A diferença entre o "trabalho" e o "capital"

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É bom, para a saúde do sistema democrático, que os presidentes de câmara não permaneçam muito tempo nos seus cargos. Os presidentes de câmara, tal como os deputados e governantes, são como os frutos: se ficarem muito tempo na árvore acabam por apodrecer. Por isso, é higiénico substituí-los, antes que apodreçam. Ou seja, antes que se julguem os donos do concelho, que comecem a confundir-se com a própria câmara e passem a usar o dinheiro dos contribuintes como se fosse seu.
Como dizia Lord Acton, «todo o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente». Por isso, se gostamos muito do nosso presidente de câmara devemos evitar que seja reeleito mais do que duas vezes para que não se estrague. As reeleições sucessivas dos presidentes de câmara têm levado a que indivíduos adoráveis, humildes e trabalhadores se transformem, com o passar dos anos, em autênticos déspotas que usam o seu poder de uma forma absolutamente arbitrária, perseguindo todos aqueles que têm a ousadia de discordar ou de criticá-los.
E fiquem descansados que, se o senhor presidente perder as eleições, o mundo não vai acabar. Obras? Todos fazem. Empregos? Todos dão. Desde que haja dinheiro, bem entendido. Sem dinheiro é que é difícil fazer obras e dar emprego. E com a chegada dos fundos comunitários, dinheiro foi coisa que nunca faltou. Pena que nem sempre seja bem gasto. Mas isso também já era pedir muito.
No entanto, nem só de obra feita vive o homem. Mais importante do que as obras é cada um de nós sentir, em cada momento, que é um homem livre. Livre para pensar, livre para criticar e livre para fazer.
E a única forma de se viver em Liberdade na nossa terra é nunca permitirmos que alguém se sinta senhor do nosso voto ou dono do nosso concelho. E, para isso, só há um antídoto seguro: nunca deixar que um presidente apodreça na árvore.
Setembro de 2005

Roma, 31 de Dezembro de 1996
Somos o povo anónimo que trabalha
A maralha
Que estiola
E que se imola
Junto às portas da muralha
Somos o povo anónimo que trabalha
O soldado desconhecido
Caído
E esquecido
Sob os escombros da batalha
Somos o povo anónimo que trabalha
A canalha
Que luta
E que labuta
Sobre o frio cortante da navalha
Nós somos o povo anónimo que trabalha!
De todas as revoluções
A letra das canções
E a bandeira
E a sua vítima derradeira
Nós somos o povo anónimo que trabalha!
Gentalha
Que se agacha, esperando
Pela sorte que não volta,
Mas que, de vez em quando,
se revolta
Os analistas sabem mesmo tudo:
Política, fado, arte, economia,
Justiça, futebol, gastronomia,
Educação, saúde e até judo.
De os ouvir e ler fico parvo e mudo
Com tamanha instrução, sabedoria,
Deixando-me intrigado todo o dia:
Onde terá tirado o seu canudo?
Mas reparei, aqui há um bocado,
Que um analista ilustre desta praça
Falhou num tema onde eu estava informado.
E pensei cá pra mim com certa graça:
Afinal o gajo é bem apanhado,
Só sabe tudo onde a ignorância grassa.
Lisboa, 16 de Outubro de 2005
Todos reconhecemos a grande visão do marquês de Pombal ao proceder à reconstrução da cidade de Lisboa, após o terramoto de 1755. Mas o mérito do marquês residiu precisamente em ter pensado assim em 1755 e não em 2010. E a razão é muito fácil de entender: hoje o mundo é diferente. No século XVIII, as coisas eram feitas para durar toda a vida; no século XXI, as coisas são feitas para durar, quando muito, alguns anos e poucos. Cem anos, no século XVIII, eram uma pasmaceira; um ano, no século XXI, é uma eternidade.
Todos recordamos ainda o fecho do terceiro anel do estádio da Luz, nos anos 80. Fernando Martins, quando lançou mãos à obra, estava convencido de que aquilo era uma obra para toda a vida. Só que, apesar de já não ser novo quando iniciou a obra, ainda viveu o suficiente para ver o estádio da Luz ser demolido e construído de novo. No século XXI, tudo é efémero e o futuro chega e passa por nós muito depressa.
