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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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Recordar uma das Crónicas de Maldizer do maior cronista do Ribatejo 

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Eurico Consciência - Ribatejo de 12-1-2013 

Eurico-Consciencia 1.jpg

Pois foi: como previram, a Câmara socialista de Abrantes vai pagar aos seus camaradas Pina da Costa e Isilda Jana subsídios de “reintegração” de dezenas de milhares – para cada um.

A primeira coisa que deve dizer-se é que os ditos Pina da Costa e Isilda Jana não cometeram nenhum crime, nem praticaram actos ilegais: Pina da Costa e Isilda Jana exerceram um direito. A grande censura a fazer é aos políticos que fizeram a lei – sem que se possam louvar os que dela se aproveitam indecorosamente. A lei das remunerações dos políticos foi elaborada no tempo em que nos des/governava o bloco central: PS/PSD – Mário Soares/Rui Machete. A lei foi parida em Abril de 1985 – estava o bloco central no estertor.

Neste país, nas últimas dezenas de anos, têm-se feito centenas de leis muito más. Quero crer que muitas são más por falta de preparação e por ignorância das realidades de quem as faz. São más, assim, por incompetência. Mas outras não são más por incompetência. São más de propósito: Quem as faz sabe o que está a fazer, e os buracos e os alçapões que as leis depois revelam foram previstos e desejados por quem as fez. Foi o que aconteceu com a lei das remunerações dos políticos aprovada pelos nossos caros deputados – beneficiários dessa lei.

O caso Pina da Costa/Isilda Jana só merece tratamento particular pelas suas circunstâncias pessoais, que geraram o título desta crónica. Foram ambos Vereadores durante muitos anos. Antes disso eram normalíssimos professores do ensino secundário. Quando deixaram de ser vereadores tinham à sua disposição os seus lugares na escola donde tinham saído. Assim se dava a sua reintegração – que não justificaria o respectivo subsídio, dado que a passagem deles pela Câmara não lhes causara o menor prejuízo na sua actividade profissional.

Mas eles não regressaram à escola. Entenderam-se com os seus camaradas e empregaram-se na Câmara: Pina da Costa passou a Presidente das Águas e Esgotos, com remuneração não menos interessante do que a de professor (sendo certo que, até à sua nomeação p’rós Esgotos, o cargo nunca fora remunerado; era inerência dum vereador). E Isilda Jana foi nomeada coordenadora dos trabalhos preparatórios dum projectado Museu Ibérico que, se se fizer, não será nos próximos dez anos. E pagar um ordenado interessante durante dez ou vinte anos (se a beneficiária do ordenado não se reformar antes) para trabalhos preparatórios dum museu que provavelmente nunca existirá (oxalá que eu me engane) é obra!…

Não tenho a menor dúvida de que Isilda Jana e P. da Costa não ponderaram que a maior parte dos abrantinos que irão pagar-lhes os subsídios não ganham em 10 anos o que eles receberam (ou vão receber) para se reintegrarem!. Depois de terem recebido dos cofres camarários centenas de milhares – pagos pelos mesmos de sempre: os que trabalham.

A coisa, em tempos de crise, é tão obscena que proponho que os ditos subsídios de reintegração passem a chamar-se subsídios à desintegração moral e cívica dos políticos.

E os trabalhadores lá vão pagando tudo. Quousque tandem?