Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpg

A União Europeia enredou-se numa teia de burocracias e burocratas onde a democracia deixou de fazer sentido uma vez que as nossas escolhas estavam reduzidas a partidos gémeos, em que apenas variava o nome, sob pena da União se esfrangalhar. Ora, por muita fé que tenhamos nos burocratas europeus, as democracias constroem-se com a participação livre dos povos e o voto deve assentar sempre numa escolha consciente e informada e não na persuasão pelo medo do Papão ou do Dilúvio.

O argumento do Papão tem pés de barro e mais dia menos dia há sempre alguém mais destemido que resolve enfrentá-lo. E o desespero torna sempre as pessoas e os povos mais corajosos. Quem não tem nada a perder o que é que pode perder?

A vitória do Syriza, nas eleições gregas, foi a vitória natural de um povo em desespero que perdeu o medo do Papão. E eu, que sou uma pessoa avessa a revoluções e a experimentalismos, saúdo a sua vitória. A União Europeia chegou a um momento em que tem de se definir: ou quer ser uma verdadeira união de povos europeus ou cada um vai à sua vida, antes que seja tarde de mais. Esta união que não é carne nem é peixe, está-se a transformar numa nova Jugoslávia, gerando e alimentando ódios e divisões entre os povos da Europa que eu pensava que já estavam enterrados há muito tempo.

Fevereiro de 2015

Varsóvia, 19 de Agosto de 1998

Rexistir.jpg

Aos homens da Igreja

de quem José Saramago nunca se lembra

 

"A nossa filiação divina traz nela a herança da Liberdade

Padre Jerzy Popieluszko [1], homilia de 19/10/1984

 

Invejo a tua sorte

Padre do “Solidariedade”:

 

Ser capaz

De transformar a própria morte

Servida por Satanás

No elixir da Liberdade

Que por ironia divina

Se espalhou pela mão cobarde

Da besta assassina

 

Como na lenda da cidade [2]

A tua morte foi o espelho

Onde se matou o dragão vermelho

--------------------------------

[1] O Padre Popieluszko, conhecido por Padre do “Solidariedade” (sindicato), é o símbolo polaco das vítimas do comunismo. Defensor dos direitos humanos e dos trabalhadores na Polónia, foi torturado e assassinado na noite de 19/10/84 por três oficiais da polícia secreta, vindo o seu funeral a transformar-se numa das maiores manifestações contra o regime comunista e o seu túmulo num lugar de peregrinação, o que precipitou a queda do regime.

[2] Conta uma lenda que, em Varsóvia, viveu um dragão que matava as pessoas com o olhar. Por ironia do destino, morreu vítima do seu próprio olhar, no dia em que se viu num espelho.

18 Mar, 2016

O eleitor

Capa Bocage final.JPG

 

Governe bem, governe muito mal,

O meu voto tem sempre garantido,

Porque eu não meto os cornos ao partido

Que escolhi pra meu clube em Portugal.

 

Eleições são um jogo capital

Para quem tem o tacho prometido,

Mas é jogo, pra mim,  ganho ou perdido

Que termina na noite eleitoral.

 

De política não percebo nada,

Nem quero perceber, obviamente,

Que esta cabeça já nasceu cansada.

 

E se quem foi eleito presidente

É ignorante e faz muita borrada,

A culpa não é minha certamente.

 

Ponte de Sor, 15 de Novembro de 2005

Chico Buarque e Ruy Guerra - "Fado Tropical"

"Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

(...) «Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...»"

lula-e-socrates-1.jpg

Terra de Ninguém.jpg

Na Repartição de Finanças de Abrantes dei de caras com um cartaz onde uma jovem sorridente justificava a sua aparente felicidade com esta legenda: «se todos pagarem impostos, você vai pagar menos».

Voltei a ler a legenda e voltei a olhar para a cara da jovem. Afinal, aquilo que irradiava do sorriso da jovem não era felicidade, mas o mais cínico descaramento. Ela estava literalmente a gozar com a minha cara. Se todos pagarem impostos, eu vou pagar menos? Mas a menina pensa que está a falar com quem? Escusa de vir com essas conversas de sonsinha para cima de mim, porque eu sei bem o que a casa gasta. Se todos os portugueses pagarem impostos, eu não vou pagar menos, o Estado é que vai passar a gastar mais. E não só vai passar a gastar mais como vai ter mais dinheiro para financiar os gangues que nos assaltam as casas e os carros, para engordar os parasitas que vivem à conta do Orçamento de Estado e das obras públicas e para esbanjar em motoristas, assessores, na RTP, na CP e nas agências de comunicação e propaganda. Sem esquecer que a maioria daqueles que atafulham os seus cofres à conta dos nossos impostos raramente deixa aqui o dinheiro.

