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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Pedro Lomba - Público de 9-2-2012

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«Eu sou piegas na garganta. E você é-o no sentimento.

E o Craft é-o na respeitabilidade. E o Damasozinho é-o na tolice.

 Em Portugal é tudo Pieguice e Companhia.»
  Eça de Queiroz

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No princípio de Abril de 2008, o antigo presidente Jorge Sampaio deslocou-se à Universidade de Aveiro para um doutoramento honoris causa. Pregando um sermão fértil em agitação interior, Sampaio avisou que não alinhava no "campeonato das lamúrias". E acrescentou que Portugal precisava de "uma iniciativa privada que não esteja sempre com lamúrias".
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Durante os dez anos em que ocupou o Palácio de Belém, Sampaio bateu-se ardorosamente contra a lamúria e os lamurientos. Num dos seus discursos afirmou: "Para quem, como eu, tem feito da luta contra a lamúria um desígnio prioritário." Estava certo. Sampaio foi sempre fiel ao seu "desígnio prioritário". A luta contra a lamúria fez com que percorresse muitos quilómetros. Em 2002, visitando o Alqueva, apelou à iniciativa dos agricultores "num momento em que o país está sem tempo para lamúrias". Em 2005, numa visita oficial ao Chile, disse que "não é com lamúrias e braços caídos que os problemas se resolvem".
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Triste destino de Passos Coelho. Caso se chamasse Jorge Sampaio, teria a vida mais facilitada. (...)

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Vejam bem como a História se repete, de vez em quando como tragédia, quase sempre como farsa, mais raramente como parvoíce. Na campanha para as eleições presidenciais de 2000 entre Ferreira do Amaral e, de novo, Jorge Sampaio, podia ler-se nos jornais que o candidato do PSD acusara Jorge Sampaio de estar "a ter um comportamento arrogante, ao classificar as queixas dos portugueses de lamúrias".
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Desgraçado Ferreira do Amaral. Por ser quem era, ninguém lhe deu cavaco. Nenhum Arménio Carlos apareceu a seu lado de dedo no ar. Nenhum Zorrinho se prontificou para garantir: "Não é próprio de um presidente chamar lamurientos ao seu povo." Nenhum jornalista, cientista social, antropólogo, sociólogo, psicólogo, expeliu as suas sentenças morais. Não se ameaçou com revoluções. Nenhum professor João Leal da Universidade Nova (PÚBLICO de ontem) esclareceu que um "povo não tem psicologia" (e o inconsciente colectivo de Jung ou a memória colectiva de Halbwachs?).
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Às vezes o que mais deprime em Portugal não é a pieguice ou a lamúria. É sermos tão previsíveis e inconsequentes, ao ponto de uns continuarem a achar que têm o monopólio do coração e outros fecharem os olhos à verdadeira desvergonha. Entretanto, o Estado continua por reformar e o nosso modo de vida abre fendas por todos os lados. Talvez nos salvemos com esta admirável noção do ridículo e do essencial.