Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

10 Nov, 2012

FALTA UM SALVADOR

Vasco Pulido Valente - Público de 3/11/2012

.

O dr. Cavaco Silva, que, segundo corre por aí, é o Presidente da República, desapareceu. Não se vê na televisão. Os jornais não falam nele. Anda calado como um rato e escondido atrás de uma cortina. A populaça supõe que o bom do homem continua em Belém a olhar para o Tejo e a contar navios. Mas não tem a certeza. Há gente, armada de binóculos, que o tenta descobrir sem o mais vago resultado. E há gente que perde o seu tempo e a sua paciência a especular sobre o que lhe sucedeu, se de facto lhe sucedeu alguma coisa. Já se demitiu sem ninguém saber? Emigrou? Caiu num poço? É um grande mistério. Por assim dizer, um mistério histórico. Um facto é certo: Portugal elegeu um senhor magrinho para resolver os sarilhos da pátria e, agora que precisa dele, ele não está cá.

.
Isto inquieta sobretudo o número crescente de políticos que lhe pedem com fervor a demissão do governo e nomeação de outro igualzinho ao da Itália. De um governo que fosse e não fosse de "iniciativa presidencial". De um governo que fosse e não fosse uma espécie indígena de ditadura. De um governo que tirasse os partidos de cena, sem, no fundo, os tirar. De um governo que fascinasse a esquerda e a direita. E, finalmente, um governo que por muito tempo impedisse eleições, sem tocar ao de leve na democracia. Consta que em Itália o sr. Monti fabricou um governo desses e que pela Itália inteira só se ouvem gritos de alegria. Nós também gostávamos de andar alegres. Mas, por azar, o sr. Monti, sendo italiano, não pode vir salvar Portugal, nem nós, com o nosso orgulho, nos deixávamos salvar por um estrangeiro, excepto se ele pertencesse à troika a que o sr. Monti não pertence.

.. 
Quem irá então ajudar os portugueses nesta aflição? (...) Se alguém encontrar D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, por favor escreva para este jornal.

10 Nov, 2012

O VERBO E A VERBA

Bagão Félix - Público de 7/11/2012

.

(...) Temos de saber enfrentar esta realidade com uma renovada moldura do contrato social. Não apenas tornando-o mais eficiente e mais ético, reprimindo os abusos e os desperdícios, como igualmente promovendo uma mais sólida cultura de partilha de riscos. Um contrato que preserve o seu alicerce público, mas que não iluda as pessoas através de um Estado totalizante, na saúde, nas pensões, na educação. Um contrato que, equilibrando direitos e deveres sociais, contribua para uma melhor coabitação entre um Estado providencialista (de prover) e uma sociedade mais previdencialista (de prevenir) e entre a justiça comutativa e a justiça distributiva. Um "Estado possibilitador" que tenha um critério social coerente e congruente com uma sólida igualdade de oportunidades e não com um ilusório igualitarismo. Um Estado social que não confunda a provisão de direitos sociais com a sua directa produção. Um Estado social, enfim, que não dissocie o carácter redistributivo de uma profunda reforma fiscal. 
.
Em suma, chega de discutir apenas segundo a tentação ideológica-maniqueísta, quando estamos perto do precipício. Como também bom será que não nos deixemos resgatar tecnicamente por um exercício de régua e esquadro de funcionários da troika, que não conhecem o Estado e o país profundo. A salvaguarda do Estado social exige tempo, perseverança, atitude construtiva, sentido de responsabilidade, humanismo radical e capacidade de resistir aos interesses protegidos. Exige, fundamentalmente, espírito de convergência na diferença. Ninguém se pode isentar das suas responsabilidades por razões tácticas, fúteis ou de curto prazo. É uma questão estruturalmente geracional que os portugueses julgarão. De outra forma, não haverá respostas para as crianças e jovens de hoje: o futuro de Portugal!