Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Rui Ramos - Observador de 5-5-2015

(...) Porque é que, quando tratam de política, os humoristas da rádio e da televisão parecem ser todos de esquerda? Porque é que não existem humoristas à direita?

A pergunta vale para a Grã-Bretanha e para os EUA, como poderia valer para Portugal. Há umas semanas, quando o Observador teve o atrevimento de debater a Constituição, ficou mais uma vez à mostra a regulamentação política do piadismo rádio-televisivo: pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com Francisco Louçã; fica bem atacar as “tias” de Cascais, mas jamais as “figuras” da cultura; é meritório desmontar a austeridade, mas nunca duvidar do despesismo; vale tudo contra os católicos, mas nada contra os jihadistas; e, claro, a Constituição não é para rir. (...) 

É preciso considerar outras razões. Em primeiro lugar, as vantagens que uma máscara de esquerdismo tem para um humorista. A história já célebre de Justine Sacco, a directora de relações públicas de uma das maiores empresas americanas da internet, a IAC/InterActivCorp, demonstra os riscos do humor sem uma boa caução de esquerda. Em 2013, antes de embarcar num voo para a África do Sul, Sacco passou uma última vez pelo Twitter: “Vou para África. Espero não apanhar Sida. Claro que não: sou branca!” A piada caiu no radar de um activista das rede sociais, que logo mobilizou uma gigantesca bola de neve de raiva digital, e conseguiu forçar a IAC a despedir Sacco. O mais patético de toda a história é que Sacco estava apenas a permitir-se um pouco de humor anti-racista, em função aliás dos seus antecedentes (a família, na África do Sul, estivera ao lado do ANC contra o apartheid). Só que ela não era conhecida como activista de esquerda, mas apenas como directora de uma grande empresa.

Dita por Russel Brand ou Jon Stewart, a piada de Sacco teria sido devidamente apreciada. Porque – e é esse o sentido do politicamente correcto – o que interessa não é o que se diz, mas o que é, ou melhor, o que pretende ser quem o diz. (...)