Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 30-11-2015

0 SM 1.jpg

Cavaco Silva não quis terminar o seu mandato sem demonstrar aos socialistas e comunistas de que, afinal, tinha razão: o Presidente da República é efectivamente uma força de bloqueio.

Jorge Sampaio veio hoje relembrar que a revisão constitucional de 1982 limitou drasticamente os poderes presidenciais, ficando o poder de dissolver a Assembleia da República circunscrito a uma situação absolutamente excepcional: quando esteja em causa o regular funcionamento das instituições. E o regular funcionamento das instituições só está em causa, obviamente, quando a Assembleia da República não é capaz de gerar uma solução de governo.

Acontece que Jorge Sampaio excedeu manifestamente os seus poderes presidenciais, como agora os define, ao demitir o Governo de Santana Lopes que tinha apoio maioritário na Assembleia da República. Só que, ao fazê-lo, abriu a caixa de Pandora que permite agora a Cavaco Silva e a quem vier a seguir assumir-se como o Às de Trunfo da Política Portuguesa subvertendo claramente o nosso regime, que a revisão constitucional de 1982 quis transformar claramente em parlamentarista com uma componente semi-presidencial.

Quanto ao novo Governo, se a profecia negra do Presidente da República se cumprir, teremos também de lhe dar razão mais uma vez: a lei de Gresham voltou a funcionar. É o que dá ter má moeda na Presidência da República.

28 Nov, 2015

Cascas de Nós

Rexistir.jpg

Coimbra, 14 de Fevereiro de 1981

 

Afundou-se no Índico do Tempo

A lusa nau que outrora fez a história...

Mas navega ainda na memória

De quem fez da história passatempo.

 

Que importa ter um Dias ou um Gama

Se a chama não reclama a nossa vela?

Que importa já  lutar, morrer por Ela,

Se no berço já  não chora quem se ama?

 

Da cabeça do Mundo até aos pés

O corpo navegámos lés a lés.

Zangão que mais alto voou no mar,

 

Sem nunca se alarmar da altitude,

Povo velho a quem resta recordar

Histórias da sua juventude.

26 Nov, 2015

O aluno

Capa Bocage final.JPG

 

Temos aulas até cair prò chão...

Bastantes disciplinas de fachada,

Outras onde ninguém aprende nada,

Mas que nos vão roubando a atenção.

 

Assim vai esta nossa educação,

Ninguém ainda sabe a tabuada,

O pessoal gosta é da coboiada,

E, aos profes, a gente não dá mão.

 

Mas, sem saber contar, ler e escrever

(Confesso que não sou lá muito afoito),

Aqui alguma coisa hei-de aprender.

 

Na minha sala, somos vinte e oito

E já aprendi hoje (estão a ver?)

Que “mandar uma queca” se diz coito.

 

Coimbra, 6 de Novembro de 2005

25 Nov, 2015

Burros de carga

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpg

Do mundo civilizado, Portugal é o país onde os alunos passam mais tempo na escola, brincam menos, passam mais horas a fazer trabalhos de casa, têm a maior carga horária, têm o maior número de disciplinas, são mais pressionados pelos trabalhos da escola e são mais desconsiderados. Ou seja, os burros dos alunos (é assim que são tratados pelos inteligentes que nos governam, pelos inteligentes que os ensinam e pelos inteligentes que escrevem nos jornais) não se conseguem mexer com a carga que lhes põem em cima. Qualquer burro percebe isto.

E qualquer burro também percebe que, para os burros dos alunos conseguirem andar um pouco mais depressa, tem de se lhe aliviar a carga. Só mesmo os inteligentes deste país é que não percebem isto. Para os inteligentes, o mal reside na cultura do facilitismo, na falta de disciplina, na desvalorização do método e do esforço e a solução para o problema é, obviamente, carregar ainda mais o burro: com mais disciplinas, mais aulas de substituição, mais aulas de apoio, mais trabalhos de casa, mais horas de estudo, com programas mais exigentes, etc. etc. E há já mesmo quem defenda a vergastada, como se fazia antigamente, para fazer o burro andar.

Por mais que se explique, os inteligentes deste país não conseguem perceber que o peixe cozido não faz bem às crianças, se for comido em cima de um cozido à portuguesa.

 Junho de 2008

22 Nov, 2015

Pais exemplares

Capa Bocage final.JPG

 

Quero um filho que seja desejado.

Por isso, já fizemos um aborto

Pra que o rebento não nascesse torto,

Já que queremos tudo programado.

 

O meu filho nasceu, já estou cansado,

Não sei se vai chegar mesmo a bom porto,

Que o nosso ensino está mais do que morto.

Entrego-o aos avós (caso arrumado).

 

Sempre que o vejo, trago-lhe brinquedos,

Brinco com ele, acho-lhe muita graça,

Sem, contudo, entender bem os seus medos.

 

Nem entendo hoje, com pais desta raça

(A vida, sabem, tem destes segredos),

Por que é que o rapaz se meteu na passa.

 

Ponte de Sor, 5 de Novembro de 2005

Pág. 1/3