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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

Manuel António (*)

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Algumas ideias e abordagens ligeiras escritas com o único intuito de promover o debate.

I

SOBRE A ÁGUA

A água é um elemento natural e fundamental à vida. No entanto a forma como a usamos actualmente nada tem de natural: na indústria, agricultura e consumo humano. Sabemos que ter água em casa não é uma coisa natural – o natural seria ir buscá-la à fonte e, assim, os consumos seriam incomensuravelmente inferiores, e não gastaríamos 160 litros de água por dia..
Assim, quando incorporamos elementos não naturais no processo, quase sempre também temos que arranjar soluções artificiais para os resolver.
Para além disso sabemos das alterações climatéricas, das pluviosidades reduzidas e dum tipo de floresta que não é geradora de solo – antes pelo contrário. Como sabemos, um solo rico guarda sete vezes mais água, que uma terra pobre. Assim, além de chover menos, a água não fica onde chove e vai-se para longe, quase sempre agravando os problemas erosivos.
Torna-se assim imperioso – porque as pessoas não estão receptivas à ideia de lhes faltar água em casa –  ter água disponível, sempre. Até há uns tempos funcionaram os aquedutos, os poços e as fontes, mas esse tempo já lá vai há muito. Depois vieram as barragens e os furos. Os furos – alguns deles a profundidades malucas (estão a captar água que choveu há décadas). Mas é tal a quantidade de água que se retira dos veios freáticos e aquíferos, que esses níveis médios estão a baixar assustadoramente. Assim, muitas árvores morrem devido à baixa humidade presente no solo, a desertificação avança. E este problema vai agravar-se assustadoramente.

Como isso se resolve?                                                   

Redução do consumo; parando as alterações climáticas; fazendo barragens, albufeiras, charcas; fazendo uma radical transformação na floresta?

Presentemente a única forma razoável de o fazer é através da retenção das águas das chuvas; barragens, açudes, charcas, albufeiras, etc. – pois além de reservas diretas, estas estruturas alimentam permanentemente os aquíferos e veios freáticos (para além de serem ajudas importantes no controlo de cheias).

Vamos fazer estruturas dessas em todo o lado? Não!!! Por exemplo há rios livres em Portugal, que deveriam continuar eternamente livres. E assim manter a biodiversidade, assegurar a chegada de areia e alimento ao mar.

Os que já estão “impedidos” dessas funções devem, quanto a mim serem rentabilizados ao máximo nessas vertentes.

Para além disso, essas estruturas de massas de água guardada, têm outras funções como, por exemplo: reduzir a temperatura média do ar, lazer, turismo, desporto e, no caso nas barragens maiores, uma função fundamental aos nossos tempos – a produção de electricidade. 

Como sabemos estamos completamente dependentes na água, mas igualmente da electricidade. Mas enquanto a água se consegue armazenar, a electricidade não – a cada segundo o que se produz tem que ser igual ao que se consome. Só as barragens conseguem armazenar energia, que depois transformamos em electricidade. 

Se não queremos energia nuclear, se queremos reduzir ao máximo possível as termoeléctricas, sobra o sol, o vento e a água.
Como nem sempre há sol, nem sempre há vento, logo, as barragens são imprescindíveis. 

Mais, se prevemos e queremos a mobilidade elétrica – os consumos de electricidade vão aumentar bastante e serão as barragens com tecnologia reversível que serão as reservas energéticas. E, inclusivamente, consumam a energia em excesso que é gerada nas eólicas quando estamos a dormir e quase não gastamos electricidade.

Portanto, o discurso anti barragens é, quanto a mim, inconsequente e perigoso – é, nalguns casos, subsidiado pelos donos da energia nuclear.

Evidentemente que associado às barragens exigimos água de qualidade, sempre (Castelo de Bode é um bom exemplo). Também, quase sempre, estão associadas dinâmicas geradoras de economias locais e, consequentemente, fixadoras de população (O rio Douro é um exemplo, como é Montargil, ou o Alqueva).

