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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

31 Mar, 2016

O senhor prior

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Depois de tanto ouvir em confissão

Centenas e centenas de pessoas,

Ricas e pobres, más (ou quase) e boas,

Decidi não dar mais a absolvição.

 

Mortes, assaltos, fraudes, corrupção,

Bem sei, meu Deus, que Tu tudo perdoas,

Mas, contra o que Tu crês e apregoas,

Os crentes já só são por tradição.

 

Pensas que o baptizado e o casamento

De tantos portugueses mensalmente

Reflecte a devoção p’lo sacramento?

 

Era melhor cá vires brevemente,

Pra veres com os teus olhos (lamento!)

Que morreste na cruz inutilmente.

 

Abrantes, 12 de Novembro de 2005

30 Mar, 2016

O gueto de Berlim

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Em memória de todos aqueles que,

entre  13/8/61 e 9/11/89,

foram assassinados, junto ao muro,

por terem decidido ser livres.

                                   

Ich bin ein Berliner” 

("Eu sou berlinense")

F. Kennedy, 26/6/63

 

Em Berlim

Bem no centro da cidade

Foi um dia erguido um muro

Por gente malvada e ruim

Que em nome do Futuro

E por amor ao Homem Novo

Algemou a Liberdade

E sequestrou o próprio povo

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Antes do 25 de Abril, bastava alguém manifestar uma ligeira opinião discordante, para logo se silenciar com o rótulo implacável de «comunista». Veio o 25 de Abril e passou a ser o rótulo de «conservador» a colar-se em todos aqueles que se recusassem a embarcar em aventureirismos e experimentalismos, por mais absurdos que fossem.

Os bons eram os progressistas. E foram precisamente estes que, durante quarenta anos, com as suas reformas progressistas e os seus experimentalismos arruinaram e destruíram a nossa Economia, Sistema Educativo, Justiça, Família, Autoridade, Soberania, etc. etc. etc., não deixando pedra sobre pedra.

Tivessem sido os nossos políticos mais prudentes e mais sensatos, ou seja, mais conservadores, e hoje o país não estaria tão pobre e com todas as suas instituições arruinadas, física e moralmente.

Não receie, pois, o leitor que lhe chamem conservador. Ser conservador não é ser contra a mudança do que está mal, mas olhar com desconfiança e reserva para todos os experimentalismos, única forma de preservar o que há de melhor na herança comum. Como ensinava Edmund Burke, o conservador é «uma voz permanente, serena mas firme, num oceano de mudança, que simplesmente aguarda o regresso do bom senso e do bom gosto.»

Dezembro de 2011

28 Mar, 2016

O Barão

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Traficante é senhor de muitas manhas,

O “cacau” mesmo sujo tem bom cheiro

E eu até sou um gajo bem porreiro,

Financio partidos e campanhas.

 

São necessárias muitas artimanhas,

Correr riscos, gastar muito dinheiro,

Corromper, subornar o mundo inteiro...

(Nesta vida, as despesas são tamanhas!)

 

Pra garantir um lucro alto, elevado,

Qualquer das soluções: perseguição

Ao tráfico ou, então, livre mercado.

 

Mas, ó legislador, presta atenção

(O mercado tem isto bem explicado):

O consumo não pode dar prisão.

 

Lisboa, 5 de Março de 2006

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Há vinte anos que estamos a ser governados pela versão portuguesa da geração "Sexo, Drogas e Rock 'n Roll". Ou seja, a geração da "realização pessoal". E, em nome da realização pessoal, sacrificou-se tudo, até a família e os amigos. A honra foi um valor desprezado, denegrido e totalmente esvaziado, ao ponto de praticamente ter desaparecido do nosso vocabulário. Ora, a honra é a trave mestra do edifício dos valores. Não há instituição, comunidade ou sociedade que consiga manter-se de pé sem valorizar a gente honrada.

Acontece que, nos últimos 40 anos, ao mesmo tempo que a gente honrada era perseguida, enxovalhada e ridicularizada, os "chicos espertos" tomavam de assalto todas as instituições (partidos, autarquias, escolas, tribunais, Assembleia da República, Governo, Presidência da República, etc. etc.) e institucionalizavam, como ideologia da IIIª República, o "chico-espertismo".

Instalada no poder que abominava, a geração de Maio de 68, em nome de um ensino centrado no aluno, destruiu a Escola; em nome da ressocialização do arguido, destruiu a Justiça; em nome do superior interesse das crianças, destruiu a Família; e, em nome do interesse nacional, destruiu Portugal. De boas intenções está o inferno cheio e foi em nome de boas intenções que foram demolidas paredes-mestras das nossas instituições com vista a um maior arejamento. O problema é que as instituições, em vez de ficarem mais arejadas, acabaram por ruir com estrondo sobre a cabeça dos alunos, professores, arguidos, ofendidos, filhos, pais, avós e cidadãos portugueses.

Estamos, hoje, apenas, a colher o que semeámos….

Maio de 2012

25 Mar, 2016

O Pacto

Cracóvia, 22 de Agosto de 1998

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A Adolfo Hitler e José Estaline

Para que a sua memória

nunca nos deixe descansar em paz

 

Conta-nos a História

Que dois canalhas sem rival

Escolheram a Polónia

Certo dia

Para comparar o mal

Que cada um fazia

 

Ambos se tomavam por Deus

E se o Adolfo tinha o fascínio

Pelo extermínio

Dos judeus

O José de má memória

Para alcançar a vitória

Chegava a matar os seus

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A arrogância é um dos nossos defeitos mais criticados pelo Padre António Vieira, designadamente no seu sermão de Santo António aos Peixes": (...) É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. (...)"

Ao contrário do que muitas vezes é por aí apregoado, não somos um povo humilde. Pelo contrário, somos subservientes com os superiores (o que é muito diferente de ser humilde) e arrogantes com os subordinados. E somos, assim, não só nas relações hierárquicas dentro das empresas e dos serviços públicos mas também nas relações institucionais. Os governantes (nacionais, regionais ou locais) tratam sempre com desdém qualquer opinião que não seja reverencial. E Lisboa, do alto do seu estatuto supranacional, olha as capitais de distrito com a mesma arrogância e desdém com que estas olham para os municípios e estes para as freguesias. No entanto, basta os nossos governantes passarem a fronteira para, de imediato, assumirem a pose rastejante e o discurso subserviente de pequeno país periférico.

E o futebol retrata, na perfeição, esta nossa tão típica forma de estar na vida. Ao pé do Tondela, do Arouca, do Moreirense, etc., os nossos "grandes" (é assim que toda a gente reverencialmente os trata) são os maiores. Pelo contrário, os "pequenos" são tratados desdenhosamente como se fizessem parte de uma casta inferior e tivessem de agradecer, todos os dias, aos "grandes" a sua existência. Só os "grandes" têm direito a primeiras páginas dos jornais desportivos e a comentadores desportivos em programas diários. Quanto aos jogadores das equipas "pequenas", se souberem dar um chuto na bola, das duas uma: ou são emprestados pelos "grandes" ou vão ser contratados por um "grande". Por sua vez, os adeptos dos clubes "pequenos", de norte ao sul do país, em boa verdade, são de um "grande" e até os dirigentes dos clubes "pequenos" não têm pudor em confessar publicamente o seu amor a um "grande".

Não há dúvida que, em Portugal, os nossos "grandes" são os maiores mas, depois, sai-lhes o Bayern na rifa e são os próprios jornais que, por aqui, veneram, fomentam e promovem a arrogância e a soberba dos "grandes", a reduzir os nossos "grandes" à sua verdadeira dimensão: o de um pequeno e indefeso peixinho em vias de ser engolido por um enorme tubarão. 

Santana-Maia Leonardo

23 Mar, 2016

O Zé Pavão

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Filho do Zé Povinho é Zé Pavão

Que hoje se pavoneia na avenida

Ao volante do carro ca querida

De que ‘inda não pagou a prestação.      

                                         

O pai foçava e só o filho é calão,

Pois vendo o velho pai na sua lida

Mais ficou a gostar da boa vida,

Razão por que virou um mandrião.

 

Eis a foto do povo português:

Gente séria, honesta e de trabalho

Trocada pelos vícios do burguês.

 

São dívidas no banco e até no talho...

E quando ninguém paga ao fim do mês,

Apetece mandá-los prò caralho!

 

Ponte de Sor, 26 de Outubro de 2005

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