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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

09 Ago, 2016

O Fogo de Santelmo

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Hoje é frequente ouvirmos dirigentes da administração pública e do poder local, professores, magistrados, advogados, etc. desabafarem que não têm tempo para ler. Que não tenham tempo para ler, eu até compreendo. O que eu já não compreendo é como pode uma pessoa que não tem tempo para ler ser dirigente da administração pública ou do poder local, ser professor, magistrado ou advogado.

Como dizia Hipócrates, «aquele que só sabe de medicina nem mesmo de medicina sabe.” E se alguém pensa que o que aprende na Universidade é suficiente para o exercício competente e qualificado da sua profissão, porque o resto vem com a experiência, está muito enganado. E este é, precisamente, um dos nossos grandes problemas, na medida em que a falta de estudo e de leitura (e quando me refiro a leitura, não me refiro obviamente ao Correio da Manhã e aos romances de faca e alguidar) torna as pessoas limitadas e com as vistas curtas. E não há pior magistrado, advogado, professor, dirigente local, regional ou nacional do que uma pessoa com vistas curtas.

Existe uma estância n’ Os Lusíadas que coloca precisamente o dedo na ferida e que hoje ainda continua actual, provavelmente porque muita gente fala n’Os Lusíadas sem nunca os ter lido. Refiro-me à estância que introduz o episódio “O Fogo de Santelmo e A Tromba Marítima”: “Os casos vi que os rudos marinheiros,/ Que têm por mestra a longa experiência,/ Contam por certos sempre e verdadeiros,/ Julgando as cousas só pela aparência,/ E que os que têm juízos mais inteiros,/ Que só por puro engenho e por ciência,/ Vêem do mundo os segredos escondidos,/ Julgam por falsos, ou mal entendidos.

Dum lado, temos, assim, os rudes marinheiros que têm a experiência mas não têm estudos e que, por isso, não têm capacidade para entender os novos fenómenos a que assistem; do outro lado, temos os estudiosos que, por assentarem todo o seu conhecimento no saber livresco, faltando-lhes a experiência, tomam por falsos os relatos dos marinheiros.

E nós hoje continuamos praticamente na mesma, elogiando muito Camões mas sem lhe seguir o exemplo: “Nem me falta na vida honesto estudo,/ Com longa experiência misturado (…)” Esta é a chave da sabedoria. E sabedoria é precisamente o que nos falta. Ou seja, a simbiose entre o conhecimento e a experiência.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 10-8-2015

José Mourinho - A Bola de 7-8-2016

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"O que aconteceu esta época com o Leicester em Inglaterra nunca seria possível noutros países.

Os clubes poderosos não querem que isto aconteça porque não querem partilhar o dinheiro  nem as receitas das transmissões televisivas.

Querem estar confortáveis e saber que serão sempre os cabeças de série na Champions, querem que o campeonato seja entre dois, três ou quatro ou até só um clube.

Esses clubes querem enfraquecer os seus rivais directos e todas as épocas roubam os seus melhores jogadores, demonstrando que não querem um campeonato competitivo."

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MANEL

Ó Tonho, mas pr'a qu' é que a gente quer 30 oliveiras? Uma na chegava?

TONHO

Ó Manel, uma é pr'à gente dormir a sesta. Outra é pr'à gente fazê as necessidades de pé. Outra é pr'à gente fazê as necessidades sentado. E as outras sã pr'às visitas.

Santana-Maia Leonardo - A Barca 31 de Julho de 2013

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Em boa verdade, os cidadãos depositam hoje tanta confiança na justiça portuguesa como nos jogos de fortuna e de azar. Talvez por isso esteja a regressar em força a justiça privada, porque a maioria dos portugueses não tem dinheiro para arriscar nos Casinos da Justiça em que se transformaram os nossos tribunais.

Neste contexto, falar em advocacia preventiva dá vontade de rir. Com efeito, para que pudesse haver uma advocacia preventiva, era necessário que, pelo menos, os advogados e os juristas fossem capazes de fazer um juízo de prognose, com alguma segurança, sobre o resultado de determinada causa. Ora, isso só seria possível se, em Portugal, houvesse estabilidade legislativa e uma verdadeira jurisprudência. Infelizmente, não há. O que existe em Portugal são decisões judiciais avulsas e contraditórias em que impera o princípio anarco-lusitano de “cada cabeça sua sentença”.

Parafraseando Camões: já não basta o legislador mudar a lei a cada dia, como também a decisão do tribunal nunca é como soía.

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MANEL

O qu' é qu' achas dos 60 mill euros gastos na compra destas 30 olivêras?

TONHO

Esse é que foi um dinhêro bem empregue... Estas olivêras dã cá uma sombra!... E s' esta se estragári ainda temos mais 29. Já na vamos precisá sair daqui tã depressa.

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Portugal já era, em 1974, um país bastante desequilibrado social e territorialmente. Mas a verdade é que o regime democrático, apesar de andar sempre com a coesão social e territorial na boca, tornou esse desequilíbrio absolutamente irreversível, tornando Lisboa numa verdadeira Cidade Estado. E agora é impossível reverter isso, até porque o peso dos votos está cada vez mais concentrado à volta do Terreiro do Paço. Aliás, o sonho e o destino de qualquer jovem que hoje nasça no Interior resume-se a ir viver e trabalhar para Lisboa. E os poucos que por aqui ficam são olhados com algum desdém como se tivessem algum defeito. O que é hoje um alentejano, um ribatejano, um beirão ou um transmontano? São alfacinhas cheios de orgulho nas suas raízes mas que não querem ir viver para a sua terra natal, nem desejam que os seus filhos vão. 

