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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

Vasco Pulido Valente - Público de 27-7-2014

(...) Agora anda por aí um escândalo financeiro, que entusiasma o jornalismo e os peritos. Mas, num país sem ossos como Portugal, não parece que resista à nossa atávica complacência.

Reportagem de Sofia Lorena - Público de 27-7-2014

Quantas famílias cristãs sobram em Mossul? Eram 20 na sexta-feira, entre as que decidiram afirmar-se convertidas ou pagar o imposto inventado pelos novos senhores, os combatentes do Estado Islâmico (antigo ISIS) que depois de assumirem o controlo da segunda maior cidade do Iraque, no início de Junho, declararam que ali começou a ser erguido um novo califado (um califa é o sucessor de Maomé, que governa a partir da lei islâmica, sharia, numa forma de administração que existiu até 1924).

Neste mundo inventado por homens que vestem de negro não há lugar para deslizes nem minorias – cristãos, yazidis, turcomanos, muçulmanos xiitas…

Os cristãos já enfrentam há muito risco de extinção no Iraque. O que aconteceu foi que de repente esse risco se tornou tão palpável que ninguém arrisca dizer quanto falta para o fim. (...)

O EI quer fazer implodir o Iraque e os cristãos em fuga de uma região onde vivem ininterruptamente há pelo menos 16 séculos são apenas uma parte desta nova realidade. (...)

Mossul. Em 2003, viviam aqui pelo menos 35 mil cristãos. No Iraque eram 1,4 milhões. (...)

Aconteceu o mesmo com todas as minorias religiosas que formam a diversidade que é o Iraque. (...)

Um professor muçulmano em Mossul foi assassinado por protestar contra a expulsão dos cristãos. Igrejas e mosteiros têm sido incendiados ou transformados em mesquitas”, denuncia num comunicado a AIS do Reino Unido. “Cristãos demasiado fracos para fugir têm sido forçados a converter-se ao islão. Os últimos 1500 fugiram de Mossul – depois de perderem tudo, deixados na estrada e obrigados a caminhar em sofrimento na escuridão.

A ordem veio há uma semana: todos os cristãos das áreas controladas pelo EI tinham de sair, converter-se ou pagar um imposto. Nas suas casas começou a aparecer escrita a letra “N”, a primeira da palavra árabe para cristão (nazareno ou “nasrani”), sinal de que se trata de propriedade a confiscar. A mesma que os cristãos e muitos muçulmanos de Bagdad agora inscrevem na roupa – a mesma letra que, aos poucos, vai inundando as redes sociais em campanhas que incluem, por exemplo, usar o “N” como foto de perfil no Facebook.

A frase é de Henry Kissinger ("Noventa por cento dos políticos dão má reputação aos outros dez por cento.) e a foto da Praia de Mira de Ana Fialho.

As fotos da coluna lateral são da autoria de: Jorge Órfão (Santa Maria da Feira), silgab (Serra da Estrela) e Tó Amaro (Vila Loriga).

28 Jul, 2014

Um velho erro

Vasco Pulido Valente - Público de 25-7-2014

(...) Por aqui, as coisas foram bem diferentes. Uma parte, embora pequena, da “inteligência” e do Estado, que o iluminismo e, a seguir, o liberalismo influenciou, achava que a educação iria salvar Portugal de um “atraso” insuportável e ridículo. Além disso, a escola e os professores não custavam caro e, gastando dinheiro em tanta obra inútil ou nociva, os Governos, por uma questão de prestígio, não se importavam de fazer aqui o que se fazia lá fora. (...)

Ainda anteontem, na televisão, o professor Marçal Grilo, antigo ministro, mostrou como o erro pode perdurar, com a frescura de uma ideia nova. Marçal Grilo, como de resto o esclarecido António Costa, veio pela enésima vez comunicar aos papalvos que o maior recurso de Portugal são as pessoas. Evidentemente com a condição de que o Estado as “forme” ou “eduque”. Esta escola de pensamento não conseguiu até agora perceber (e nunca perceberá) que as dezenas de milhares de emigrantes “qualificados” de hoje são o equivalente aos meninos de 1870, que os pais sensatamente guardavam em casa. Uma espécie de beato como Marçal Grilo não se rala com certeza com o capital, a justiça, a fiscalidade e a reorganização do Estado de que a educação precisa para ser de alguma utilidade aos portugueses. Mas que António Costa partilhe com amor esse velho erro não o recomenda a ninguém.

