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COLUNA VERTICAL



Sábado, 24.01.15

A minha obsessão com José Sócrates

João Miguel Tavares - Público de 22-1-2015

(...) Eu fui um furioso opositor de Santana Lopes, e depois do seu espectacular desastre enquanto primeiro-ministro, os dois primeiros anos do Governo de José Sócrates pareceram-me um oásis de competência e capacidade de liderança.

A minha atitude só começou a mudar com o acumular de casos, casinhos e casinhas, primeiro em 2007, com a questão da licenciatura, depois em 2008, com os projectos da Guarda, e finalmente no annus horribilis de 2009, com a casa da Braamcamp e as gravações do Freeport. Eram casos de gravidade muito diferente, mas denotavam um padrão – padrão esse que os portugueses manifestamente desvalorizaram, permitindo a Sócrates vencer as legislativas de Setembro de 2009. Quando nesse mesmo mês o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes foi suspenso (estamos a falar em uma televisão privada decidir acabar com o seu jornal de maior audiência) e, no final desse ano, se começaram a conhecer os detalhes do Face Oculta, e me deparei com a forma como o país e as suas principais instituições reagiram a um caso daquela gravidade, todos os sinais de alarme dispararam na minha cabeça.

Aí, de facto, dividi Portugal em dois campos: de um lado, aqueles que percebiam o perigo que Sócrates representava para a salubridade do regime; do outro, aqueles que não percebiam. E neste “aqueles que não percebiam” incluo tanto os devotos mais assolapados do engenheiro como aqueles que, não sendo devotos, achavam – e muitos continuam a achar – que ele era apenas “mais um político”, torcendo o nariz a tanta gritaria à volta da sua figura. A minha alegada obsessão deriva daqui: da incapacidade que o país, como um todo, demonstrou para reagir a um primeiro-ministro com o perfil de José Sócrates, que debaixo do nosso nariz tentou controlar em meia dúzia de anos a política, a banca, a justiça e a comunicação social – e que esteve à beira de o conseguir, não fosse o Lehman Brothers ter feito o favor de desabar. (...)

E enquanto eu achar que não aprendemos nada de nada, permitam-me a indelicadeza de continuar a insistir na minha obsessão. Porque o problema não está em Sócrates – está no país que permitiu que ele fosse duas vezes primeiro-ministro.

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Sábado, 24.01.15

Agostinho da Silva (frase) e Rui Videira (foto)

A frase é de Agostinho da Silva ("Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as "tuas" ideias políticas, não as ideias do teu partido.") e a foto de Porto e Gaia é da autoria de Luís Almeida.

As fotos da coluna lateral são do Porto da autoria de: Daniel Schwabe, Michal Cialowicz e Luís Almeida. 

Porto e Gaia de Rui Videira.jpg

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Sábado, 24.01.15

A ministra Bean

Santana-Maia Leonardo - Público de 2-1-2015 e Diário As Beiras de 29-12-2014

0 SM 1.jpgQuando olho para a ministra da Justiça, vem-me sempre à memória o Mr. Bean quando decidiu puxar uma pequena peça de uma grande construção que julgava mal colocada e vê ruir, diante de si, todo o edifício.

O colapso do sistema citius, ao contrário do que para aí se diz, acabou por ser a sorte grande da ministra porque focalizou no citius o colapso do sistema judicial, quando o sistema judicial colapsou por força desta reforma judiciária. Aliás, o sistema citius já está a funcionar e a máquina judiciária das sedes das comarcas está a trabalhar ao ralenti e ninguém pense que vai entrar em velocidade de cruzeiro tão depressa. Os processos vão sofrer atrasos de anos, os prazos de prisão preventiva vão ser ultrapassados sem que o juiz os consiga controlar, muitos processos vão prescrever e outros processos só daqui a um ou dois anos é que se vai perceber que desapareceram.

Esta reforma, para além de ter sido importada de um país (Holanda) que não tem nada a ver com o nosso, foi ainda levada a cabo sem ter meios financeiros, humanos e instalações adequadas. O preço a pagar por esta irresponsabilidade vai ser muito elevado. Dentro de 8 anos ainda vamos andar a lamber as feridas.

Tudo isto se poderia ter evitado se à frente dos principais órgãos de comunicação social tivéssemos gente capaz, suficientemente informada e documentada, para abordar de forma séria este tipo de reformas. Infelizmente, os directores dos nossos jornais estão ao nível dos nossos políticos que, tal como o Mr. Bean, apenas conseguem perceber a utilidade da pequena peça depois de o edifício ruir.

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