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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Extracto da entrevista a João Salgueiro no Público de 14/8/12

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Público - O Governo [depois da decisão do Tribunal Constitucional (TC)] tem condições para cumprir as metas da troika?

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João Salgueiro - Ter, até tem. Há sempre soluções, mas com maiores custos para o país. Será que há medidas menos onerosas? A solução de reduzir os subsídios do sector público constituía uma receita, mas era também uma redução da despesa, porque mais de 80% da despesa do Estado são salários e pensões. Não é possível reduzir a despesa sem reduzir salários ou pensões ou, então, despedindo pessoas. Há quem ache que se devia ter racionalizado a Administração Pública fechando serviços. O TC aparentemente não percebeu isto. E o facto de órgãos de soberania não perceberem os desafios que temos pela frente é preocupante. Igualdade entre o sector público e o sector privado? Não faz sentido. No privado há enorme desigualdade entre empresas. Há uma desigualdade imensa entre quem tem emprego garantido, quem está com contrato a termo e quem é pago à hora. O TC nunca considerou um problema. (...)

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P - As reformas estruturais continuam por fazer...

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J.S. - ...falta uma verdadeira reforma do sistema autárquico. Esta guerra às freguesias é inútil. As freguesias gastam três milhões de euros por ano. O importante era ver se as despesas da Administração Central, das regiões e dos municípios se justificam. Viajamos pelo país e vemos obras dispensáveis. As reformas da justiça fiscal e da burocracia estão por fazer... É indispensável adoptar as respostas que se têm generalizado para encorajar o investimento produtivo. E também são conhecidas entre nós as "reformas estruturais" sempre afirmadas como urgentes e adiadas desde 1978: fiscalidade amigável, justiça pronta, burocracia reduzida, estabilidade e fiabilidade da legislação.

Maria de Fátima Bonifácio - Público de 16/8/12

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Não há nada como ler analistas ainda que só tenuemente esquerdizantes para perceber por que motivo a Esquerda radical, mesmo prometendo arrasar o "capitalismo de casino", aniquilar os especuladores financeiros, abater os ricos e instaurar o paraíso terrestre, não consegue demover os eleitores a entregar-lhe o poder. Essa incapacidade radica, no essencial, no esquecimento da história e, talvez sobretudo, na recusa ideológica em operar com o conceito de "natureza humana" ou, pelo menos - caso o conceito seja mesmo repugnante -, na recusa em atender às "profundezas antropológicas" (Edgar Morin) de certos comportamentos humanos.
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O comunismo, enjeitado por aqueles mesmos que o viveram, não se recomenda a sociedades livres, habituadas à concorrência, conformadas com a existência de ricos, pobres e remediados, em que a vasta maioria das pessoas encara as promessas de igualdade social como histórias para adormecer. As nossas sociedades, tal como aquelas que foram penosamente emergindo do colapso da União Soviética e como todas em que reina um módico de liberdade, são sociedades compostas de indivíduos ávidos de consumo, que se tornou na principal, senão única, paixão contemporânea, exacerbada pela globalização.

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Garantidos os pilares essenciais do Estado Social, Educação e Saúde, as pessoas votam em quem lhes prometer maior acesso a plasmas, casas, automóveis, IPad"s e viagens por paragens tropicais; por quem lhes garanta a posse de um maior número de bens, materiais ou simbólicos. Está na natureza dos homens, que a Esquerda encara erradamente como um produto transitório de um sistema social defeituoso. (...)

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Quando em 1884 Engels presenteia a Humanidade com A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, remete-nos para um mundo angélico, com criaturas a viverem felizes numa sociedade livre da praga do individualismo, em que tudo era comunitário. Apenas não nos explica como e porquê surgiram então energúmenos movidos pela ideia tenebrosa de se apropriarem do que era colectivo, secundados por outros indivíduos que se apressaram a imitá-los. Engels não explica, em suma, a origem da propriedade privada uma vez que, excluindo o factor natureza humana, fica sem instrumentos conceptuais que permitam esclarecer por que motivos as idílicas comunidades primitivas não resistiram à cupidez do Homem. Muito mais proveitosa é a este respeito a leitura de Locke, que em lugar de um tipo humano ideal e inexistente, se ocupa do pequeno homem industrioso, aplicado a ganhar a vida o melhor possível, dentro do respeito pelas leis. 
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Enquanto a Esquerda não submeter a uma crítica radical os vários socialismos reais que conhecemos - e não há senão socialismos reais; enquanto não reexaminar os pressupostos ontológicos do seu entendimento da sociedade, poderá seduzir uma minoria de incautos bem intencionados, mas não chegará ao poder - a não ser numa circunstância absolutamente extraordinária e totalmente imprevisível.