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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Extracto da entrevista a Ben Knapen* - Público de 17-2-2012

*Ministro holandês dos Assuntos Europeus e Cooperação Internacional

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Ben Knapen - (...) Queremos ver a Grécia a gerir a sua crise de uma forma que se encaixe não só na estabilidade do país, mas de toda a zona euro.

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Público - E se não encaixar?

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B.K. - Se não encaixar, então não haverá desculpa e a Grécia tem de assumir a responsabilidade. (...)

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P - Tem-se falado da possibilidade de um segundo resgate a Portugal. A Europa e a Holanda estariam dispostas a isso?

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B.K. - Não vou especular sobre isso. A cada trimestre, a troika analisa o cumprimento do programa, faz um relatório e, de acordo com as suas recomendações, a zona euro actua. Quando uma nova análise sair, discuti-la-emos. A questão fundamental é recuperar o controlo e é nisso que o Governo está a trabalhar. Claro que todos os países, tal como a Holanda, têm de o fazer também, porque temos de estar certos que a população e os mercados confiam em nós. E isso é ainda mais relevante por estarmos na zona euro, pois quando nós estamos fora de controlo vocês sofrem e vice-versa.

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P - Mas o facto de todos os países do euro aplicarem a mesma receita de austeridade não acaba por agravar a própria crise?

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B.K. - Entendo essa ideia, mas acaba por ser vulgarizar um pouco o debate. Se um país da zona euro começar a gastar, no dia seguinte os spreads da dívida iriam subir, porque os mercados iriam duvidar da capacidade de pagar essa dívida no futuro. Se um país está sob um programa de assistência, não há como escapar a uma fase de austeridade. Se um país viveu acima das suas possibilidades durante décadas, tem agora de pagar o preço. A ideia de que não há um preço é tentadora para um político usar perante o eleitorado, em véspera de eleições, mas não é verdade. Se um país acumula défices grandes e não tem um crescimento económico forte, a certa altura isso vira-se contra ele. É por isso que temos de passar por esta fase [de austeridade]. Estamos todos impacientes, mas melhores dias virão.

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P - Os países do Norte da Europa parecem estar cada vez menos dispostos a ajudar os países periféricos. É verdade?

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B.K. - Não gosto da palavra "periféricos", porque estamos todos no mesmo barco. Mas, se subimos impostos, se damos garantias a grandes empréstimos, no final de contas é o dinheiro dos nossos contribuintes que está a ser usado. A sua vontade de emprestar depende muito de sentirem ou não que esse dinheiro está a ser bem gasto e essa confiança só se conquista com melhorias na governação da zona euro e se países como Portugal agirem de acordo com as regras que todos decidimos. Portugal tem um papel pivô em convencer também os nossos contribuintes de que estão a fazer a coisa certa. Claro que nem todos os cidadãos acompanham isto todos os dias e, quando vêem na televisão um protesto, pode ser em Lisboa, em Milão, em Madrid ou em Atenas, perguntam-se: é o nosso dinheiro que está ali a arder? No entanto, acredito que, quando todos nós mostrarmos que estamos no caminho certo, que estamos em controlo, perceber-se-á que o dinheiro está a ser bem gasto, porque cria estabilidade para a zona euro. O meu país também precisa disso. A Holanda vive de exportar e importar, estamos tão conectados à situação económica da zona euro que, se esta florescer, nós florescemos. Mas temos de certificar-nos que o dinheiro que emprestamos não é consumido pelas chamas.

Vasco Pulido Valente - Público de 17-2-2012

Portugal é a Grécia? Portugal não é a Grécia? Há quem ache que sim, há quem ache que não. Mas quando o assunto vem ao de cima, vem sempre inevitavelmente por causa de uma nova batalha campal na Praça Sintagma, entre a polícia e uns milhares de manifestantes, a que a troika tornou a tirar dinheiro. (...)

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Depois do episódio da República, que mesmo assim não afectou - ou afectou pouco - o interior do país, desde meados do século XIX nunca o país deixou de viver num Estado poderoso e vigilante, que o trazia vigiado por um Exército disperso pela província e reforçado em Lisboa e no Porto. Salazar, de resto, organizou, alargou e consolidou a repressão. Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras.