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COLUNA VERTICAL



Terça-feira, 27.11.12

OS INSUBSTITUÍVEIS

Orlando Nasci­mento

Juiz Desem­bar­gador e último Inspector-Geral da IGAL (Inspecção-Geral da Admin­is­tração Local)

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Aproximando-se o dia mundial con­tra a cor­rupção é meu dever lem­brar uma área que tanto por ela (a cor­rupção) tem feito, por­fiando por con­tin­uar… perfilando-se para continuar…

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É minha con­vicção, na exper­iên­cia for­mada, que urge alterar, por a todos os níveis insus­ten­tável, o estado actual das coisas.

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No meu tra­balho, há muitos anos, recordo-me de ter pas­sado por um municí­pio e de muitas vezes me ter deitado cedo, com um com­prim­ido para enga­nar o cansaço, e sem jantar. Mudei para mel­hor, para um outro onde per­cor­ria a rua prin­ci­pal, em direcção a casa, pela uma hora da manhã. Cansado destas “noitadas”, pas­sei para outro em que reti­rava os proces­sos (atrasa­dos) das prateleiras ao fim-de-semana. No outro a seguir, um sítio are­jado de Lis­boa, tra­bal­hei nas férias de verão dos dois anos que aí passei. Cansado de andar de metro, mudei para mais perto; pas­sei a andar a pé, abrir a porta ao porteiro e sair no final do dia, mel­hor, no princí­pio da noite, com os tra­bal­hadores da limpeza. Em todos eles fui substituído.Para mel­hor ou para pior. Por um para­fuso à medida ou por um arame no seu lugar. E todos con­tin­uaram a funcionar. Ainda que a alguns custe, qual­quer de nós é sub­sti­tuível, muitas vezes por outro melhor.

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Mas há os insub­sti­tuíveis. Nunca os vi, mas já ouvi falar. Tam­bém já ouvi dizer que, deles, está o cemitério cheio. Mas não é destes mor­tais, comuns, que neste impor­tante dia reza a insubstituição. É dos pres­i­dentes! Os nos­sos insub­sti­tuíveis e, por isso, eter­nos, presidentes. Uma vez eleitos e aconchega­dos e aconchega­dos e logo eleitos, tornaram-se insubstituíveis. Esque­ce­ram a profissão. Alguns nem disso precisam. Tra­bal­haram, uns bem, out­ros assim-assim, out­ros mal e out­ros, até, com escân­dalo público, sendo tão ami­gos dos juízes que não lhes fal­tam com tra­balho; ainda o juiz não despa­chou um requer­i­mento e já lá tem mais cinco; prisão é que não. Mas, todos eles são…. insub­sti­tuíveis.

Não vale a pena dizer-lhes que ser eleito não é profissão. Que profis­são é outra coisa. Ser eleito é ter um pro­jecto, apresentá-lo aos cidadãos, executá-lo quando man­datado e…prestar contas!

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A quem o fez, e muitos são, a minha homenagem. Mas não é destes que falo; é dos outros. Os dos pro­jec­tos de “santa Engrá­cia”, da téc­nica do sem-fim; os anos pas­sam e nem para trás, nem para a frente, nem para a democ­ra­cia, nem para os cidadãos, nem para os jovens, nem para os velhos. E vive-se bem (vivem eles).

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Os vel­hos, os de boa cepa, gostam de se ver continuados. Os vel­hos que não gostam de se ver con­tin­u­a­dos são os insub­sti­tuíveis. Eles são únicos. Destroem as próprias som­bras e até os delfins, qual grupo de coel­hos, tão pre­ocu­pa­dos em cas­trar a vir­il­i­dade dos out­ros, que acabam por fazer peri­gar a própria descendência. E destes temos. Eles aí estão. Incon­for­ma­dos com a lim­i­tação de mandatos, que exagero de democ­ra­cia, logo lhes ocor­reu o “desen­ras­canço” (ou não fos­sem eles, na falta de outro, desenrascados). Con­cor­rer ao “con­dado” do lado. Afi­nal é perto, os automóveis são bons, chega-se depressa. E a corte pode ser a mesma; vai também. O Estado con­tin­uará a enviar o din­heiro, que todos pag­amos, ou até nem pag­amos, assim ele venha. Se alguém se queixar, isso é ofensa; ofensa pessoal. Pen­sar difer­ente, dizer difer­ente, é ofen­sivo da …matriz.

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“Livrar de alcaide quando entra e quando sai”; tam­bém será ofensivo?! Pois, sem ofensa, assim como assim, onde estava tam­bém não fazia falta nenhuma. E para onde vai nem aquece nem arrefece. Mas, e o pro­jecto? Tem projecto? Mas alguma vez teve projecto? Para ser pres­i­dente é pre­ciso ter projecto? Ser pres­i­dente é uma profissão. É profis­são velha, con­hecida, batida. Estar no poder. Viver do poder. Manter-se no poder. Não perder o poder. Muito menos para os jovens. Não vão eles trazer pro­jec­tos, fazer mel­hor, apos­tar em valores…

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Os jovens são perigosos! Todos. Con­vém não lhes dar hipóteses. Não lhes abrir o lugar; não abrir mão do lugar. Distraí-los com noitadas (que acenem com bandeirinhas!). Afogá-los em mestrados. Fazê-los emi­grar (e agora sem regresso; que não voltem).

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Mas, onde é que já ouvi­mos isto? À falta de mel­hor, o oráculo augura para si próprio; é o “desenrascanço”. Se os lugares estão ocu­pa­dos, são nos­sos, pois emigrem! Man­dem din­heiro, mas não votem. Paguem cá, mas não contem. Ten­ham sucesso, mas lá longe. Con­cor­rên­cia não.

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Sen­hores pres­i­dentes ten­ham vergonha! E se a não têm, criem-na. Vão tra­bal­har. Reformem-se. Dediquem-se ao turismo. Aproveitem, até, para estudar. Emi­grem vocês mesmos. Mas, lib­ertem os jovens. Não da sua juven­tude, não da sua cidadania. Mas da vossa pre­sença e das vos­sas habilidades.

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Pois ten­ham vos­sas excelên­cias, sen­hores pres­i­dentes, a certeza que: não são insub­sti­tuíveis!

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