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COLUNA VERTICAL



Sábado, 30.11.19

120 anos

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Sábado, 30.11.19

Os valores do Barça

Santana-Maia Leonardo 

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Junto à Basílica de Santa Maria del Mar que tem o escudo do Barça num dos seus vitrais em reconhecimento à ajuda na sua construção após o incêndio que a devastou, é altura de falar dos dois valores que faltam.

Já vimos dois: RESPEITO E AMBIÇÃO, o segundo e o terceiro, respectivamente. Falta ver o primeiro e o quarto: HUMILDADE e TRABALHO EM EQUIPA.

Estes quatro valores são a trave mestra do clube e são ensinados, praticados e cultivados em todos os escalões de formação.

Vou dar alguns exemplos para perceberem a diferença.

Não é permitido a qualquer jogador do Barça das camadas jovens receber troféus individuais em qualquer competição, seja melhor jogador, melhor guarda-redes, etc.

Todos os jogadores, independentemente da sua valia, devem intuir que o futebol é um jogo de equipa e que o sucesso ou insucesso é sempre o resultado do trabalho em equipa e é responsabilidade de todos. Por isso, não é possivel encontrar no Barça, em qualquer escalão, o discurso centrado no "eu".

E reparem na forma como os jogadores do Barça festejam os golos. Todos os golos são festejados colectivamente e com a mesma felicidade, independentemente de quem o marque. A cara dos jogadores não muda se o golo for marcado por ele ou por outro colega.

Mesmo Messi nunca fala na primeira pessoa, colocando sempre a tónica no colectivo. E a melhor prova disso é que todos os prémios individuais ganhos por Messi (5 Bolas de Ouro e 6 Botas de Ouro) fazem parte do espólio do Museu do Barça.

Iniesta é o símbolo da Masia. Tem as suas opiniões mas nunca se põe em bicos dos pés, reclama protoganismo ou critica os adversários. É o exemplo a seguir.

Também nunca ninguém ouviu Puyol, Xavi, Messi ou Busquets auto-elogiarem-se, pôrem-se em bicos dos pés, dizerem que são os melhores do mundo ou declararem que querem ganhar prémios individuais.

Piqué só este ano entrou na lista dos capitães precisamente por ter um perfil de excesso de protoganismo com declarações bombásticas que não agrada a um plantel onde a discrição e a humildade são valores a praticar.

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Terça-feira, 26.11.19

Barça: a poesia no futebol

Santana-Maia Leonardo 

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Na vida há os poetas e os outros. E para se ser do Barça tem de se gostar de poesia e ter alma de poeta.

Ontem vimos a diferença ideológica entre ser do Barça e ser madridista, onde pudemos constatar que a estrutura organizativa dos nossos clubes e a ideologia do adepto português se identifica com Madrid e não tem nada a ver com o Barça.

Hoje vamos ver a diferença estética entre o Barça e os outros. E para isso temos de falar de Criujjf, o poeta do futebol que revolucionou o futebol do Barça e lhe impôs a dimensão estética da poesia que é hoje a sua imagem de marca.

E basta recordar três frases históricas de Criujjf, para perceberem a que me refiro: 1. "O futebol é um jogo que se joga com a mente. 2. Prefiro ganhar por 5-4 do que ganhar por 1-0. 3. O futebol é um espectáculo em que não basta ganhar, é necessário jogar bem.

Enquanto, para um adepto do Madrid, o importante é ganhar e, para os resultadistas italianos, o importante é não sofrer golos, para um adepto do Barça não basta ganhar é necessário jogar bem e dar espectáculo, correndo todos os riscos que isso comporta. Ser do Barça é assumir a dimensão estética da Poesia.

Ganhar por 1-0 e jogar mal não satisfaz um adepto do Barça que aceita melhor perder se a equipa jogou bem e fez tudo para merecer a vitória.
E aqui chegados temos outro dos valores do Barça que é ensinado e cultivado em La Masia.

Ontem vimos o RESPEITO, um dos valores fundacionais e uma das imagens de marca do clube e que é praticado e cultivado por todos os jogadores, dirigentes e sócios do clube, constando expressamente dos estatutos para admissão de sócio.

Hoje vimos outro dos quatro valores do clube: A AMBIÇÃO. Porque é necessário ter a ambição desmedida dos poetas para apenas ficar satisfeito com a vitória, assumindo o risco de jogar de peito aberto, dando espectáculo e jogando bem.

Como vêem, basta ouvir falar os treinadores e os adeptos portugueses em que o importante é ganhar seja lá como for, para se constar que não têm nada a ver com o Barça e têm tudo a ver com a escola resultadista italiana.

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Domingo, 24.11.19

Barça e Madrid: a ideologia e os valores

Santana-Maia Leonardo

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Joan Gamper foi o sócio fundador do Barça. Era suíço, sendo os fundadores do Barça de diferentes nacionalidades, o que faz com que um dos valores fundacionais do Barça seja precisamente o RESPEITO pela outro, pela diversidade e pela diferença.

