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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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O facto de os benfiquistas, como ressalta dos posts nas redes sociais, estarem mais preocupados com a hipótese de o SL Benfica poder perder os títulos do que sobre a forma como os ganharam diz tudo sobre o "estádio da corrupção" a que chegámos.

Neste momento, basta consultar as redes sociais, para perceber que o SL Benfica, em particular, e os benfiquistas, em geral, depositam toda a sua fé não na integridade e honestidade da sua conduta mas nas leis portuguesas sobre a corrupção e toda a gente percebe porquê.

É que as leis portuguesas sobre a corrupção, como toda a gente sabe, são cozinhadas precisamente por aqueles que elas deviam perseguir.    

Em todo o caso, também não vale a pena depositar demasiada fé nas nossas leis porque elas mudam de um dia para o outro, conforme as conveniências.

Uma coisa é certa: se fôssemos um país asseado, todos os títulos deviam ser retirados a todos os clubes e começar-se do zero, depois de se fazer uma limpeza geral. Sendo certo que, se se levasse a limpeza a peito, sobrava pouca gente para dirigente de clube, árbitro e observador.

No entanto, caso se concluisse que esta solução poria em causa a existência do próprio campeonato, por falta de gente em número suficiente, a alternativa seria obrigar todos os clubes a mudarem a designação dos seus estádios para Estabelecimento Prisional da Luz, do Dragão, de Alvalade, etc. e o campeonato disputar-se directamente da prisão.

Santana-Maia Leonardo

Recordar a actualidade de uma das Crónicas de Maldizer do maior cronista do Ribatejo 

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Eurico Heitor Consciência - Ribatejo de 14-9-2014

A sentença não é sobre a acusação... Tem a ver com a minha circunstância disse Armando Vara, sobre a Sentença do Tribunal de Aveiro que o condenou a 5 anos de prisão.

Tem. Tem mesmo. Vão ver que tem. Assim: quando ocorreu o 25 de Abril de 1974, Armando Vara era um modesto empregado da Agência da Caixa Geral de Depósitos duma mais do que pacata Vila de Trás-os-Montes. Com toda a probabilidade, se não tivesse acontecido o 25 de Abril, Armando Vara estaria hoje a gozar, no sossego, encanto e paz de Trás-os-Montes, a sua reforma de empregado da Caixa, com uma pensão razoável. Não teria preocupações, nem canseiras, nem, de certeza, estava condenado numa dura pena de prisão. Que 5 anos de prisa, serão 5 anos duros na idade dele, depois de ter conhecido o conforto material de que gozam os que têm muito dinheiro – se na prisão não lhe forem proporcionadas condições diferentes das dos restantes presos, como já tem acontecido.

Mas Vara tem o que procurou ou consentiu. Como certa vez escrevi, o mais notável salto à vara realizado neste país foi dado por Armando Vara: meteu-se na política activíssima e saltou de empregado de modesto balcão da Caixa para Director da mesma, pouco depois saltou para a sua administração e de seguida, saltou para Vice-presidente do BCP. Um triplo-salto à Vara.

Abro um parêntesis para dizer que não deverão levar à conta de desconsideração não tratar Armando Vara por Dr. A. Vara – como, curiosamente, faz o seu amigo Engº Sócrates, que obteve o diploma na mesma Universidade Independente em que, pelos vistos, o Dr. A. Vara alcançou um diploma de Relações Internacionais que leva o Engº Sócrates a tratá-lo por Dr. A. Vara.

Tornando ao rego: se Armando Vara se tivesse reformado como empregado da Caixa estaria gozando agora a serenidade da sua reforma entre os seus conterrâneos de Trás-os-Montes, entre homens sérios, frontais e verticais como são quase todos os transmontanos.

Mas optou pela Porca, meteu-se na Política e passou a movimentar-se entre as pessoas que fazem contorções da coluna a toda a hora, para resistirem à concorrência dos seus pares do partido, primeiro, depois para enriquecerem.

E é assim que os robalos se transformam em tubarões.

Santana-Maia Leonardo Rede Regional de 6-2-2017

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Lisboa exerce um poder cada vez mais asfixiante sobre todo o território nacional. E o futebol é sempre o melhor espelho da realidade. Cinquenta anos após o 25 de Abril, os dois maiores clubes da capital continuam a manter cativa a esmagadora maioria da população portuguesa, impedindo que os clubes das cidades médias consigam reunir dentro de portas um número significativo de adeptos capaz de os enfrentar.

