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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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01 Ago, 2009

A FESTA

por António Belém Coelho

 

No clima de festa habitual com que pauta a maioria das suas intervenções, veio o Primeiro-ministro anunciar que nesta legislatura, como em nenhuma outra, tinha sido diminuído o fosso entre ricos e pobres, apontando números e percentagens que suportavam a sua afirmação. Números e percentagens essas que constam de um estudo do INE sobre as Condições de vida e Rendimento, agora divulgados. Mas a questão é que o Primeiro-ministro apenas citou parcialmente e fora do contexto extractos desse estudo.
 
Na verdade, o risco de pobreza da população Portuguesa manteve-se no índice de 18%, conhecendo sim uma mudança qualitativa: o risco desceu para os reformados, mas subiu para a população activa (empregados e desempregados) e para os menores de 18 anos. Só a descida desse risco no grupo dos reformados, por via do complemento solidário para idosos, permitiu que o risco global de pobreza se mantivesse em 18%; caso contrário, teria subido.
 
Diz o estudo que «há mais pessoas a viver uma situação de pobreza, mesmo entre os que têm trabalho, porque os salários estão mais baixos e há uma maior precariedade do emprego». Efectivamente, o rácio de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, passou de 6,5 para 6,1, conhecendo alguma melhoria. E acima de tudo, o facto de este estudo se reportar a dados de 2007, e não a toda a legislatura, com a agravante de ainda não incluírem qualquer efeito da crise actual. Será pois infelizmente de esperar que, em estudo similar, abrangendo dados de 2008 e de 2009, estes índices possam infelizmente piorar significativamente.
 
O referido estudo conclui ainda que «a pobreza configura uma violação dos direitos humanos e não é apenas com políticas de subsidiação que se combate. É preciso uma estratégia articulada e com políticas em vários domínios, nomeadamente nas áreas da educação, da habitação e da saúde.»
 
Ora, quanto a isto estamos conversados. Basta ver e lembrar tudo o que tem sucedido nestes e noutros ramos. Este é apenas mais um exemplo entre muitos da atitude e estratégia do Governo Socialista: aproveitar todo e qualquer elemento que lhe seja favorável, ignorando e deitando para trás das costas todo o resto, que normalmente são as principais conclusões. Com a ajuda prestimosa de quase toda a comunicação sobretudo áudio-visual.
 
Mas esta técnica do iceberg (o iceberg só tem 10% da sua massa acima da superfície da água, o resto está escondido, submerso) já só engana os menos informados ou aqueles seguidores mais cegos. A grande maioria dos Portugueses ouve e continua a sua vida, ciente de que aquela festa nada tem a ver com o dia-a-dia deles.