Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

Leicester.jpg

Ao fim de 132 anos, o Leicester sagrou-se campeão inglês de futebol, o que foi saudado, de uma forma geral, por todos os portugueses mas que seria impossível de acontecer em Portugal, precisamente pela massa de que são feitos os portugueses.

Se os ingleses fossem feitos da mesma massa, o Leicester nunca teria hipóteses de ser campeão inglês porque, para que o sonho se realize, é necessário que uma comunidade sonhe. Ora, se o povo de Leicester fosse da raça lusitana, apenas acorreria ao estádio quando lá fosse jogar o Manchester United e para torcer pela vitória da equipa visitante. Como é óbvio.

Se não há nada que mais empolgue uma equipa do que o apoio incondicional do seu público, também não há nada mais destrutivo da moral de uma equipa que ver o seu público puxar pela equipa adversária. Em Portugal, ao contrário de Inglaterra, as equipas "grandes" jogam todos os jogos em casa contra as equipas "pequenas", numa das maiores manifestações de sabujice e servilismo de que há memória no mundo, chegando-se ao cúmulo de as equipas "pequenas" se prostituírem, aceitando mudar os jogos para um estádio maior, a troco de receberem mais uns cobres, para que a equipa "grande" ainda tenha maior apoio e mais hipóteses de sucesso.

À excepção do presidente do Vitória de Guimarães, uma cidade que faz jus ao nome de Afonso Henriques, todos os outros presidentes de clubes não têm rebuço em manifestar a sua preferência clubística por um dos três "grandes". Ora, quando até os presidentes dos "pequenos", como eles próprios auto-intitulam os seus clubes, torcem por um "grande" como pode o "pequeno" sonhar sequer em ser campeão?

Mas a hipocrisia, graças a Deus, sempre foi a imagem de marca do povo português. Não há, no mundo, povo como o nosso para babar-se de emoção com os feitos dos pequenos mas, na hora da verdade, acolhe-se sempre sob a saia dos grandes.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 5-5-2016

Santana-Maia Leonardo - Ribatejo de 13-6-2016 e Rede Regional de 2-5-2016 

Consciência.jpg

Comecemos pelo fim. O Dr. Eurico Heitor Consciência teve a morte que merecia e que eu, confesso, também desejava. Trabalhou todo o dia, deitou-se de consciência tranquila, adormeceu e, no dia seguinte, cumpriu a profecia do Gênesis: "Pois tu és pó, e ao pó retornarás.”

Abrantes, infelizmente, é uma cidade demasiado pequenina para reconhecer a grandeza do homem que acabara de perder. O Dr. Eurico Consciência foi um homem multifacetado: advogado prestigiado a nível nacional, com obra publicada e reconhecida, activista político e com intervenção política, professor universitário e director de jornal, magistrado do ministério público e notário, para além de ter sido um cronista temível e temido. Em todo o caso, aquilo que verdadeiramente o distinguia dos muitos homens multifacetados que há por esse país fora e o tornava excepcional, era o seu carácter de homem livre, totalmente avesso à tão lusitana cultura de rebanho. Não há por esse país fora muita gente com o desprendimento, a verticalidade e a frontalidade de Eurico Consciência. Esta é, aliás, a principal razão por que muita gente não gostava dele. Como dizia Simone de Beauvoir, "os outros detestam em mim o que me distingue deles". E o abrantino tinha muito por onde detestar o Dr. Eurico Consciência.

Apesar de não ser ribatejano, o Dr. Eurico Consciência, para além de ter o sangue do toiro bravo, sempre gostou de pegar o toiro pelos cornos que é coisa que por aqui é difícil de encontrar. O português sempre puxou mais para o boi manso e é mais do tipo rabejador: gosta muito de falar por trás mas não tem peito para enfrentar o toiro de frente.

Mas o Dr. Eurico Consciência conhecia bem o chão que pisava. Em 2008, quando fui convidado para candidato a presidente da Câmara de Abrantes, pedi conselho a três pessoas de Abrantes que, na altura, estimava e confiava, uma delas o Dr. Eurico Consciência, como não podia deixar de ser. Infelizmente acabei por seguir o conselho da maioria, em vez de ter seguido o conselho avisado do Dr. Eurico Consciência: "Se se candidatar pode contar com o meu apoio, mas, se quer o meu conselho, não se meta nisso porque as pessoas de Abrantes e, sobretudo, do PSD (...)".

