com uma liga mais competitiva e equilibrada.

A corrupção existe em todos os países e nenhuma instituição está a salvo mas o que distingue os países civilizados dos países do terceiro-mundo é que, nos países civilizados, há pessoas e organizações mafiosas que são perseguidas e combatidas pelas instituições do Estado, enquanto, nos países do terceiro mundo, as instituições do Estado são a corrupção em pessoa. 

Viram qual foi a primeira decisão tomada pelo presidente do Huesca, apesar de clamar inocência? Apresentou a demissão de todos os cargos do clube. Em Portugal, por mais processos que haja, os presidentes agarram-se aos cargos como lapas porque sabem que essa é a sua única tábua de salvação. E os adeptos, como é característico dos países do terceiro-mundo, desde que o seu clube ganhe, é para o lado que dormem melhor.

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Sexta-feira, 31.05.19

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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