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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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13 Jan, 2015

O fanatismo

Rui Tavares - Público de 12-11-2015

Em 1741, o ainda jovem Voltaire fez representar pela primeira vez a sua tragédia Maomé, ou o Fanatismo, cujo protagonista é um profeta impostor e cruel. Os censores católicos ficaram agradavelmente surpreendidos — o autor era um já notório provocador e parecia agora regressar à boa fé cristã com um ataque aos infiéis — e deixaram passar a peça. Até ao dia em que algum bispo foi ver a peça e se deu conta de Voltaire estava a falar da religião em geral, e dos católicos em particular (era verdade, como admitiu depois). Dá-se uma reviravolta, a peça é proibida e Voltaire, que já tinha sido preso uma vez e detestado a experiência, pôs-se ao fresco.

A ironia é tramada para os censores. Na Arábia Saudita, há uma espécie de Inquisição muçulmana chamada a Comissão para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício. Farto de ser perseguido e censurado, um blogger chamado Raif Badawi resolveu escrever simplesmente algo como "estamos gratos à Comissão para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício por promover a virtude e reprimir o vício". Os censores sauditas ouviram por detrás daquela ostensiva não-crítica o riso escarninho do jovem blogger e condenaram-no a cinquenta chicotadas todas as semanas, durante vinte semanas. (...)