À excepção do Porto (a nova Cartago) e de Guimarães (a aldeia gaulesa de Astérix), todas as cidades portugueses continuam a prestar vassalagem a Roma. Na nossa comunicação social, apenas os feitos desportivos dos clubes de Lisboa são valorizados e apresentados como feitos nacionais. Basta comparar a relevância e o destaque dados pela imprensa desportiva da capital à vitória do Moreirense na Taça da Liga, um feito único e provavelmente irrepetível, com os destaques dados às habituais vitórias do SL Benfica na mesma prova. Até a vitória do FC Porto na Liga dos Campeões, o maior feito futebolístico alguma vez alcançado por uma equipa portuguesa, não teve o mesmo tratamento dado às vitórias do Benfica na Taça da Liga, uma competição destinada a rodar as segundas linhas. E mesmo quando se trata da selecção nacional, os atletas e os seus feitos são valorizados de forma diferente consoante o seu clube de origem.

Em Portugal, seja no futebol ou na política, a cor de camisola é o único critério relevante na decisão para os governantes, para os dirigentes federativos, para os árbitros, para os jornalistas e para o cidadão comum, sendo absolutamente irrelevante o mérito e a razão. E num país com esta cultura é absolutamente inútil a defesa da verdade desportiva, uma vez que se trata de um combate que a razão não pode vencer.

E, como se isso não bastasse, a ganância tomou conta da Liga Portuguesa. SL Benfica, Sporting CP e FC Porto já não são apenas grandes superfícies que reduziram todos os outros clubes a pequenas lojas de bairro. Pelo contrário, SL Benfica, Sporting CP e FC Porto são e agem como se fossem os Donos-Disto-Tudo, colocando-se acima das leis, das regras e das próprias instituições de que fazem parte e que controlam, tendo a consciência plena de que, façam o que fizerem, nada lhes pode suceder.

Resumindo, o futebol português vive sob o jugo de uma feroz e sinistra ditadura capitalista. E ditadura capitalista nos dois sentidos: ditadura da capital e do capital.

Recordar o que escrevi o ano passado a propósito das medalhas do centenário.

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Santana-Maia Leonardo - A Barca de Junho 2016

0 SM 1.jpgUm amigo fez questão de me enviar a lista das medalhas do centenário convencido provavelmente de que me escandalizaria, como se eu não conhecesse minimamente a lógica do nosso poder autárquico de que Abrantes é, aliás, o estereótipo.

O caciquismo não é acessório ao regime. É o próprio regime”, proclamava António José de Almeida, em 1910. E cem anos depois nada mudou. É por isso absolutamente natural que os caciques aproveitem o centenário para distribuir as medalhas segundo o único critério que conhecem: arrebanhar o maior número de votos, manter o rebanho unido e homenagear as tais elites de que falou Marcelo nas comemorações do 10 de Junho. Ou seja, as tais elites que se deixaram corromper e que, nos últimos cem anos, sempre nos falharam.

As medalhas de “honra”, objectivamente, servem, por um lado, para premiar aqueles vultos que aceitaram pertencer à última comissão de "honra" do autarca ou que vão pastoreando o rebanho por conta dos apoios camarários, e, por outro, angariar novos vultos para a próxima comissão de “honra”.

É certo que nesta enorme lista existem pessoas (algumas já falecidas) que efectivamente mereciam melhor e menor companhia (a qualidade é um bem escasso) e que são usadas, manifestamente, para credibilizar e branquear uma cerimónia de auto-propaganda do caciquismo.

Nada disto, no entanto, é novidade. E não vale a pena aos medalhados e aos caciques ficarem melindrados comigo porque eu estou apenas a reproduzir, em voz alta, aquilo que toda a gente sabe e diz em voz baixa. Como canta Leonard Cohen: "Everybody Knows".

Santana-Maia Leonardo

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Manuel Henrique Cardoso marcou-me profundamente e contribuiu decisivamente para a minha formação como pessoa, como cidadão e como homem. Eu sei que na hora da morte é sempre fácil o elogio e a assunção das dívidas.

Mas a minha dívida de gratidão a Manuel Henrique Cardoso já foi assumida publicamente há muito tempo e consta expressamente do meu livro "Eléctrico - um clube com alma" que publiquei em Abril de 2004. Por isso, neste momento, profundamente doloroso para mim, deixo aqui o meu testemunho, transcrevendo, precisamente, a passagem do meu livro "Eléctrico - um clube com alma", dedicado a Manuel Henrique Cardoso:

«(...) O objectivo da direcção [do Eléctrico, na época de 1971/72,] era a subida de divisão e o treinador escolhido para cumprir este objectivo foi o consagrado Manuel Henrique Cardoso, antiga glória do Belenenses. Apesar de não ter conseguido cumprir este objectivo, Manuel Henrique Cardoso foi um treinador que deixou obra no Eléctrico.

O Mini-Eléctrico foi, na verdadeira acepção da palavra, um criação sua e que marcou, de resto, a minha geração. No Mini-Eléctrico, vivi a minha primeira experiência democrática e de dirigente desportivo.