II

AÇUDE EM ABRANTES E BARREIRA ARTEFICIAL NA CENTRAL

 

Lembrar que o açude não é uma escolha, o açude foi uma escolha; o açude existe! Se deveria existir ou não é outra conversa. Na altura não nos revíamos naquela “prioridade”.  Mas o Nelson também dizia: mas a EU dás-nos dinheiro para fazer o açude, mas não nos dá dinheiro para fazermos ETAR.

Sabemos que foi um equipamento caro e, supostamente, de manutenção cara. Por isso é preciso saber do que estamos a falar – se é incomportável em termos financeiros, deve assumir-se o problema dessa forma.  Mas ser-se contra o açude atestando-lhe culpas que ele não tem, isso não é admissível: os peixes não morreram nem morrem por causa do açude, as areias e os sedimentos não deixam de ir para o mar devido ao açude.  O açude até tem mais uma função importante de oxigenação da água e assim permitir que vejamos a tal espuma – quase sempre sinónimo de água poluída.
Dizendo que o açude é o responsável pelas desgraças é estar a ilibar a Câmara Municipal pela má manutenção e ainda pior condução da estrutura; ter uma campanha contra o açude é a melhor forma de pôr gente a vandalizar uma estrutura cara, que pertence aos munícipes e que são eles a pagar a conta. Aos políticos exige-se responsabilidade na defesa da coisa pública.

Também pelo anteriormente exposto fica claro que uma reserva de água – mesmo pequena – tem muitas vantagens. No caso de Abrantes, antes da construção do açude tínhamos situações em que durante meses se passava o rio a pé. Com o açude e o respectivo espelho de água a população passou a desfrutar mais o Tejo, dinamizou o desporto (uma atleta olímpica), a economia, o lazer. 

III

SOBRE O TRAVESSÃO DA PEGOP

 

Sempre existiu desde que existe central. Nunca ninguém refilou com o travessão e quase ninguém sabia da sua existência. Os pescadores sabiam e gostavam – pois, por ser uma parte mais funda era onde se apanhavam os peixes grandes.

O travessão deu nas vistas devido à sua recuperação totalmente descabida e abusiva. As autoridades tomaram conta do abuso e a obra far-se-á sem problemas de maior – ou seja, como estava há 25 anos atrás. Como está agora devido ao gingantismo e percolação não serve a ninguém.

Devemos fazer uma campanha contra o travessão? Não!!! 

O açude – desde que cumpra a regras (permita a transposição de peixes e embarcações – não cria problema nenhum, antes pelo contrário. Num rio em que grande parte do tempo vai quase sem água e que sofre atentados incríveis ao nível da irregularidade dos caudais, ter aquela massa de água estável é um benefício a todos os níveis. Ainda por cima sem custos para o erário público.

Lembrar que a Central do Pego rejeita água com mais cinco graus do que a que capta. Se não houver uma massa de água razoável, esse aumento de temperatura na água e nas margens pode provocar alterações na biodiversidade.

Ter uma luta contra o travessão até pode dar uns votos dos desentendidos e más línguas, mas paga-se em credibilidade. De resto deve exigir-se obras que cumpram os pressupostos do licenciamento.

IV

AQUAPOLIS

 

Há duas componentes completamente separadas e que o pessoal mistura: Uma é o objectivo -  de nível político -; a outra é do nível da funcionalidade e arquitectura - mais ou menos técnica.

O Bloco sempre foi a favor e continua a ser – em todo o lado – que os rios sejam devolvidos à comunidade. Porque os rios são fonte de fruição – não consumista – e porque as pessoas, ao estarem próximas do rio, o vigiam e se tornam exigentes na sua defesa.
Nessa perspetiva  só podemos ser a favor do Aquapolis ou outra qualquer designação que lhe queiram atribuir. 

