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"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras." (Aristóteles) - FOTO: Barcelona
Santana-Maia Leonardo - in Nova Aliança
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O recente artigo de Vital Moreira "atribulações do governo municipal", no jornal Público, sobre a reforma da lei autárquica revela, em toda a sua pujança, as razões dos sucessivos falhanços de todas as reformas levadas a cabo em Portugal. Quem ler o artigo não pode deixar de concordar com o diagnóstico e com a solução.
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Com efeito, é um facto notório que, «apesar da eleição conjunta da câmara municipal e do seu presidente e apesar da "promiscuidade" política do governo e da oposição na câmara municipal, criou-se um presidencialismo municipal apócrifo, à revelia das Constituição e sem a genuína separação de poderes que só a eleição separada assegura.» E a solução também parece óbvia: «a adopção de um sistema de tipo parlamentar, em que o governo municipal seria constituído com base nas eleições para o parlamento municipal e na sua composição, cabendo ao cabeça da lista mais votada o direito de submeter à assembleia a constituição do executivo.»
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Acontece que, se se implementar esta reforma, o resultado final vai ser precisamente o contrário do pretendido, como, de resto, sempre tem sucedido com todas as reformas que os nossos políticos têm levado a cabo. Na procura da melhor solução, os nossos reformadores esquecem-se de que uma coisa essencial: a solução ideal exige pessoas ideais. Ora, pessoas ideais é precisamente o que por aqui não abunda.
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Ao contrário do que pensa Vital Moreia, o "presidencialismo municipal apócrifo" impôs-se pela inata subserviência da maioria dos portugueses em relação ao poder e não por culpa do sistema autárquico implantado que visa precisamente combatê-lo. As reuniões de executivo camarário, em que os vereadores da oposição têm assento mas, em regra, não têm pelouro, são a verdadeira e genuína Assembleia, onde os assuntos são (ou podem ser) discutidos e escrutinados até porque é o órgão que reúne as pessoas melhor preparadas para o efeito: os candidatos a presidente e a vereadores da câmara.
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Por sua vez, as Assembleia Municipais, à excepção de uma ou outra das grandes cidades, são órgãos absolutamente secundários e inúteis, limitando-se os deputados fiéis ao presidente da câmara a assinar de cruz e os da oposição a revelarem a mais das vezes a sua falta de preparação e ignorância sobre os assuntos e sobre a sua função.
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Resumindo: até por razões logísticas e económicas, as assembleias municipais deviam deixar de existir, transferindo-se todas as competências deste órgão para a câmara municipal que, com as devidas adaptações, passaria a ter o executivo formado pelos vereadores com pelouro e a assembleia constituída por todos os vereadores, sendo as reuniões públicas e com periodicidade quinzenal ou mensal.
Podr-se-á dizer que estamos perante uma convergência com as democracias mais consolidadas, onde os dirigentes partidários são políticos profissionais, com carreiras nos aparelhos. É de facto assim. Só que os partidos portugueses não têm nem o enraizamento social, nem o pluralismo interno que tornam sustentável o afunilamento das condições de recrutamento dos seus dirigentes.
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Termos na liderança dos dois maiores partidos ex-líderes de juventudes partidárias é um factor de empobrecimento que acentuará o afastamento entre eleitores e partidos. A afinidade nas trajectórias dos líderes do PS e do PSD não é uma questão que possa ser desvalorizada. (...)
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Quer no PS, quer no PSD, as novas lideranças assentam em mecanismos de poder interno relativamente fechados. Por isso mesmo, terão todas as condições para se perpetuarem no poder e estamos em face de um ciclo relativamente longo - com estabilidade directiva também na oposição.
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Mas se podemos esperar alguma previsibilidade, devemos também assistir a uma crescente degradação na imagem dos partidos na sociedade. É verdade que estamos perante uma tendência europeia de deterioração da política. Só que em Portugal tenderá a ser mais intensa.
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Pedro Adão e Silva - in Expresso de 23/7/11