O Mini-Eléctrico era constituído por cerca de uma centena de jovens com idades compreendidas entre os cinco e os doze anos. Apesar de ainda vivermos em ditadura, Manuel Cardoso teve a inteligência, a coragem e a intuição de aplicar ao Mini-Eléctrico, provavelmente sem ter consciência disso, mas com inteiro sucesso, o modelo revolucionário das pedagogias não directivas que estava a dar os primeiros passos na Europa democrática.

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O Mini-Eléctrico teve, assim, a sua primeira direcção formada exclusivamente pelos seguintes jovens de 11 e 12 anos: António José Sanganha (tesoureiro), António José de Matos Fernandes, António Manuel de Matos Fernandes, José Manuel de Matos Fernandes, João António, José Rafael de Figueiredo Marques Adegas, José Filipe Cordeiro Batista e eu próprio. A nossa primeira sede foi numa divisão pertencente ao meu avô, existente ao lado da garagem sita no fundo do quintal e que dava para a Rua de Santo António e onde, mais tarde, veio a ser construída a casa do meu tio Armando. Aí reuníamos periodicamente e guardávamos o nosso arquivo.

Numa primeira fase e sempre com a supervisão de Manuel Cardoso, utilizou-se o Campo do Eléctrico, nos Cadeirões, para a prática de várias modalidades e com a improvisação de vários campos. Cada campo contava com equipas formadas por miúdos com as mesmas idades. A preparação física era específica e adequada às idades, conforme o desenvolvimento físico de cada criança, e era levada a cabo no saudoso pinhal, servindo as agulhas dos pinheiros de alcatifa e colchão para a execução de cada exercício.

Numa segunda fase, com o aumento do número de atletas, a direcção teve necessidade de obter novas instalações. A sua sede passou a funcionar então num andar, sito na Travessa das Freiras, cedido por Manuel Matos Fernandes, pai de dois directores do Mini-Eléctrico, e onde funciona hoje a Pontex. 

A direcção conseguiu também que fosse cedido ao Mini-Eléctrico o espaço em frente da Casa do Povo, onde se iniciaram as obras com vista à construção de um mini-polivalente (o primeiro do concelho de Ponte de Sor),  com pista de atletismo, campo de jogos, salto em altura, salto em comprimento, lançamento do peso, etc. Acontece que, quando as obras já decorriam, os proprietários do terreno resolveram loteá-lo.

Tivemos assim de recorrer ao presidente da Casa do Povo que nos cedeu o terreno existente ao lado desta para aí construirmos um campo com tabelas de madeira e em terra batida para a prática das várias modalidades. Aqui pudemos contar com a ajuda de João Sanganha, pai do nosso tesoureiro, que nos forneceu as madeiras. Em cada dia praticava-se uma modalidade diferente: futebol de 5, andebol, jogos tradicionais, etc.

Todos nós tínhamos uma preocupação muito grande com a higiene. Todos os atletas, após os jogos, tinham de tomar banho nos balneários e os mais velhos verificavam se os mais novos tinham surro atrás das orelhas e as unhas grandes e sujas. Se isso acontecesse, para além de serem penalizados, não alinhando nas suas equipas, eram obrigados a tomar banho. Todos os atletas do Mini-Eléctrico eram, periodicamente, inspeccionados pelo médico do clube, existindo uma ficha médica de cada atleta. Na escola, todos os atletas tinham que ter aproveitamento, sendo este controlo feito pelos directores que tinham a responsabilidade dessa área.

Foi, entretanto, criado um grupo de teatro que tinha por actores jovens de ambos os sexos. A primeira peça a ser representada foi “As Formiguinhas”. Os ensaios realizaram-se no nosso Teatro-Cinema e eram dirigidos por João Zêzere. A peça foi à cena várias vezes em Ponte de Sor e nos arredores, como por exemplo, em S. Facundo (Abrantes). Nestas saídas, contámos sempre com o apoio e a dedicação de Normando Gandum, presidente da Assembleia Geral e a quem nós carinhosamente chamávamos “O Capitão”, que nos transportava nas carrinhas do clube. Realizámos periodicamente exposições de trabalhos feitos pelos atletas do Mini-Eléctrico (em cera, desenho, pintura e artesanato), cujas receitas serviam para pagamento das nossas despesas.

No âmbito social, o Mini-Eléctrico lutou sempre contra todas as formas de discriminação, aceitando e integrando todas as crianças de ambos os sexos e de todas as classes sociais.

Todo este trabalho teve o apoio dos pais, das instituições locais, de algumas casas comerciais e indústrias. Mas, nunca será demais realçar, todas estas actividades só tiveram êxito graças à dedicação, esforço e amor pela juventude da nossa terra de um homem chamado Manuel Henrique Cardoso que, tendo vindo para Ponte de Sor para levar o Eléctrico à terceira divisão, acabou por fazer muito mais do que isso: ajudou toda uma geração de jovens pontessorenses a ser HOMENS.»

Muito obrigado, Manuel Henrique Cardoso! Muito do que sou a si o devo!