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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

Santana-Maia Leonardo - Público de 11-12-2013

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Costumo definir-me politicamente como conservador, liberal e socialista. Conservador nos valores; liberal na economia; e socialista nas preocupações sociais. E o PSD era um partido que correspondia bem a esta minha definição.

Distinguia-se do PS sobretudo por dois aspectos: o PS era menos liberal na economia do que o PSD e o PSD era menos fracturante nos valores do que o PS. Isso resultava, aliás, da base de apoio dos dois partidos. Enquanto o PSD representava, sobretudo, os pequenos e médios comerciantes, empresários, agricultores e profissionais liberais, o PS tinha as suas raízes no funcionalismo público.

Quanto ao resto, tinham muita coisa em comum, desde logo as mesmas preocupações sociais e a partilha dos mesmos valores democráticos, designadamente dos valores fundadores das democracias liberais: respeito pelas minorias, pelo estado de direito, pela liberdade de expressão e de opinião e pelos direitos da oposição. É esse património que se está a perder no PSD, uma vez que existe cada vez mais gente a fingir que é mas que verdadeiramente já não é.

Como escreveu recentemente Pacheco Pereira, na génese do PSD, “havia um conjunto de pessoas notáveis a nível local, personalidades com influência. Eram médicos, pequenos industriais, comerciantes, empresários, advogados, operários em muitos casos, com influência nas suas freguesias, cuja vida não dependia do seu papel nas estruturas partidárias. (…) Hoje, há estruturas do partido, com pessoas com carreiras dentro do partido, cuja única preocupação é gerir as suas próprias carreiras (…) e, quando o PSD está no poder, comunicam com os lugares de influência nacional, assessores do governo, administrações regionais.” 

Hoje Portugal está literalmente partido ao meio: de um lado, o sector financeiro e as grandes empresas, protegidos pela lei e pelo governo qualquer que ele seja; e do outro, o funcionalismo público e os assalariados, defendidos nas ruas e nas mesas das conversações pelos sindicatos e pela esquerda.

No actual espectro partidário, não existe nenhum partido que defenda e/ou represente os pequenos e médios agricultores, empresários, comerciantes e profissionais liberais, ou seja, aqueles que são responsáveis por 90% dos postos de trabalho, e que foram, em tempos, a base eleitoral e a razão de ser do PSD. E quando o sector mais dinâmico da sociedade não tem ninguém que o represente politicamente, só se se pode esperar o pior.

Santana-Maia Leonardo - Sócio n.º694 de 5/6/1965

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Fiz-me sócio do Vitória no dia 5 de Junho de 1965, com seis anos de idade. Nesse tempo, Setúbal e Vitória tinham sido unidos por Deus e só a morte os podia separar. Em 1967, o meu pai faleceu nesta cidade, com 37 anos, e deixei Setúbal para sempre. Apenas o Vitória, que levei comigo, me mantinha ligado à minha Setúbal, ao meu pai e àquele tempo em que juntos festejávamos e sofríamos por amor ao Vitória e por devoção a Setúbal no Estádio do Bonfim.

Uma das minhas grandes aspirações, quando pedi ao meu pai para me fazer sócio do Vitória com 6 anos de idade (fui eu que pedi), era um dia chegar a sócio n.º1. Para os mais distraídos ou ignorantes, é importante sublinhar que o sócio n.º1 é o símbolo vivo, a bandeira viva, uma verdadeira instituição dentro do próprio clube, porque é ele o depositário dos valores e do património imorredoiro da instituição. O sócio n.º1 não tem poder executivo mas tem o valor simbólico do rei nas monarquias constitucionais. E o seu sucessor natural não são, como é óbvio, os seus filhos ou netos mas o sócio n.º2 e assim sucessivamente.

Até há cerca de uma semana, já me tinha conformado de, por razões naturais, não conseguir cumprir o sonho de infância de chegar a sócio n.º1. Com efeito, para se chegar a sócio n.º1 não basta ser leal ao clube a vida inteira, é necessário também uma grande longevidade, requisito essencial que eu não perspectivo poder preencher.

