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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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Durante o consulado da troika, as cabeleireiras, pequenas oficinas, barbeiros, tascas e taxistas foram perseguidos ferozmente pelo Governo em nome da luta contra a fraude fiscal, revolvendo-lhes a escrita e espiolhando a clientela.

Até as gorjetas foram visadas.

Nem no tempo do xerife de Nottingham se tinha assistido a uma desumanidade fiscal desta monta.

Mas, pelos vistos, os 10 mil milhões transferidos para as offshore não mereceram qualquer atenção do Governo que preferiu fechar os olhos para dormir melhor.

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«O ser humano hesita muito menos em trair a pessoa amada do que a pessoa temida porque o amor quebra-se mas o medo mantém-se.» 

«O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.» 

«Um povo corrompido que atinge a liberdade tem maior dificuldade em mantê-la.» 

«O mal deve ser feito de uma só vez, de modo a que, saboreando-o menos, ofenda menos; e o bem deve ser feito a pouco e pouco, para que todos possam apreciá-lo.»

«Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios.» 

«Os fins justificam os meios.»

«Não há nada mais difícil de prosseguir, nem de mais duvidoso sucesso, nem mais difícil de lidar, do que iniciar uma nova ordem das coisas. Porque o reformador encontra inimigos em todos os que beneficiam da ordem antiga e só defensores apáticos em todos os que beneficiariam da nova ordem.» 

«De modo geral, os homens julgam mais com os olhos do que com o tacto: todos podem ver, mas poucos são capazes de sentir. Todos vêem a nossa aparência, poucos sentem o que realmente somos.»

«Os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do património.» 

«Um filho pode suportar com compostura a morte do seu pai, mas a perda da sua herança levá-lo-ia ao desespero.» 

«Quero ir para o inferno, não para o céu. No inferno, gozarei da companhia de papas, reis e príncipes. No céu, só terei por companhia mendigos, monges, eremitas e apóstolos.». 

 

22 Fev, 2017

A BTV e os vouchers

Santana-Maia Leonardo Diário As Beiras de 21-2-2017

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Face à dimensão do escândalo do Apito Dourado, houve quem acreditasse que o futebol português iria finalmente ganhar vergonha na cara e passar a reger-se por regras mínimas de transparência, imparcialidade, equidade e boa conduta. Acontece que é mais fácil mudar o carácter de um escorpião do que o carácter dos dirigentes e adeptos portugueses.

O Regulamento disciplinar da FFP pune com a descida de divisão qualquer forma de coacção sobre a equipa de arbitragem que contribua para que o jogo ocorra em condições de anormalidade competitiva (artigo 59.º).

Ora, em Portugal, um árbitro, quando entra no Estádio da Luz, sabe que o jogo vai ser transmitido pela televisão do Benfica, em exclusivo, e que o seu trabalho vai ser avaliado pelas imagens que os operadores contratados pelo Benfica selecionarem e pela interpretação dos lances que comentadores e ex-árbitros contratados pelo clube fizerem, tendo estes o poder de, em primeira mão e em directo, destruírem a reputação do árbitro ou atenuarem os seus erros. Existe maior poder de coacção sobre um árbitro do que este? Digam-me um país do mundo, incluindo os mais corruptos, onde seja permitido que jogos do campeonato nacional sejam transmitidos, em exclusivo, por uma televisão de um clube participante.

Relativamente ao caso dos vouchers do Benfica, não deixa de ser, no mínimo, estranho que o Benfica, que tanto se escandalizou com as prendas dos “Apitos em Oiro” e das “prostitutas” a pedido, tenha começado a presentear os árbitros com prendas de valor superior às que eram dadas por Porto, Boavista e Gondomar, para mais depois de saber que a justiça desportiva considerava este tipo de comportamento incorrecto, tendo, inclusive, o Boavista descido de divisão por causa disso.

Além disso, a argumentação do Benfica não colhe quando invoca o tecto dos 300€ das provas da UEFA como limite aceitável para prendas aos árbitros e por duas razões óbvias.