Acontece que os nossos 308 presidentes da câmara e demais governantes só agora chegaram ao século XVIII e vivem fascinados com o marquês de Pombal que querem imitar, a todo o custo. Não há presidente da câmara ou governante que não sonhe fazer uma obra para o milénio, com vista a perpetuar o seu nome. Se fôssemos um país rico, ainda nos podíamos dar ao luxo de ter estas excentricidades. Mas somos um país pobre. E os pobres não se podem dar ao luxo de comprar Ferraris, mesmo que algum banco lhes empreste o dinheiro. E todos também percebemos porquê: porque não conseguem sequer pagar os encargos com a manutenção do bólide, quanto mais pagar o empréstimo. No entanto, os nossos governantes e presidentes da câmara, ávidos de fazer obra, resolveram entrar no esquema tão português do "faça a obra agora e pague depois".
É evidente que isto vai-nos sair muito caro e só pode ser pago de uma forma: com redução drástica de salários, com cortes nas transferências para as autarquias, com despedimentos na função pública, com aumento de impostos (designadamente sobre o património), com a criação de taxas cada vez mais pesadas sobre tudo e mais alguma coisa, com cortes nas prestações sociais, com portagens nas SCUT e com desemprego. E tudo isto vai alimentar, inevitavelmente, a espiral de insegurança, com cada vez mais assaltos, sequestros, violência e negócios controlados pelas máfias.
Mas o povo português não se pode queixar do sofrimento que o espera. Porque este cenário é a consequência natural do voto expresso nas urnas, por acção ou omissão.
É, por este motivo, que eu olho sempre com muitas reservas para todas essas obras megalómanas que os nossos 308 presidentes da câmara lançam todos os anos de norte a sul do país, sem qualquer preocupação com a sua sustentabilidade ou com um planeamento nacional.
Portugal é um país pobre, com uma mão-de-obra pouco qualificada, com baixa produtividade e com poucos recursos. Não se pode, pois, dar a estes luxos de gente rica. Se um pequeno comerciante pensar em recorrer ao crédito para aumentar a sua loja, tem de pensar, antes de mais, se o investimento compensa. Porque, se o rendimento que retirar da loja não for suficiente para pagar as prestações ao banco, mais vale não fazer o investimento, caso contrário fica sem o dinheiro e sem a loja. E se o crédito, então, for para fazer uma vivenda com piscina, o melhor mesmo é não se meter nisso, porque vai acabar por ficar com a dívida e sem a casa, a piscina e a loja.
Ora, Portugal está, ao nível, de um pequeno comerciante, cheio de dívidas e com poucos rendimentos. Não é, pois, altura de continuar a alimentar sonhos de grandeza lançando obras megalómanas que não temos dinheiro para pagar, a não ser à custa de muita miséria e sofrimento. E este vai ser, infelizmente, o grande legado dos nossos 308 presidentes da câmara e dos nossos governantes para as gerações futuras.
Janeiro de 2009
A Exma. Senhora Secretária de Estado Adjunta da Justiça Dr.ª Helena Ribeiro visitou ontem o Tribunal de Abrantes não só para se inteirar das condições existentes e das potencialidades deste tribunal, mas também para manifestar a vontade do Governo de remediar as consequências trágicas, sobretudo para o interior do país, da reforma do mapa judiciário levada a cabo pelo anterior governo.
Ao contrário da anterior equipa do ministério da Justiça, totalmente hostil ao senso comum e à prudência, pareceu-me a Senhora Secretária de Estado uma pessoa bastante ponderada e sensata, o que já é um verdadeiro acontecimento no reino do ministério da Justiça.
Copenhaga, 24 de Agosto de 1996
A Bartolomeu Dias
Naufragar aqui
Junto do rochedo
Onde enfrentei o Medo
E o venci
Minha glória é essa:
Morrer onde nasci
Regressar
Ninguém me peça
Este mar
É o meu Mosteiro
E a Pátria esqueceu depressa
Quem aqui chegou primeiro
O jornalista vive de emoções,
Sem se preocupar com desmentidos
Ou depoimentos falsos ou fingidos,
Tudo fazendo em prol das t’levisões.
Criador de boatos, de ilusões
(os artigos sensatos não são lidos),
Dou o que o povo quer: mortos, feridos,
Assaltos, corrupção, violações.
Gente séria, de bem, não tem saída,
Da política só gente corrupta
Interessa que seja promovida.
Pelo que é sórdido é a nossa luta,
Eis o objectivo desta nossa vida.
Enfim, somos uns bons filhos da puta.
Lisboa, 30 de Outubro de 2005