Em Outubro de 2014, no início do meu mandato como presidente da delegação de Abrantes da Ordem dos Advogados, a delegação decidiu participar nas comemorações do aniversário do Conselho Distrital de Évora com uma iniciativa que eu considerava de sucesso garantido: uma conferência sobre o mapa judiciário, aliada a uma merecida homenagem ao Dr. Eurico Consciência, com a entrega da medalha de honra do Conselho Distrital, pelo seu percurso ímpar na advocacia portuguesa e por ser a grande figura de referência da advocacia abrantina.

Com efeito, quer pelo facto de Abrantes ter sido a cidade portuguesa que mais perdeu com a nova reorganização judiciária, quer pela homenagem ao Dr. Eurico Consciência, no ocaso de uma vida repleta e brilhante, seria impossível que não houvesse uma grande mobilização dos abrantinos em torno desta iniciativa. Nas vésperas do evento e em boa hora, vieram-me, no entanto, à memória as palavras do Dr. Eurico Consciência sobre as pessoas de Abrantes e, à cautela, resolvi convocar toda a minha família: mãe, mulher, filhos, genro, nora e netos.

Após a realização da conferência e da homenagem, fomos todos jantar. Sentei-me ao lado do Dr. Eurico Consciência que, com o seu habitual sentido de humor e frontalidade, me disse: "se não fosse você ter trazido a sua família e eu a minha, não estava lá ninguém. Mas não se preocupe que eu já estava à espera."

O que eu espero agora, no entanto, é ver-lhe ser atribuídos no dia do Centenário da Cidade de Abrantes, a título póstumo, a medalha de honra e o nome de uma das ruas ou avenidas mais arejadas da nossa urbe, a não ser que este tipo de homenagem esteja reservado exclusivamente ao pagamento de favores ou a premiar a dedicação partidária. Mas, se for esse o caso, sempre se podia abrir uma excepção, para, desta vez, sem exemplo, se reconhecer o mérito.

Terra de Ninguém.jpg

Todos sabemos que, em casos excepcionais, a lei permite que se quebre o vínculo entre pais e filhos, possibilitando que estes venham a integrar outra família e, inclusive, a ter novos pais. Trata-se, no entanto, de situações excepcionais, porque, nas relações da família, o princípio deve ser, obviamente, o de não permitir a quebra do vínculo. De facto ninguém compreenderia que uma lei impusesse tantos direitos e deveres a duas pessoas (neste caso, pai e filho) e, depois, permitisse que qualquer das partes quebrasse o vínculo por «dá cá aquela palha», designadamente porque já não há amor.

Alguém aceitaria, por exemplo, que um casal, seis anos após ter adoptado um filho, solicitasse na Conservatória o fim da filiação com o argumento de que, afinal, já não amava aquele filho e que se tinha apaixonado por outro que queria agora adoptar?

Ora, o casamento é uma instituição que assenta nos mesmos princípios de estabilidade e durabilidade que regem as relações familiares. Daí que nasçam para os cônjuges, com o matrimónio, um conjunto de direitos e deveres muito semelhantes aos da filiação. Acontece que, como parece hoje evidente, a esmagadora maioria das pessoas já não entende a relação conjugal como uma relação de família (que pressupõe um vínculo para toda a vida) mas como uma relação circunstancial e, em regra, efémera que apenas deve durar enquanto apetecer ou convier às duas partes.

Se todos reconhecemos que assim é (aliás, está à vista), a solução não passa, obviamente, por desvirtuar e esvaziar o casamento, conforme fez e defende o Partido Socialista, transformando-o numa aberração jurídica e numa instituição totalmente absurda e ridícula, mas pela abolição pura e simples do casamento civil. Na verdade, que sentido faz o Estado, por exemplo, manter o cônjuge em pé de igualdade com os filhos no direito à herança ou facultar-lhe o direito às pensões por morte, quando a relação conjugal é apenas circunstancial, só se mantendo à data da morte do cônjuge por mero acaso e por sorte?

Se marido e mulher são para ir trocando ao longo da vida e se os filhos são para toda a vida, não podem aqueles ter os mesmos direitos e deveres que estes. O Estado deve, por isso, lavar daqui as mãos. Cada um que viva como quer e com quem quer. E se houver alguém que pretenda tornar outro seu herdeiro, para além dos filhos, que faça testamento. É um problema onde o Estado não se deve meter. Uma coisa são as relações de família (que são para toda a vida), outra coisa são os afectos que duram enquanto duram e, em regra, duram pouco e cada vez menos.

Abril de 2008

Pág. 4/4