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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

João Marques de Almeida - Observador de 29-8-2014

(...) Gozo do privilégio de escrever no “Observador” e posso exprimir a minha irritação. Mas tenho a certeza que há milhares de portugueses que partilham o que sinto neste momento. Viajo com eles e vejo o que sentem. A TAP não merece a fidelidade desses portugueses.

Mas há ainda mais duas consequências negativas. O nosso governo aposta, e muito bem, no turismo. E Portugal é um país fantástico para passar férias (na minha opinião, é o melhor da Europa). Não há um único estrangeiro com que fale que não tenha adorado as suas férias em Portugal. Para muitos dos turistas, a TAP é o primeiro contacto que têm com o nosso país. Quantos terão desistido de voltar por causa dos atrasos da TAP? Não faz sentido um governo apostar na promoção do turismo e depois permitir que a companhia nacional esteja sempre atrasada.

Em segundo lugar, numa altura em que o governo procura privatizar a TAP, os atrasos são inexplicáveis. Julgaria que quando se quer vender alguma coisa, teria que se ser exemplarmente competente. A TAP é o contrário. Está à procura de comprador e piora o seu serviço. Ainda não ouvi alguém assumir responsabilidades. Não há responsáveis? São só o “tempo”, as “greves”, o “pessoal de terra” e as “avarias”?

 

António Guerreiro - Público de 30-8-2014

Ao deputado da República que invocava o humanismo como legitimação ideológica da lei agora aprovada que criminaliza o abandono e o mau trato dos animais seria necessário responder com toda a veemência que dispensamos as lições do humanismo, em todos os domínios em que ele gosta de nos dar lições e neste em particular. Por uma razão simples, mas que gosta tanto de se dissimular como a natureza gosta de se esconder: foi o humanismo que fez do mundo inteiro um imenso matadouro. (...)

Não é fácil desmontar as falácias e denunciar os encantos do humanismo hegemónico — esse discurso das boas intenções e do senso comum que dispensa qualquer pensamento. E é certamente chocante para quem está imerso nele e não faz qualquer esforço para vir à tona, pois só sabe respirar nesse meio, receber a notícia de que o nazismo foi um humanismo.

Claude Lévi-Strauss fez um requisitório ainda mais completo: o humanismo está implicado em “todas as tragédias que vivemos, primeiro com o colonialismo, depois com o fascismo, finalmente com os campos de extermínio”. É muito crime para tão beata entidade.

Os animais não sabem que nós lhes demos nomes, que os classificámos e categorizámos, que escrevemos que eles não tinham alma e que não eram dotados de logos (aquilo que faz do homem um “animal político”) e, mais recentemente, que eles não podiam ser sujeito do direito porque não são um sujeito moral. Os animais não sabem, tão-pouco, que passa neste momento um anúncio na televisão, da cadeia de supermercados Intermarché, onde se vê um pastor muito urbanizado e com aspecto de “empreendedor”, no meio de um prado viçoso, a olhar com alegria os bois e as vacas a pastarem. Esta cena bucólica, que faz lembrar a pintura inglesa do século XVIII, fecha com um incitamento a comermos bifes tenros e seleccionados das castas mais genuínas da espécie bovina. O humanismo é este anúncio e Treblinka é já ali, num supermercado perto de nós.