No entanto, há cerca de uma semana, recebi um dos maiores baldes de água fria de toda a minha vida. Segundo me disseram, a assembleia ou a direcção do clube tinham decidido, há uns anos a esta parte, acabar com as actualizações dos números de sócios. Ou seja, os números de sócios que, em qualquer colectividade viva, digna e honrada, se destinam a hierarquizar os sócios pela sua antiguidade e lealdade ao clube, no Vitória servem, neste momento, para identificar os talhões do cemitério onde estão ou vão ser enterrados os titulares do respectivo número de sócio à data da sua morte.

Pelos vistos, os números de sócios inferiores ao meu deixaram de ser ocupados por sócios vivos mais antigos do que eu para se transformarem em jazigos usados pelos herdeiros do sócio falecido como se o número de sócio fosse propriedade dos sócios e pudesse ser livremente transmitido aos seus herdeiros. Por este andar, qualquer dia também passam a ser vendidos, se é que o não são já.

Eu bem estranhava o meu número de sócio manter-se inalterado há tantos anos mas sempre pensei que isso se devesse ao facto de os sócios mais antigos do que eu serem também mais resistentes. No dia em que recebi esta triste notícia, não consegui dormir e pensei, durante toda a noite, em entregar o meu cartão de sócio. Se o Vitória já morreu, tenham a coragem de o enterrar mas não o transformem num cemitério. Jacinto João, Emídio Graça, Vítor Batista, Jaime Graça e tantos outros grandes jogadores que vestiram com orgulho a camisola do Vitória continuarão a viver certamente no coração de todos os vitorianos mas não podem fazer parte do actual plantel do Vitória. Com os sócios passa-se rigorosamente o mesmo.

Que o clube esteja falido, deixa-me triste!

Que o Estádio do Bonfim, que já foi um dos maiores estádios nacionais, esteja decadente, deixa-me desolado!

Que Setúbal se conforme, hoje, ao triste papel de bairro periférico de Lisboa, envergonha-me!

Mas ver o Vitória transformado num enorme cemitério, provavelmente por já não haver gente viva e que ame verdadeiramente Setúbal e o Vitória em número suficiente, mata-me!

Se o Vitória ainda não morreu (para ser sincero, já não estou tão certo disso), cuidem dele com a dignidade que um clube com a sua grandeza merece, começando por enterrar os sócios que já morrerem para que os vivos ocupem o seu lugar e possam celebrar a VIDA, prestando desta forma a melhor homenagem a todos aqueles, designadamente, aos sócios falecidos, que lutaram, viveram e morreram pelo Vitória.

Não existe grandeza sem mística e não existe mística sem símbolos, sem valores e sem referências. Se o Vitória quer voltar a ser o Vitória tem de renascer das cinzas e tem de começar por dentro e, pelos vistos, do zero.

Como dizia Victor Cunha Rego, “o importante num salto não é o cavalo ou seus arreios: é o coração do cavaleiro”. A qualidade sempre foi mais importante do que o número. Poucos mas bons. Para reconquistar Setúbal e conquistar a Liga, o Vitória e a sua direcção não precisam de muitos soldados mas de um exército leal, disciplinado e organizado, ainda que, no início da caminhada, possa ser pequeno. Mas tem de ser composto por soldados vivos e com grande coração e não por jazigos, campas fúnebres ou infiltrados. E os oficiais deste exército têm de ser os sócios mais antigos. São eles que têm de ter o carisma de arrastar e mobilizar, com o seu exemplo e dedicação, os nossos soldados à Vitória e ao Vitória.

Não quero morrer sem ver o Vitória campeão nacional. E já não posso esperar muito tempo. Pelo Vitória! Até à Vitória Final!

12 Out, 2016

David contra Golias

Santana-Maia Leonardo - Jornal do Alto Alentejo de 12-10-2016

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Sou adepto de um clube português que, segundo o último estudo da UEFA (2015), tem menos de 1% dos adeptos portugueses. Por sua vez, só o Benfica tem 47% dos adeptos portugueses e Sporting e Porto juntos têm outro tanto. Ou seja, o Golias lusitano tem mais de 93% dos adeptos portugueses, sendo a cabeça e o tronco do Benfica e os membros repartidos por Porto e Sporting. Por sua vez, o David lusitano tem apenas cerca de 7% de altura, representando a soma dos adeptos de todos os outros clubes.