Sobre a arquitectura, funcionalidade e se cumpre os objectivos, é outra discussão. Eu pessoalmente não gosto daquilo por aí além. Vi coisas por esse mundo fora, muito mais bonitas e muito mais funcionais. Agora, sobre o que é bonito ou funcional cada um terá uma opinião diferente (como costuma dizer-se, a arquitectura não se referenda). 

Eu fui de boleia com o Albano, à inauguração daquilo. Ele apontou montes de coisas que não gostava e era do PS. Se viesse outro arquitecto diria outras e cada pessoa apresentará outras.

Evidentemente que há erros crassos: colocar um anfiteatro “debaixo” da ponte rodoviária, não lembra a ninguém - mas o arquitecto fez e o Nelson aceitou -; colocar espécie de árvores que trazem as raízes à superfície – e que destroem as máquinas de cortar relva e levantam o cimento, não lembra a ninguém – mas o arquitecto fez e o Nelson aceitou; não ter árvores a fazer sombra aos pesqueiros e passeios junto à água é uma vergonha; e mais uma carrada de coisas.

Também o objectivo de levar pessoas está a ser cumprido? Vão pessoas, mas será que podem e devem ir mais? Toda a gente vai para lá de carro, será que seria esse o objectivo?

Por isso sempre defendemos e continuo a defender que recuperar a Rua da Barca – que liga o centro da cidade ao Tejo – é algo fundamental e estruturante desse objectivo inicial que é devolver o rio à cidade.

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(*) militante de Abrantes do BE e ex-candidato a presidente da câmara de Abrantes pelo BE

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Na época de 2003/04, era presidente do Eléctrico FC quando Carolina Mendes, alentejana de 16 anos, iniciou a sua brilhante carreira na equipa feminina de futebol sénior do Eléctrico FC.

Saltava aos olhos de quem a via jogar que não só era um dos melhores futebolistas da história do Eléctrico FC, clube de Ponte de Sor e, na altura, o maior clube do Alto Alentejo, como também que se tratava de uma fora de série.

Parabéns, Carolina! Tenho um grande orgulho de ter sido presidente do clube onde iniciaste a tua brilhante carreira de futebolista de elite.

Recordar uma carta escrita em 15 de Janeiro de 2009 ao presidente da câmara de Abrantes da altura para que o leitor possa avaliar da sua actualidade

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Eurico Heitor Consciência

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Acredite ou não, vou parar de fazer crónicas de maldizer. Aproxima-se o tempo de mostrar o cadastro ao S. Pedro e convirá começar a enganá-lo, apagando os meus defeitos e exaltando alguma virtude que não garanto que tenha ou tenha tido mas tentarei descobrir.

Por isso, recomendo-lhe prudência no julgamento que faça do facto de estar a tratá-lo por caro, sabendo-se que caro nasceu do latim carus, querendo dizer estimado ou querido, mas que, com o decorrer dos anos, ganhou o significado de coisa de preço elevado, de coisa que exige grande despesa.

Há-de Você (permita-me a informalidade do Você democrático, tão democrático!), há-de Você, caro Presidente, ponderar se, quando o trato por caro, estou a lembrar-me de que um Presidente da Câmara é coisa realmente cara, “coisa que exige grande despesa” ou se estou a tratá-lo amistosamente. Pondere pois.

A função desta carta já se vai ver que é a de lhe meter a modos que uma cunha, que é coisa de que Você deve ter um treino enorme. Mas como sou contra as cunhas (veja lá Você, sou um dos últimos cidadãos que entendem que os lugares devem ser dos mais competentes e não dos por serem do Partido ou dos que têm melhores cunhas), como sou contra as cunhas, faço questão de tornar públicas as razões que me levaram a quebrar tão severos quão desusados princípios – para, finalmente, lhe meter também uma cunha.