28 Jul, 2014

O poder e o povo

Alberto Gonçalves - DN de 27-7-2014

Há meses, um americano nascido na Grécia explicava-me o que distingue o país de origem do país de destino: no primeiro, os poderosos cometem crimes impunemente; no segundo há poderosos na cadeia. Embora populista, simplória e pouco original, a tese possuía certa pertinência. Além disso, era uma oportunidade para praticar um dos poucos desportos a que me dedico: dar a conhecer lá fora o meu querido Portugal e admitir, com aquela peculiar mistura de vergonha e de gozo, que em matéria de descaramento somos muito mais parecidos com os gregos do que com os americanos.

Quantos sujeitos com poder ou influência estão presos por aqui? Contas bem feitas, nenhum. Salvo pelo ocasional autarca, o indígena bem colocado é livre de estraçalhar as contas públicas, alinhar em evidentes esquemas de corrupção ou surripiar milhões ao próximo sem que daí lhe advenha qualquer mal. (...)

Nas democracias, a impunidade não cai do céu (ou, no caso grego, do Olimpo). Mas há democracias a cair por causa da impunidade.

28 Jul, 2014

Cascas de Nós

 

Afundou-se no Índico do Tempo
A lusa nau que outrora fez a história...
Mas navega ainda na memória
De quem fez da história passatempo.

Que importa ter um Dias ou um Gama
Se a chama não reclama a nossa vela?
Que importa já lutar, morrer por Ela,
Se no berço já não chora quem se ama?

Da cabeça do Mundo até aos pés
O corpo navegámos lés a lés.
Zangão que mais alto voou no mar,

Sem nunca se alarmar da altitude,
Povo velho a quem resta recordar
Histórias da sua juventude.

Viseu, 14/2/1981

Santana-Maia Leonardo - in REXISTIR

Helena Matos - Observador de 20-7-2014

(...) Ser pai e sobretudo ser mãe deixou de ser simplesmente ter filhos – e o simplesmente é uma forma de dizer como bem sabe quem os teve – para se transformar num preenchimento de requisitos materiais que abarcam desde os mais variados e estranhos objectos até inscrições em escolas de sucesso ainda a criança não foi gerada, passando invariavelmente pela obsessão de garantir que haverá sempre dinheiro para garantir tudo o que ela venha a entender precisar. É uma espécie de corrida para se provar a perfeição: a gravidez, o parto, o dormir, o acordar, a alimentação, a entrada na escola… transformaram-se em momentos psicológicos que têm atrás bibliotecas de opiniões tão dogmáticas quanto contraditórias mas sempre coincidentes num aspecto: caso tudo seja feito como eles indicam a criança em questão tornar-se-á no mais perfeito, feliz e bem-sucedido dos seres. (...)

Versões ocidentais e populares do último imperador dos chineses, estas gerações, cujas mães lhes carregam com a mala quando os vão buscar à escola não vão eles cansar-se, viram cada brincadeira ser transformada numa actividade didáctica e a sexualidade tornar-se numa disciplina escolar devidamente supervisionada Essas crianças para quem a a realidade é sempre um trauma e o virtual um mundo a explorar, são o outro reflexo da baixa da natalidade e não certamente o seu lado menos preocupante.

Moral da história: as cegonhas têm razão. Não no que ao transporte de crianças concerne, mas sim na saudável determinação e optimismo com que se adaptaram às mudanças do mundo e trocaram as árvores e os campanários das igrejas pelas torres de electricidade para fazer os seus ninhos. Ou aprendemos com elas ou acabaremos como os pandas.