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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

31 Out, 2015

A um poeta

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A Antero de Quental 

“Surge et ambula! [1]

Recolheste-te no teu casulo

E aí ficaste

E não te transformaste

Prisioneiro de ti próprio

Tens na palavra a tua única companhia

Sem outro destinatário

Escreves em voz alta para te ouvires

E sentires que estás vivo

Mas efectivamente já não estás

Apodreces com as palavras

No canto do túmulo que te embala 

A vida é partilha e combate

E o teu canto

Tem o cheiro impenetrável do sepulcro

 

Acorda!

Abre as janelas do teu quarto!

Areja as palavras

E sacode-lhes o pó!

(Já ninguém veste palavras

Com cheiro a mofo)

Vamos!

Incendeia a noite

Com a chama das tuas palavras!

Alumia-nos o caminho!

 

Faz com que a poesia volte a ser

De novo

Festa e conquista

 

Ponte de Sor, 10  de Abril  de 1999

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[1] «Levanta-te e anda!»

30 Out, 2015

Surrealista

Capa Bocage final.JPG 

Em vão durante meses procurei

Entre o tão vasto espólio da poesia

Surrealista, texto que, num dia,

De mim se apoderasse como um rei.

 

Na incerta busca tudo vasculhei,

Livros de autores e de antologia,

E, enquanto lia, mais me convencia

Que não encontraria o que busquei.

 

Lembrava-me o gorila corpulento

Que, no zoo, punha em d’lírio a multidão

Atirando sobre esta o seu excremento.

 

Mas a obra que caía em sua mão,

Imoral, automática, insolente,

Não deixava de ser um cagalhão.

 

Ilha de Tavira, 2 de Setembro de 2005

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Não sou leitor do Correio da Manhã mas rejeito qualquer tipo de censura.

Numa sociedade aberta, isto é inadmissível porque a liberdade de expressão e de pensamento é precisamente a trave mestra das sociedades abertas.

Recordo aqui Karl Popper o grande teorizador das sociedades abertas:

A liberdade de expressão do pensamento, numa sociedade aberta, deve ser um instrumento para descobrir os erros, e não um escudo para os encobrir.”;

A liberdade de expressão deve ter primazia sobre o nosso desejo de não ofender.

Quando evitar ofensas constitui a nossa principal preocupação, rapidamente se torna impossível dizermos livremente seja o que for.

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Para uma lei ou uma instituição serem respeitadas é necessário serem respeitáveis. Ora, a nossa Constituição para ser respeitável teria de ser constituída por um conjunto de normas simples, consensuais e facilmente inteligíveis pelo cidadão comum e que reflectisse aquilo que devem ser os princípios fundamentais e irrevogáveis de qualquer Constituição democrática: liberdades e garantias individuais, igualdade do cidadão perante a lei e separação de poderes.

Acontece que a nossa Constituição é uma autêntica sopa da pedra concebida pelos lunáticos da Constituinte e atulhada de normas ridículas, umas impossíveis de se aplicar, outras que nunca se aplicam, outras que só se aplicam às vezes e outras que se aplicam à vontade do freguês. E tudo escrito naquele estilo propagandístico, enfadonho e programático das cantigas de intervenção da época e que hoje só tem paralelo, quer pelo tamanho (294 artigos), quer pelo teor, nos discursos de Fidel Castro. Além disso, por estranho que pareça, o que é típico dos regimes socialistas, é uma Constituição ao serviço dos poderosos e dos donos do regime porque só eles têm o dinheiro (as custas são proibitivas) e os meios (é preciso conhecer o mapa das minas, porque se trata de um terreno altamente minado) para aceder, com sucesso, ao Tribunal Constitucional.

Por sua vez, o Tribunal Constitucional para ser respeitável devia ser composto ou por juízes eleitos por sufrágio universal ou por juízes escolhidos pelo Presidente da República e pela Assembleia da República de entre cidadãos com um currículo, um passado e uma folha de serviços a condizer com a dignidade e importância do cargo, que reflectissem o equilíbrio social (nem só juristas, nem só funcionários públicos) e que pudessem ser escrutinados publicamente, designadamente, pela Assembleia da República, antes de serem empossados.

Acontece que os juízes do Tribunal Constitucional são nomeados pelos partidos com base nos critérios partidários que toda a gente sabe quais são e raramente alguém os conhece, a não ser os seus familiares e o dirigente do partido que os convidou.

Ora, exigir ao cidadão comum que respeite uma Constituição como a nossa e um tribunal constituído desta forma é pedir de mais. Até porque, como toda a gente já percebeu, a declaração de constitucionalidade de qualquer norma depende muito mais da subjectividade dos juízes do que das normas da Constituição que apenas servem de pretexto para validar as opiniões pessoais e políticas dos juízes por mais absurdas que sejam. Basta ver que até os maiores constitucionalistas são apanhados de surpresa com as decisões do Tribunal Constitucional?!... E quando nem os estudiosos da Constituição a percebem ou entendem…

Junho de 2014

28 Out, 2015

Prefácio

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“Ser homem é ser livre.Tornarmo-nos verdadeiros homens, esse é o sentido da História.” 

Jaspers 

Pulsa na esquerda

O eterno fanatismo

Feia

Gorda, velha e lerda

Enovelada na teia

Do seu próprio catecismo

 

Esquerda e direita

São irmãs da mesma seita

Gerada e criada

No goulag e no gueto

Onde a vida era pintada

A branco e preto    

 

Mas hoje em dia

Senhores

De que serve a teoria

Se o mundo é a cores?    

 

Ponte de Sor, 9 de Março de 2001

A Antero de Quental e Almada Negreiros

Capa Bocage final.JPG

 

Hoje os Dantas e os Feliciano

São de esquerda e, tal como antigamente,

Arrotam à mesa do Presidente,

Obesos de saber palaciano.

 

Mas se o Zé quis o Nobel no seu ano,

Para além de inquisidor sem ser crente

E comunista (evidentemente),

Teve de converter-se ao castelhano.

 

São assim os nossos int’lectuais:

Solidários com os “faminto e nu”,

Sem nunca os olharem como iguais,

 

Tratam o primeiro-ministro por tu,

Frequentam a corte e os telejornais,

São gente de esquerda e levam no cu.

 

Viseu, 25 de Dezembro de 1999

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