O objectivo já Você (não se zangue com a insistência, mas estou a treinar-me para adoptar as principais regras dos Socialistas: acabe-se com Vossas Excelências, omitam-se Vossas Senhorias, ponham-se de lado os Senhores (e não se desenterre o Vossa Mercê, que, de resto, deu o democrático Você: Vossa Mercê > Vocemecê > Você), bana-se de vez quanto esteve antes do Você e sejamos todos Vocês antes de sermos todos tus); como estava dizendo, o objectivo da minha cunha já Você sabe que só pode ser sobre os buracos das ruas por onde transito.

E faço um parêntese para dizer que Você, caro Presidente, tem tapado muitos buracos e tem pavimentado e repavimentado muitas ruas. Sobretudo nos anos das eleições. Recentemente, quando o Correio da Manhã descreveu a sua casa como se fosse uma daquelas mansões em que vivem estrelas de Hollywood ou grandes gangsters, fui espreitar a sua casa (que, por fora, diga-se, é francamente bonita) e reparei que na sua rua não há buracos.

E não pude deixar de recordar a surpreendente pavimentação daquela rua do Fojo onde mora o que foi seu braço direito nas obras durante longos anos: o simpático Engº Júlio Bento, que, sempre a sorrir, construiu uma reputação, sendo hoje Director d’uma empresa integrada num dos maiores grupos económicos deste País. E digo “surpreendente pavimentação” não porque a rua do Vereador das Obras não precisasse de ser arranjada mas porque foi a única que nesse tempo se pavimentou – coisa que, obviamente, gerou as críticas do costume: são todos iguais, mudam-se as moscas, mas a merda é a mesma, cada um puxa a brasa à sua sardinha, quem está à roda do lume é que se aquece, etc., etc., etc.

Foi preciso coragem. Parabéns aos dois: ao Júlio e a si. Pois, conhecendo as ruas desta cidade, digo-lhe que as piores de todas, as que não são arranjadas há muitos anos, são as ruas por onde tenho que passar todos os dias: a Avenida António A. da Silva Martins, no Rossio, e a Rua do mesmo nome na Arrifana – que são, por sinal, a única entrada de Abrantes do lado Sul, sendo atravessadas por milhares de automóveis por dia. São buracos, tampas de esgoto desalinhadas e desniveladas, covas, lombas, remendos, etc., etc., etc. E dão cabo dos carros que lá passam.

Você, caro Presidente, navegando há tantos anos em carros da Câmara, pagos pelos seus contribuintes, já se esqueceu de quanto custa pagar um carrinho à maior parte das pessoas. E há muitos, muitos anos, que não paga a manutenção dos BMW da Câmara com que se compraz. Digo-lhe eu que dói: os carros são caros e os juros usurários, os pneus são caros e as suspensões também. Tudo caro, muito caro, caro Presidente.

Começo a ficar desesperado. Tão desesperado que, só para se repavimentarem os caminhos por onde tenho que passar, estou disposto a sacrificar-me, a imolar-me até: disponibilizo-me para ser seu Vereador das Obras, prontificando-me a livrar o VPC desses trabalhos, com uma benesse evidente para todos os abrantinos: ficamos livres desse inenarrável VPC. A comunidade, caro Presidente, ficará agradecida e há-de louvá-lo pela sua “abertura ao exterior do PS”. E eu ganharei ruas decentes. Você vai ver, caro Presidente.

Edmund Burke - 1780

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A glória e a felicidade de um representante devem consistir em viver em estreita união, na mais estreita correspondência e na mais franca comunicação com os seus eleitores.

É seu dever sacrificar o seu repouso, o seu prazer, as suas satisfações às deles e, acima de tudo, sempre e em qualquer caso, preferir o interesse deles ao seu.

Mas não deve sacrificar-vos a sua opinião isenta, o seu juízo maduro, a sua consciência esclarecida; nem a vós, nem a homem nenhum, nem a nenhum grupo de homens existente.