Em primeiro lugar, nas competições europeias, não só o número de jogos é reduzido como, tendo em conta os valores envolvidos, todos os clubes estão em pé de igualdade. Ora, isso não acontece no campeonato nacional, uma vez que não são dados a todas as equipas os meios económicos para poderem dar prendas desse valor a todos os elementos da equipa de arbitragem e observadores, o que gera, logo à partida, uma situação de desigualdade manifesta. Aliás, basta imaginar o que sucederia se se viesse a saber que o Tondela, o ano passado, tinha dado a todos os árbitros e observadores um voucher de 300€ para fazer compras no Palácio do Gelo em Viseu.

Em segundo lugar, nas provas da UEFA, os clubes não têm a possibilidade de vetar árbitros, como acontecia em Portugal, o que significa que apenas tinham direito aos vouchers os árbitros que estavam nas boas graças do clube e assim quisessem continuar.

E para quem acha que isto é tudo inocente, uma pergunta: quem ganhou os três campeonato antes da BTV começar a transmitir, em exclusivo, os jogos do Benfica e quem ganhou os três campeonatos seguintes? Estranha coincidência!

Cândido Ferreira (*) - Texto não publicado pelo Expresso

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Na noite das últimas eleições legislativas, contra a onda de contestação que grassava no PS e quantos insistiam em contradições insanáveis à esquerda, escrevi que o “sistema bipartidário estava suspenso” e que António Costa seria, a partir daí, a “charneira” do poder político em Portugal.

Após uma sucessão de “animais ferozes” que quase nos levaram à bancarrota, e de "gentinha" que se comprazia com a miséria alheia, pareciam finalmente criadas condições para romper com o ciclo de declínio a que o “centrão” nos conduzira. Ao futuro Presidente da República, para além de combater a crispação e o desencanto, competiria dirigir a reorganização do Estado e garantir a sua sustentabilidade. Para isso, teria de romper com três “dês”: o distanciamento, o despesismo e a dependência.

Num jogo viciado, venceu o único candidato credível entre quantos tiveram direito à visibilidade. Um ano passou e, não é novidade, o atual Presidente é um ás em comunicação, tendo rompido com uma Presidência distanciada dos portugueses. O Palácio de Belém, em concorrência com o moribundo CCB, até abriu portas a iniciativas populares. E quando aterra em Portugal, o Presidente também se multiplica em visitas a prisões e a sem-abrigo, a escolas e ao diabo a sete. Tudo bem, se existisse uma lógica neste frenesim mediático, se dessas fugazes deslocações, sublinhadas com afetos e frases feitas, saíssem denúncias sobre as más práticas que reinam em muitas dessas Instituições, ou reuniões de trabalho com uma tutela com quem, na aparência, nada em mar de rosas. O anedótico episódio da “Cornucópia” foi, talvez, a única excepção a esta regra. O povo adora e as sondagens são "ótimas". Mas um ano depois da eleição, o circunspeto Aníbal, e a sua Maria, faziam melhor.  

No que toca ao despesismo, a Presidência limitou comitivas, mas ainda não temos contas e nada consta sobre redução nas ex-Presidências. A falta de respeito pelos contribuintes continua a marcar a Administração, com o défice a ser "controlado" por adiamentos e cortes nos investimentos, e pela quebra dos compromissos oficiais com as empresas, sem que tenha alertado para esta tortuosa via, que conduzirá ao estrangulamento da economia. A promulgação das 35 horas/semanais, bem como a revelação de decisões de uma agência de rating, são outros deslizes que não contribuem para a necessária credibilização económica e política do nosso país. Nunca, nesta área tão sensível, o Presidente emitiu sinais claros. Não só visita, sem critério, as boas e as más autarquias, como nunca se bateu contra a explosão de taxas, sobretudo sobre imóveis. Pode alguém que usa os recursos do Estado para se deslocar a um jogo de futebol, intervir de forma eficaz, mesmo quando aparecem governantes a aceitar benesses ilegítimas?

Finalmente, a dependência face aos lobis instalados. Estamos melhor no combate à corrupção, mas a dignificação da Justiça, em Portugal, está ainda longe de um desfecho airoso. O Presidente já deveria ter convidado a PGR e o Presidente do TIC, entre outros, protagonistas determinantes nesta luta decisiva para o nosso futuro. A tónica na classe política, em desprimor de quem cria riqueza, cultura e valores, concretamente a rejeição de um Conselho de Estado Económico e Social que pudesse reforçar o papel da sociedade civil, é um erro estratégico colossal. Participando em tudo, mas não intervindo no terreno, a dependência do Presidente, face ao sistema, será mesmo a “cadeira” em que lhe concedo um claro “chumbo”.