Agora de uma coisa não tenho dúvidas: se tu não pagares o IVA ao carpinteiro, ao electricista, ao mecânico ou ao pedreiro, de certeza que não vais depositar o que poupaste em nenhuma off shore, mas vais gastá-lo no café da esquina, no supermercado ou noutra loja qualquer, dinamizando a economia, fazendo girar o dinheiro e produzindo riqueza.

Milton Friedman dizia com uma certa graça: «Nunca te pese na consciência prejudicar o Estado, porque o dinheiro é sempre melhor utilizado por ti do que por ele.» E, em Portugal, isto é uma evidência. Se vivêssemos num país a sério, já há muito que tinha sido decretada a inabilitação do Estado português para reger o dinheiro dos nossos impostos, devido à sua habitual prodigalidade.

Mas não é já só a forma pouco escrupulosa como o Estado esbanja o nosso dinheiro que me revolta mas sobretudo a forma ardilosa que inventa para sacar dinheiro à classe média e à gente humilde que vive do seu trabalho.

Hoje os juízes e os polícias estão transformados em autênticos cobradores de impostos. Após a última reforma dos Códigos de Processo Penal e das Custas Judicais, os tribunais servem quase só para cobrar impostos sob a forma de "multas" aos desgraçados que têm o azar de lá cair, sejam vítimas, arguidos ou partes. Hoje, em Portugal, poucos são os comportamentos que não são crime e poucos são os crimes cuja pena não é multa. Aliás, a criminalização de certas condutas serve apenas para obrigar o arguido, por mais pobre que seja, a abrir os cordões à bolsa: se não pagares a multa, vais cumprir tantos dias de prisão. 

Mas a vítima também não se fica a rir. Passa para cá a taxa de justiça criminal e as custas pelo decaimento. Só há uma coisa que o arguido não é obrigado a pagar: a indemnização à vítima. Daí o Estado lava as mãos. Quer lá o Estado saber se o arguido paga ou não paga a indemnização…. O problema é da vítima, não é dele. Desde que o arguido pague a multa em que é condenado….

Relativamente às forças de segurança, a história é a mesma. Toca mas é de facturar contra-ordenações e deixem lá os outros criminosos em paz que só dão despesa ao Estado. E nas operações stop, prestem atenção: se o condutor não parar, não vão atrás dele. O mais certo é ser dos tais que, se for apanhado, só serve para dar despesa, para já não falar na gasolina e nos pneus que sempre se gastam numa perseguição policial. Preocupem-se mas é em autuar aqueles que obedecem às ordens, porque nestes é que a receita está garantida. E não se esqueçam de ir às lojas, cafés e restaurantes verificar se as leis que são alteradas todos os dias estão a ser religiosamente cumpridas. Olhem com atenção, porque é impossível que um povo de analfabetos consiga cumprir as leis que nem aqueles que as fazem são capazes de perceber e cumprir.

É absolutamente escandalosa a forma como o Estado assalta literalmente os pequenos comerciantes, sobrecarregando-os com coimas e multas por infracções absolutamente ridículas e absurdas. Desde o tempo do Robin dos Bosques que o mundo não assistia, por parte de um Estado, a um tão grande esmifrar de quem vive do trabalho. Somos quase tentados a dar razão ao argumento demolidor que justifica a impossibilidade de se ser honesto neste país: "numa sociedade onde as elites se apropriam do grosso dos recursos, não ensinar aos filhos a legitimidade da vigarice seria privar os mesmos de meios de subsistência".

Janeiro de 2009

13 Mar, 2016

Sertório

 Corunha, 31 de Dezembro de 1997

Rexistir.jpg

"Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Bocage, Sonetos

Comandante

Quão semelhante

Acho teu fado

Ao meu

 

 

Entrincheirado

Também eu

Na cova da Solidão

Erro como soldado

Longe do chão

Sagrado

Onde enterrei o coração

TERRA-DE-NINGUEM_-_Capa_large.jpg

Ao contrário da maioria dos nossos comentadores, considero as comissões parlamentares à porta fechada um elemento absolutamente essencial da nossa democracia, na medida em que elas são o melhor barómetro para avaliar a qualidade e a seriedade dos nossos deputados.

Quando a nata dos nossos deputados não consegue guardar o dever de sigilo e já leva no bolso, para a comissão, as conclusões que vai votar e que foram antecipadamente aprovadas no partido, fica-se logo esclarecido quanto à verticalidade, seriedade e idoneidade dos nossos representantes.

Nós sabemos que também não temos muita razão para falar. Basta olhar para o que vai por esse país fora, começando nas forças de segurança, passando pela administração pública e acabando no futebol.

Mas, se é certo que os deputados são os representantes do povo, quanto a estes aspectos, escusavam de nos representar tão bem.

Novembro de 2006