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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

20 Dez, 2015

A ministra Bean

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Quando olho para a ministra da Justiça [1], vem-me sempre à memória o Mr. Bean quando decidiu puxar uma pequena peça de uma grande construção que julgava mal colocada e vê ruir, diante de si, todo o edifício.

O colapso da plataforma informática Citius, ao contrário do que para aí se diz, acabou por ser a sorte grande da ministra porque focalizou no Citius o colapso do sistema judicial, quando o sistema judicial colapsou por força desta reforma judiciária. Aliás, a plataforma Citius já está a funcionar e a máquina judiciária das sedes das comarcas está a trabalhar ao ralenti e ninguém pense que vai entrar em velocidade de cruzeiro tão depressa. Os processos vão sofrer atrasos de anos, os prazos de prisão preventiva vão ser ultrapassados sem que o juiz os consiga controlar, muitos processos vão prescrever, enquanto outros só daqui a um ou dois anos se irá perceber que desapareceram.

Esta reforma, para além de ter sido importada de um país (Holanda) que não tem nada a ver com o nosso, foi ainda levada a cabo sem ter meios financeiros, humanos e instalações adequadas. O preço a pagar por esta irresponsabilidade vai ser muito elevado. Dentro de oito anos ainda vamos andar a lamber as feridas.

Tudo isto se poderia ter evitado se, à frente dos principais órgãos de comunicação social, tivéssemos gente capaz, suficientemente informada e documentada, para abordar de forma séria este tipo de reformas. Infelizmente, os directores dos nossos jornais estão ao nível dos nossos políticos que, tal como o Mr. Bean, apenas conseguem perceber a utilidade da pequena peça depois de o edifício ruir. 

Dezembro de 2014

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[1] Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça do PSD

Fez ontem 245 anos que Ludwig van Beethoven foi baptizado em Bonn, provavelmente um dia depois do seu nascimento.

Para mim, é o maior músico de todos os tempos, porque, para além da genialidade como compositor, a sua obra é um hino à Liberdade, em todos os aspectos: a liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida.

E, para mim, a Liberdade é o valor supremo.

É, por isso, também inteiramente merecido que tenha sido escolhida a sua 9ª Sinfonia como Hino da União Europeia.

16 Dez, 2015

O Filho do Homem

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Santa Margarida, Março de 1984

  

Filho adoptivo de Deus,

Eu nasci do cruzamento

Entre a maçã e a serpente.

Da serpente fiz-me gente

E da semente

Os sonhos meus

Traídos por Caim

Na manhã do nascimento.

 

Nas margens da Razão,

Cresci assim...

Sem nunca ter molhado o pé

Nas frescas águas que são

O firme chão da minha fé.

15 Dez, 2015

O senhor agente

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Que saudades do tempo abençoado

Em que havia respeito e honestidade!

Que saudades do tempo em que a idade

Era um posto e o ladrão bem-educado!

 

Hoje em dia um polícia está lixado

Se quiser exercer a autoridade.

E num mundo sem dó, nem piedade,

Eu quero lá saber se és assaltado.

 

Passo umas multas, desço a avenida,

Anoto as ocorrências e mais nada.

A isto se resume a minha vida.

 

Pois se não pode dar uma estalada,

Deve a polícia andar bem prevenida

Que o melhor é chegar sempre atrasada.

 

Ponte de Sor, 2 de Novembro de 2005

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Com as suas inteligentes medidas, a senhora ministra [1] conseguiu, por um lado, dar uma justificação aos maus professores para continuarem a ser maus e, por outro, desmotivar e desmobilizar completamente os bons professores que agora se arrastam pelas escolas, maldizendo a sua vida e todas as horas que dedicaram à escola. Ninguém consegue ser bom professor se estiver psicologicamente em baixo. E hoje só um imbecil é que consegue manter a auto-estima em alta com esta ministra. Mas um imbecil não é, obviamente, um bom professor.

Eu, pessoalmente, para salvaguarda da minha saúde mental e por respeito a mim mesmo, já pedi licença sem vencimento de longa duração, depois de 25 anos de ensino e de 25 anos a escrever (ingloriamente) sobre a educação.

Os meus colegas mais optimistas acreditam que a senhora ministra, apercebendo-se do actual estado da Educação em Portugal, resolveu arranjar uma equipa ministerial, não para reformar o sistema, mas para o fazer ruir de vez. Se for assim, já cá não está quem falou e só me resta pedir-lhe uma coisa: não desista, senhora ministra! Mais um esforçozinho e o edifício vem abaixo!

