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COLUNA VERTICAL



Sábado, 17.01.15

O martírio do preso número 44

José Manuel Fernandes - Observador de 3-1-2015

Existe em Portugal um “poder obscuro”, de “puro arbítrio e despotismo”. Esse poder impõe uma “limitação infundada e desproporcionada de direitos fundamentais” mas “não durará”, pois “é precário como todos os poderes assentes no medo”.

Este diagnóstico não foi feito por José Sócrates antes do 25 de Abril, período onde não se lhe conhece nenhuma actividade de resistência ou de oposição. Foi feito agora, 40 anos depois da revolução, num regime em que as últimas modificações importantes das leis penais foram feitos num período em que ele próprio era um todo-poderoso primeiro-ministro, com mais poder concentrado no seu círculo de íntimos do que qualquer outro primeiro-ministro da democracia. (...)

É sempre possível haver inocentes presos. Direi mesmo que está sempre a acontecer. Há até inocentes que são condenados. O que é mais raro é alguém sobre quem recaem fortes suspeitas considerar que, no fundo, tudo não é mais do que política. (...) Mais: por insinuar a “suspeita de perseguição política”.

E aqui chegamos ao ponto em que esta missiva acaba por ser um acto falhado. É que se é possível admitir que neste processo não existam ainda todas provas, ou algumas provas sejam frágeis, o país inteiro sabe que se há coisa que não faltam são indícios. Na verdade só alguém como José Sócrates pode pretender que, depois de ter dito que era a mãe que lhe pagava algumas despesas, depois de ter afiançado que sobrevivera em Paris graças a um empréstimo da Caixa-Geral de Depósitos, acreditemos agora que era afinal um benemérito amigo que lhe emprestava dinheiro, empréstimo que tenciona pagar “apesar da informalidade da nossa relação”.

O antigo primeiro-ministro sempre foi assim (há mesmo quem testemunhe discussões na sua adolescência em que já era assim): tem sempre um argumento novo, tem sempre uma desculpa nova, passa sempre ao ataque, não tolera que não se aceite a “sua verdade” mesmo quando a relação desta com a verdade verdadinha é muito, muito longínqua.

O que este “preso político” nos conta agora é que está a ser perseguido porque as autoridades judiciais não acham normal que um seu amigo de mais de 40 anos tenha acumulado tantos milhões apesar de não se perceber como; que não acham natural que esse amigo lhe tenha emprestado, sem recibo ou qualquer documento ou registo, centenas de milhares de euros para despesas correntes, dívida que certamente pagará apesar de ele, José Sócrates, garantir que não tem fortuna; que não acham normal que as transações entre estes dois velhos amigos tivessem tomado por regra a forma de notas dentro de um envelope (as malas de dinheiro são um exagero, meu deus!), apesar de no país, no século XXI, mesmo os remediados dos remediados utilizarem cheques, cartões e transferências bancárias (o primeiro-ministro do “choque tecnológico” é afinal um conservador que prefere guardar o dinheiro no colchão); que também não acham normal que um empresário com negócios banais em Portugal tenha oportunamente decidido realizar um investimento num andar “a precisar de obras” em Paris, mesmo a tempo de o emprestar ao amigo que, parece, estava com “algumas dificuldades de liquidez”; e por aí adiante.

Haverá gente capaz de acreditar sempre na verdade do engenheiro, haverá gente capaz de negar sempre mesmo os mais gritantes indícios, haverá gente capaz de jurar sempre pela sua inocência. Não faço parte desse grupo. Não creio que esteja inocente. Não acredito na história da carochinha. (...)

De resto, não sou hipócrita: um ex-primeiro-ministro será sempre julgado na praça pública, e como se está a ver meios de defesa e palco não lhe faltam. Falta-lhe é capacidade para nos fazer acreditar no inverosímil.

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Sábado, 17.01.15

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