PS e PSD são hoje duas faces da mesma moeda e com a mesma política de esvaziamento do interior em prol da região de Lisboa. Todas as reformas estruturais levadas a cabo pelos governos socialistas e pelo actual governo [1] foram nesse sentido, assim como serão todas aquelas de que por aí se fala e que aguardam pelo próximo Governo, seja ele PS, PSD-PS ou PSD-CDS.

E não me venham falar na regionalização… O que interior precisa não é de aumentar os níveis de decisão, a burocracia e a corrupção. Disso já cá temos de sobra. O que o interior necessita é de um Governo que faça a Lisboa o que os Governos do PS e do PSD têm feito ao interior. Ou seja, encerrar serviços da Administração Pública, Hospitais, Tribunais, Universidades, Quartéis, Ministérios, Secretarias de Estado, Direcções-Gerais, etc. em Lisboa e transferi-los para o interior. O que Portugal precisa, no fundo, é de um Governo que administre este pequeno território com dez milhões de habitantes como se administra uma cidade e não que administre Lisboa como se fosse o país.

O problema é que Lisboa está transformada num daqueles meninos ricos que, apesar de terem tudo, são incapazes de abrir mão de um simples brinquedo para o pobrezinho que nada tem. E PS e PSD são os paizinhos deste menino rico. Dão-lhe tudo, apesar de terem a perfeita consciência de que isso é prejudicial para o crescimento harmonioso de Lisboa e do país.

Não existe no espectro político português um único partido que defenda um modelo de desenvolvimento para o país assente em cidades médias, com um programa sério de combate à desertificação do interior e que passaria, necessariamente, por uma nova reorganização administrativa, com o fim do municipalismo (na sua vertente político-administrativa) e pela transferência de serviços de Lisboa para o Interior. E, como não existe esse partido, nem existem condições objectivas para existir, desde logo porque quem aqui vive ou é velho ou só pensa em fugir daqui, não tenho em quem votar, nem quem me represente.

Janeiro de 2015

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[1] Governo de coligação PSD-CDS

01 Ago, 2016

O rebanho

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Raquel Vaz-Pinto, autora do livro "Para lá do relvado", na sua entrevista ao jornal A Bola de 18 de Junho, confessa que não fala no livro sobre Portugal porque vive "o Benfica com grande intensidade” (“Sou uma adepta fanática"), apesar de reconhecer, como eu já aqui escrevi, que, nos anos da ditadura, Salazar também instrumentalizou o Benfica.

Mas vejamos o que disse sobre a Itália fascista e sobre a Espanha franquista, para podermos fazer a extrapolação para o nosso país, uma vez que a ideologia e a metodologia eram as mesmas em Roma, Madrid e Lisboa: "Na Itália fascista, Mussolini foi o primeiro líder político que compreendeu a capacidade de instrumentalização do futebol como espectáculo de massas. É uma das primeiras grandes ligações, explícitas, entre política e futebol. Com a selecção venceu dois mundiais, mas do ponto de vista interno não lhe correu bem, porque tentou reorganizar as equipas romanas, fundando a Roma e dando à Lázio uma identidade fascista. (...)”. Por sua vez, na Espanha franquista, "havia um apoio explícito de Franco ao Real Madrid. O mítico presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, era um soldado franquista que participou, aliás, no cerco a Barcelona no final da guerra civil. (...)"

Ou seja, Salazar conseguiu, sem qualquer esforço, aquilo que Mussolini e Franco não conseguiram, apesar de todo o seu empenho e dedicação: que Itália e Espanha ajoelhassem perante Roma e Madrid. Com efeito, apesar dos esforços de Mussolini, as duas equipas romanas nunca conseguiram suplantar as equipas do norte de Itália, assim como as gentes de Barcelona nunca prestaram vassalagem a Madrid, apesar do poderio e do sucesso internacional do Real.

Em Portugal, no entanto, bastou o sucesso do Sporting nos anos cinquenta e do Benfica nos anos sessenta para o país inteiro, Porto inclusive, se converter a Lisboa sem que o pastor precisasse sequer de levantar o cajado. E isto diz muito sobre a inata vocação de ovelha do povo lusitano.

Miguel Sousa Tavares disse, em A Bola, uma coisa óbvia para qualquer pessoa que não seja portuguesa: "nunca hei-de perceber que estranha perturbação de personalidade leva uma pessoa do Porto a ser benfiquista." Na verdade, sendo o Porto, naturalmente, a grande cidade opositora de Lisboa, custa a perceber o que leva alguém do Porto a ser benfiquista ou sportinguista. Mas Júlio Machado Vaz, que nasceu e reside no Porto, na sua entrevista ao jornal A Bola do passado 21 de Maio, deu a explicação que só um português entende: "O facto de o Benfica ganhar quase tudo na década de 60 (...) tinha tudo para me atrair."

Por outras palavras: o português comum é do que ganha e, tal como as ovelhas, segue sempre o rebanho. É, assim, no futebol (47% dos adeptos portugueses são do Benfica, enquanto em Inglaterra o Manchester tem 15% dos adeptos e o Real e o Barcelona juntos têm 33%) e é assim na política (até hoje, desde o século XIX, não houve um único primeiro-ministro que tivesse perdido as eleições, após concluir o mandato, para já não falar no que se passa no redil das autarquias).

Santana-Maia Leonardo Diário As Beiras de 26-7-2016

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