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COLUNA VERTICAL



Domingo, 17.07.11

A COISA ESTÁ A ESBOROAR-SE

 

Há um ciclo de estertor no sistema político português que não parece incomodar ninguém dentro dos partidos. De fora, ele é visto como mais um sinal de que os partidos são uma espécie de “associações de malfeitores”, e que os partidos não são precisos para nada com as novas formas de “democracia do Facebook”. (…)

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De dentro, do PS e do PSD, está tudo bem. Como não podia estar bem no PSD, agora que ganhou as eleições? Não os preocupa o facto de o Governo, cujos principais actores partidários vêm do mais íntimo do aparelho do PSD e da JSD, se veja aflito para tornear o conhecimento público das nomeações, que inevitavelmente fará, de gente do PSD? E tenha de estar a protestar isenção partidária todos os dias e a toda a hora? Será que o grau de pestífero públicoque hoje um militante partidário tem de suportar não lhes mostra que alguma coisa está muito mal? Pelos vistos não, até estamos no Governo…

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No PS, então, o debate actual revela a completa inanidade de um pensamento sobre a crise partidária. (…) Nenhum debate é possível dentro dos partidos sem ser visto como acrimónia pessoal ou quase uma traição à camisola. Os partidos dão-se bem com a intriga e mal com o debate, dão-se bem com as fontes anónimas e mal com as declarações frontais. Ora, se não é possível, quer no PS quer no PSD, reflectir criticamente sobre a sua própria acção, sem isso ser visto como uma espécie de traição, mata-se a possibilidade de estes mudarem e contribuírem para a mudança. (…)

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O PS já nem tem socialismo nem social-democracia, nunca teve reformismo nem se sobressalta quando a liberdade é ameaçada, na maioria dos casos por si próprio. (…)

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É hoje tão socialista como o PSD, que aindahá pouco tempo era mais socialista que o PS, mas agora já não é, sem por isso passar a ser liberal. O PS está numa confusão ideológica total, e ninguém quer saber disso para nada. (…)

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O problema não está em que os partidos tenham aparelho, está em se substituírem os objectivos e as funções cívicas dos partidos em democracia pelos objectivos dos aparelhos e das carreiras dos seus membros. Há alguns dias alguém escrevia (cito de memória) que uma das carreiras com maior mobilidade vertical disponíveis para os jovens hoje, em Portugal, eram as juventudes partidárias. Tem toda a razão. Em que outra profissão um jovem pode ter acesso relativamente fácil a um vasto conjunto de lugares na administração, nas empresas públicas, nas autarquias, nas assessorias nos grupos parlamentares, nos gabinetes ministeriais, como deputados municipais, vereadores, deputados nacionais, etc., etc? E em que outra profissão isso é possível sem adequadas qualificações académicas, com cursos de plástico e sem qualquer experiência profissional?

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Em lado nenhum. E como a democracia em Portugal já tem mais de três décadas, esse acesso já começa a ser familiar, com os filhos de políticos a ingressarem na carreira política com promoções rápidas e “protagonismo” fácil e quase imediato. O poder dos pais abre caminho à carreira dos filhos e, como alguém disse a alguém há alguns anos, “o que custa é entrar, depois de estares lá dentro estás sempre garantido”. Esta forma de perversão do sistema democrático domina hoje os dois maiores partidos portugueses, fechando-os a qualquer mudança vinda de dentro e tornando-os um dos maiores problemas de sustentabilidade do regime. Isto está a esboroar-se e eles serão os últimos a saber.

 

José Pacheco Pereira - in Público de 16/7/11

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