Setembro de 2006

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[1] Com a chegada de Maria de Lurdes Rodrigues ao ministério da Educação, a irracionalidade sucedeu à  incompetência neste ministério. Razão por que decidi abandonar, de imediato, a profissão que amava, quer para preservar a minha saúde mental, quer por respeito a mim mesmo, aos meus colegas e aos meus alunos.

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Santa Margarida, Fevereiro de 1984 [1]

 

I

Sou soldado

em terra alheia

 

Ergo com as pedras

que piso

o castelo do meu poder

Sou o rei

do teu destino

e escravo

do meu senhor

 

Tenho um hino

e uma bandeira

que ecoa

e que esvoaça

sobre os destroços da proa

dum navio abalroado

 

Trago nas mãos

esta sina

de crescer como a semente

enterrada

por intrusos

nas margens dum afluente

 

II 

filho do sobreiro

e da charneca

trago no canto

o cheiro

do alecrim

        se no campo

        o morteiro

        arde e peca

do canto

cresce o manto

que há em mim

 

e do grito

semeado

em cada palmo de chão

nasce o mito

dum soldado

brota a letra da canção:

 

«trovador e peregrino

na guerra sou figurante

exorcista militante

dos possessos do destino»

 

III

Sou soldado

e sou poeta

 

abarco numa só mão

a cigarra e o sardão

 

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[1] Publicado in Revista CADERNOS DE LITERATURA, nº18, 1984

11 Dez, 2015

O advogado

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Não há nada pior para advogado

Do que um cliente cheio de razão,

Porque, mesmo que ganhe a sua acção,

Vai sempre dizer: «Fui injustiçado!».

 

Os despachos e todo o processado

São feitos prò ladrão ou aldrabão,

Que ficam sempre bem, ganhem ou não

(Tanto mais se estiver desempregado).

 

Gente séria, honesta e que se preza

Foge dos tribunais de forma lesta,

Que esta nossa justiça sempre lesa.

 

E alega o defensor com tez funesta,

Fazendo ao meritíssimo esta reza:

«Que se faça justiça!» (Será desta?).

 

Ponte de Sor, 4 de Novembro de 2005

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A introdução da disciplina de «Educação Sexual» nas nossas escolas é a melhor prova da total irracionalidade do nosso sistema de ensino e do completo desnorte em que navega a actual equipa que lidera o ministério da Educação[1].

Em primeiro lugar, como se o excesso de disciplinas e a sobrecarga horária não fossem já um dos principais cancros do nosso sistema educativo. E nada melhor do que inventar mais uma disciplina. Em segundo lugar, fica-se sem saber como irão os professores ocupar as horas do curso. Com trabalhos práticos? Com trabalhos em grupo? Ou com trabalhos manuais? E o que se ensinará nestas aulas e qual o modelo de ensino a seguir?

O modelo científico, ensinando a forma como se formam os espermatozóides e qual o trajecto que têm de percorrer para fecundar o óvulo? Para ensinar isto já existe a Biologia.

Ou o modelo preconceituoso, que ensina a mesma coisa mas recorrendo à metáfora das corolas e dos estames para evitar falar directamente em espermatozóides e óvulos? Bem, mas para ensinar isto já existem as disciplinas de Botânica e de Religião e Moral.

Ou o modelo “conselheiro sexual”, em que os alunos colocam as suas dúvidas e o professor esclarece? Para isso, já existe a revista «Maria», para além de ninguém estar a ver um aluno a levantar o dedo durante a aula para expor as dúvidas que o atormentam.

Ou o modelo “prá-frentex”, em que se explica, sem quaisquer preconceitos e, se possível, recorrendo aos meios audiovisuais, como se pratica o sexo oral, anal, em grupo, sadomasoquista, assim como as diferentes utilizações dos diversos acessórios sexuais?

Mas o problema não é só do método: é também do professor que vai leccionar esta disciplina. Porque, como todos devíamos saber, a sexualidade tem uma forte matriz ideológica. E nesta questão não há professores neutros. 

Ora, qualquer pessoa que pense um bocadinho não poderá deixar de chegar, forçosamente, à conclusão de que a disciplina de «Educação Sexual» ou é absolutamente inútil, no caso de ensinar o que já todos sabem, ou potencialmente perigosa, no caso de pretender impingir a ideologia de quem manda.

 Março de 2007

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[1] Maria de Lurdes Rodrigues era, na altura, a ministra da Educação do Governo do PS.