Sempre que defendo o modelo inglês da repartição das receitas dos direitos televisivos, os meus amigos do Benfica, Sporting e Porto olham, para mim, com a mesma arrogância, desdém e alarvice com que o gigante Golias olhou para o pequeno David: "Nós somos os maiores, somos os que temos mais share, somos os que vendemos mais jornais. Vocês não contam para o totobola. Muito ganham vocês. Se não fosse o Benfica, o teu estádio estava sempre às moscas. As pessoas querem é ver o Benfica e ler notícias do Benfica. "

Eu olho para eles e penso cá para mim: a vossa sorte é os clubes "pequenos" não terem o meu feitio, caso contrário Benfica, Sporting e Porto, os três juntos, caíam de borco como o gigante Golias.

Mas vamos lá raciocinar como David quando desafiou Golias.

Como todos sabemos, sem a centralização dos direitos televisivos, cada clube pode apenas vender os direitos televisivos dos jogos em sua casa. Por outro lado, em termos desportivos, é bem mais importante para o Benfica o jogo em casa do “clube pequeno” (qualquer perda de pontos pode ser trágica) do que para o “clube pequeno” o jogo em casa do Benfica (a derrota é o resultado natural).

Ora, basta somar estes dois factos para se concluir que David, com uma simples pedrada, derrubava Golias.

Como? É fácil: se Benfica, Sporting e Porto só podem vender os direitos televisivos dos jogos em sua casa e se esses jogos não têm relevância desportiva para os outros clubes, estes clubes, se se organizarem e quiserem, podem reduzir a zero o valor comercial destes jogos, fazendo com que ninguém os queira ver ou comprar (ex: falta de comparência, jogar com os juvenis, os jogadores não se mexerem, lesionar-se a equipa completa no primeiro minuto, etc). Veríamos quantas televisões estariam interessadas em comprar estes jogos e se os adeptos dos clubes com mais share também acorreriam ao Estádio para ver a sua equipa a jogar sozinha.

Por sua vez, se os adeptos dos "Golias" quisessem assistir aos jogos das suas equipas nos estádios dos "David" das duas uma: ou as televisões pagavam os direitos televisivos bem pagos ou os adeptos dos "Golias" tinham de pagar bem caro o preço dos bilhetes. Aliás, nem era preciso levar isto à prática, porque bastava a ameaça séria para Golias cair de borco.

O problema dos clubes pequenos não é serem pequenos é serem dirigidos por gente pequenina que nasceu para lamber as botas de Golias, em vez de lhe acertar com uma pedrada no meio da testa. 

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Os portugueses sempre tiveram uma forma muito sui generis de estar no mundo e que os atrai irremediavelmente para o abismo: quando se trata de escolher entre duas coisas, nunca escolhem a melhor das duas, escolhem sempre uma terceira opção que é muito melhor, só que não existe.

Ou seja, em vez de optarem pela melhor solução possível, escolhem sempre a melhor solução impossível, acabando, desta forma, por inviabilizar a melhor solução.

Outubro de 2012

 

Quando eles não valem nada
Não se ganha em discutir
Não é bom servir de escada
Para qualquer asno subir


Há gente que só diz mal
Para se impôr, para ser notada
Quem discute menos vale
Quando eles não valem nada 


E quem pouco valor tem
Só se vinga em deprimir
O desprezo chega bem
Não se ganha em discutir 


Quem mal diz por ser ruim
Nunca vence a caminhada
A nulidades assim
Não é bom servir de escada


Quem vence de fronte erguida
Não se dispõe a servir
Como ponto de partida
Para qualquer asno subir

Tonho e Manel.jpg

MANEL :

Já viste aquela pouca vergonha no Parlamento? O PS acusa o PSD de serem uns mentirosos e o PSD respondeu que mentirosos eram os do PS... Qual é que é a tua opinião?

TONHO :

Desta vez, estão os dois a falar verdade.