O vosso representante deve-vos, não apenas a sua diligência, mas o seu discernimento, e trai-vos, em vez de vos servir, se o sacrificar à vossa opinião.

A dois meses das eleições autárquicas é altura de recordar um texto que escrevi há 4 anos sobre a composição das Comissões de "Honra" ("Honra", neste caso, é uma força de expressão) de apoio aos senhores presidentes da câmara.

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Quando olho para as comissões de honra dos nossos presidentes de câmara, a que o Laboratório de Ideias do PS agora rebaptizou por comissões autárquicas para a cidadana (não há como o Laboratório de Ideias do PS para inventar novos nomes para as mesmas coisas), vem-me sempre à memória aquela parte do Sermão de Santo António aos Peixes em que Padre António Vieira critica os “pegadores”.

Vale a pena reler, mais que não seja para constatar a actualidade do Sermão e a verticalidade do Padre António Vieira que, ao contrário dos socialistas, gostou sempre de chamar os bois pelo nome.

A sua leitura não deixa, no entanto, de ser deprimente por se constatar que, quatro séculos depois, o número de pegadores não só não diminuiu como se reproduz como lombrigas, o que explica bem o colapso actual de Portugal, a todos os níveis.

Será que os portugueses não sabem ler ou está-lhes mesmo na massa do sangue? Ou seja, será defeito ou feitio?
 

«(…) Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados. que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.

Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador para as Conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.

Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.

Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o Anjo a José no Egipto, e disse-lhe que já se podia tornar para a pátria, porque «eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino»: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri. Os que queriam tirar a vida a Cristo menino, eram Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem juntamente com Herodes?! Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam Pueri.

Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António.

Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est. Peguem-se outros aos grandes da terra, que «eu só me quero pegar a Deus». Assim o fez também Santo António; e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois é ali o pegador: e parece que é Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão pequenino, para se pegar a António. Mas António também se fez menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue, que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão de morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a ele: Si ego me quaeritis, sinite hos abire. «Se me buscais a mim, deixai ir a estes.» E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor, que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos: mas também diz que, tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.

Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram àquele peixe grande, e porquê. O tubarão morreu porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância que morrer pela fome e boca alheia? Que morra o tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o pegador pelo que não comeu, é a maior desgraça que se pode imaginar! Não cuidei que também nos peixes havia pecado original. Nós os homens, fomos tão desgraçados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem o mar. (…)»

Padre António Vieira, in “Sermão de Santo António aos Peixes”

MOVIMENTO INDEPENDENTE DA FREGUESIA DE RIO DE MOINHOS

Uma lista sem cores partidárias mas que vê o mundo a cores.

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Não podem contar com o meu voto porque eu não voto. Já que deixei de ser cidadão de facto, deixei de ser cidadão de direito. Mas contam sempre com o meu apoio porque são gente boa. 

21 Jul, 2017

As lombrigas

Santana-Maia Leonardo - A Barca 28-7-2013

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Quanto mais porca for a política, mais atraente se torna para as lombrigas. É precisamente essa a razão por que os partidos do sistema estão hoje infestados de lombrigas. Ou seja, desses parasitas de marca branca, pequeninos, moles, viscosos e escorregadios, que necessitam de um hospedeiro para viver e que mudam de hospedeiro com muita facilidade.

Já repararam que, quanto mais suspeitas de corrupção incidem sobre um autarca ou um governante, mais votos o seu partido tem?  E sabem porquê?  Porque as lombrigas têm direito a voto, reproduzem-se com extrema facilidade no meio da porcaria e ainda têm o condão de afastar das mesas de voto e dos partidos políticos aquelas pessoas que Sá de Miranda tão bem definiu: “Homem de um só parecer, d'um só rosto, uma só fé, d'antes quebrar, que torcer”. 

Mas os partidos do sistema que não pensem que podem sobreviver muito tempo infestados de lombrigas… Não façam a desparasitação rapidamente e vão ver o que lhes sucede. 

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