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COLUNA VERTICAL



Sábado, 03.01.15

Obviamente, mais liberalismo

João Marques de Almedida - Observador de 25-12-2014

No debate político em Portugal, há argumentos bizarros. (...) Uma das ideias mais peregrinas diz-nos que houve um excesso de liberalismo nos últimos anos em Portugal. O liberalismo foi responsável pela crise, pelo empobrecimento do país, pela falência do grupo Espírito Santo, pelas dívidas da TAP, e por mais umas centenas de acontecimentos nos últimos anos. (...)

O liberalismo não é uma ideologia política. Aliás, os autores liberais, em geral, sempre mostraram um horror enorme em relação às Ideologias políticas. Este ponto é essencial para se entender o liberalismo. O liberalismo é uma atitude perante a vida pública. Uma atitude onde se procura um equilíbrio difícil de alcançar, entre o cepticismo e o compromisso com a reforma. Como se consegue fazer as reformas mais adequadas à imperfeição da natureza humana? Eis a questão central do pensamento liberal.

O cepticismo em relação às intenções e aos interesses dos indivíduos constitui o ponto de partida das reflexões liberais. (...) Este cepticismo protege os liberais do perigo de excessivas expectativas em relação a qualquer líder político. Mas mais importante, impede que se acredite em ideologias políticas como respostas aos males do mundo. O cepticismo explica igualmente uma das tensões permanentes no pensamento liberal: o poder do Estado. Quem desconfia da natureza humana, não pode confiar inteiramente no poder do Estado. Como disse outro pensador liberal, Lord Acton, “se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.” No caso de Portugal, será caso para dizer se uma maioria corrompe, uma maioria absoluta corrompe absolutamente.

Por outro lado, os interesses egoístas, a ambição desmedida – traços definidores da natureza humana para um liberal – exigem instituições fortes. Esta tensão entre um Estado suficientemente forte para impor regras comuns e um Estado demasiadamente forte que possa ameaçar a liberdade nunca será resolvida com ideologias ou doutrinas. Só há duas respostas possíveis. Por um lado, a construção de instituições fortes, capazes de limitar o poder dos seus titulares. Por outro lado, uma cultura liberal que combata os privilégios e o arbitrarismo e que defenda o exercício da liberdade.

Na história do liberalismo, é possível identificar dois momentos distintos. O primeiro vai desde meados do século XVII até finais do século XVIII. Os traços centrais foram a luta contra os privilégios do Antigo Regime e a reforma de sociedades com profundas desigualdades históricas através do poder da lei. Foram estes os temas centrais de Locke e Montesquieu, de Hume e Adam Smith.

O segundo momento começou com a reação de Burke à Revolução Francesa e estende-se até aos ataque às ideologias totalitárias do século XX, onde os melhores exemplos são possivelmente Raymond Aron e Max Weber. Foi este segundo momento que provocou na tradição liberal uma grande desconfiança nas ideologias políticas – mas que já se adivinhava no cepticismo de Hume e de Kant.

Tradição é talvez a melhor palavra para definir o liberalismo. E, na minha opinião, o maior fracasso da história da democracia portuguesa foi a incapacidade para se construir uma tradição liberal forte. Se hoje estamos numa situação muito difícil, uma das causas foi o défice de cultura liberal – talvez o único défice superior ao défice financeiro. Portugal é um país onde continua a haver demasiados privilégios – que têm apenas contribuído para o enriquecimento de poucos e o empobrecimento de muitos – demasiada impunidade e um exercício do poder de um modo arbitrário, desde o nível local ao nacional.

É revoltante ouvir alguns que beneficiaram desses privilégios, dessa impunidade e que exerceram o poder de um modo arbitrário acusar o liberalismo pela desgraça que causaram ao país.

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Sábado, 03.01.15

"O desejo mede os obstáculos, a vontade vence-os" (Alexandre Herculano)

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Sábado, 03.01.15

Portugal e Lisboa

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 6-1-2015

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A forma como o Governo se prepara para fazer a distribuição dos fundos comunitários é ultra-vergonhosa. Mais uma vez e seguindo à risca o roteiro do Bloco Central, o grosso da fatia vai ser engolido pela região mais rica de Portugal e por uma das mais ricas da União Europeia. Ou seja, mais uma vez, a região mais rica de Portugal vai abotoar-se com os fundos destinados às regiões mais pobres.

Quando é a pedir, Portugal invoca o facto de ser um país pobre e periférico mas, depois, quando se apanha com o dinheiro no bolso, manda às malvas as regiões mais pobres e periféricas de Portugal.

Infelizmente a liderança socialista de António Costa também não deixa antever uma alteração de estratégia relativamente a esta matéria. Bem pelo contrário ou não fosse António Costa presidente da câmara de Portugal. Aliás, o simples facto de acumular o cargo de presidente da câmara de Lisboa com o de secretário geral do PS é bem demonstrativo desta maneira tão politicamente portuguesa de confundir Portugal com Lisboa. Ou acha o leitor que seria possível acumular os cargos se, em vez de presidente da câmara de Lisboa, fosse presidente da câmara de Bragança, Viseu, Portalegre ou Beja?

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