Dotado de uma inteligência brilhante, o Presidente será sempre homem para surfar toda a onda: fazer o elogio fúnebre do castrismo, tal como no tempo da “outra senhora” apoiava a repressão; clamar contra a criação do SNS, para se tornar no paladino dessa medida; fugir à tropa e ser capaz de, na visita a Moçambique, assobiar sobre as tumbas de centenas de militares lá enterrados; apoiar quem esteja no poder, como antes o fazia com Cavaco Silva, quando ele já nem ia às escolas primárias. Igual a si mesmo, podem os poderosos e influentes de Portugal, políticos ou não, dormir descansados.

Para Portugal seguir em frente, por caminho coerente e seguro, não nos basta quem saiba ler as realidades e interpretar, nos palcos, os anseios populares. Enquanto é tempo, interessaria ganhar um “novo” Presidente capaz de afrontar os poderes e de se bater corajosa e persistentemente, pelas causas em que acreditamos e pelas mudanças necessárias. 

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(*) Ex-candidato presidencial

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Antes de mais e para que fique claro, sou um defensor incondicional das democracias liberais, um europeísta convicto e um federalista. Ou seja, não sou nem salazarista nem tão-pouco nacionalista.

No entanto, li Salazar, caso contrário seria estupidez da minha parte ser contra o que  desconhecia, se bem que essa seja uma característica típica dos portugueses. 

E, quando lemos os discursos e os artigos de opinião de Salazar, não podemos deixar de ficar surpreendidos quer pelo seu conhecimento profundo do povo português, quer pela semelhança das suas opiniões com as do bom povo português que escreve nas redes sociais e que se auto-intitula de esquerda, mas que, afinal, é um salazarista convicto.

Por isso, era bom que certas pessoas, que se dizem anti-salazaristas, em vez de falarem mal de Salazar, o lessem, para, pelo menos, não cairem no ridículo de argumentarem como se fossem salazaristas, ao mesmo tempo que se afirmam anti-salazaristas.

Para vos poupar ao desgaste da leitura, deixo-vos aqui algumas das suas citações.

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«Os homens mudam pouco e os portugueses quase nada.»

«Enquanto houver um português sem trabalho e sem pão, a Revolução continua.»

«Advoguei sempre uma política de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa - política comezinha e modesta, que consiste em gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os seus próprios recursos.» (Discursos, 1928)

«A economia liberal que nos deu o supercapitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já. Receio apenas que, em violenta reação contra os seus excessos, vamos cair noutros que não seriam socialmente melhores.» (Discursos, 1934)

«As condições sociais ou, melhor, as circunstâncias que condicionam as medidas a tomar, modificam-se hoje tão rapidamente que os programas partidários se convertem em generalidades inúteis ou em sistemas de soluções inaplicáveis.» (Tese, 1922)

«Mas nós somos o país das reformas e estamos cada vez pior! É certo, e não admiramos isso, se considerarmos que a reforma de hoje é essencialmente pior do que a que vigorava ontem. Tudo se tem reformado, menos aquilo que na realidade o devia ser primeiro - os homens.» (Imprensa, 1909)

«Para o bom português, meus senhores, a carreira verdadeiramente ideal é aquela que não exija preparação e em que se não faça nada sob a aparência de que se faz alguma coisa.» (Imprensa, 1909)

«Uma das maiores crises do País, meus senhores, é na verdade a crise do funcionalismo, a fome do emprego público. (...) O português vê o máximo de felicidade na segurança dos cargos remunerados pelo Estado. (...) O Estado é o pai carinhoso em cujo braço potente se apoia: ele nunca soube andar sozinho. A pressão exercida neste sentido é tal que parece que já se não procuram homens para bem se desempenharem os empregos; mas criam-se empregos para bem se servirem os homens.» (Discursos, 1912)

«No círculo do seu viver quotidiano cada português tem conceitos próprios, que diferem dos do seu vizinho num pormenor que poderá ser secundário, mas é quase sempre bastante para impedir que se deem as mãos no mesmo esforço.» (Imprensa, 1963)

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