A guerra civil espanhola também traçou uma linha de fronteira que diferencia o Barça do Madrid. O presidente Suñol, o presidente mártir do Barça, foi a primeira vítima do franquismo, tendo sido fuzilado perto de Madrid. Por sua vez, o presidente mítico do Real Madrid, Santiago Bernabéu foi um dos oficiais mais conservadores de Franco que esteve no cerco a Barcelona.

Ser do Madrid ou do Barça diz muito daquilo somos ideologicamente e dos valores que defendemos.

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Domingo, 17.11.19

Carta aberta a Rui Rio

Santana-Maia Leonardo - Observador de 23/11/2019 e Diário As Beiras de 25-11-2019

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Uma vez que o senhor primeiro-ministro não lhe soube responder se um aluno devia passar de ano mesmo sem saber, eu vou ajudá-lo a perceber por que razão a resposta só pode ser SIM. Mas tem de fazer um esforço de compreensão porque o grande problema da actual geração de governantes, políticos, jornalistas e comentadores é serem liderados pela nossa geração, a geração das passagens administrativas do pós-25 de Abril em que os alunos passavam sem sequer pôr os pés nas aulas.

Ora, o fim das reprovações na escolaridade obrigatória não tem nada a ver com as passagens administrativas dos seus tempos de universidade. Pelo contrário, o fim das reprovações é a condição primeira para um ensino de excelência na escolaridade obrigatória, porque é a única que permite que se aumentem os graus de exigência e se desenvolvam e rentabilizem ao máximo as capacidades de cada aluno. É óbvio que, só por si, não resolve o problema sem vir acompanhada de outras medidas, designadamente: exames nacionais nos 4.º, 6.º, 9.º e 12.º ano de escolaridade e um novo conceito de turma (cada ano deve corresponder a uma única turma, por forma a poder haver, por disciplina, sub-turmas de recuperação e de excelência e, simultaneamente, permitir a mobilidade entre elas).

A escola selectiva de Salazar, que ainda hoje continua a ser o modelo dos melhores colégios privados, é, sem dúvida, uma escola de sucesso, mas assenta no mesmo modelo das escolas de futebol do Ajax, Barça e Benfica. Ou seja, na selecção dos melhores e eliminação daqueles que não têm aptidões. Se as escolas de futebol fossem obrigadas a manter até aos 16 anos todos os alunos das respectivas cidades, só se fossem loucos é que não passariam de ano todos os alunos, inclusive aqueles que não demonstrassem qualquer aptidão para a prática da modalidade. Ou acha que estes alunos aprenderiam mais se continuassem a jogar nos infantis até aos 16 anos? E os infantis com talento, acha que sairiam beneficiados caso as equipas de infantis estivessem infestadas de pernas-de-pau com 16 anos?

É evidente que todos os jogadores têm de passar de ano/escalão, independentemente das suas capacidades, para bem de todos. Sendo certo que, ao contrário das passagens administrativas do nosso tempo, neste caso, não passam todos em igualdade de circunstâncias porque passam com uma clara diferenciação entre os melhores e os piores e com uma vantagem: a qualquer momento o pior pode dar um salto de qualidade e ser chamado para a primeira equipa (sub-turma de excelência) e o melhor pode passar para a terceira equipa (sub-turma de recuperação). Ou seja, a competitividade e a diferenciação entre os alunos faz-se dentro do seu escalão de idade e não por anos de escolaridade.

Além disso, o simples facto de todos os alunos chegarem obrigatoriamente aos juniores não significa obviamente que fiquem todos habilitados para triunfar nas melhores equipas ou sequer para jogar nalguma equipa.

Para finalizar, apenas dois apontamentos. Sempre que se argumenta com o sucesso que alguns dos alunos retidos tiveram, no ano seguinte, nas disciplinas com menos aproveitamento, era importante saber se o professor tinha sido o mesmo e se o grau de exigência foi o mesmo, caso contrário os dados não querem dizer rigorosamente nada.

Por outro lado, mesmo no actual sistema (irracional e absurdo), é preferível passar, por exemplo, um aluno excelente a línguas e sem aptidões nas demais disciplinas, do que reprová-lo. E porquê? Porque, se passar, consegue manter o nível excelente a línguas e, se reprovar, até nas línguas regride.

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Terça-feira, 12.11.19

Os negócios do futebol: em Portugal e na Europa

Santana-Maia Leonardo - in Diário As Beiras de 13-11-2019

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Hoje, quando se fala de futebol na Europa, fala-se necessariamente de negócio. No entanto, o negócio de que falam os presidentes dos clubes das grandes ligas europeias, não é o mesmo negócio de que falam os presidentes dos clubes portugueses. E isso faz toda a diferença.  

Enquanto, na Europa, o negócio dos clubes é a venda do espectáculo e, por isso, investem na competitividade e qualidade do mesmo, em Portugal o negócio dos clubes é a venda de jogadores, por isso, lutam entre si pela conquista de território e a eliminação dos concorrentes.

Em Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, França, Holanda e Bélgica, designadamente, os presidentes dos grandes clubes sabem que, quanto maior for a competitividade das suas ligas, maiores são as receitas que os seus clubes conseguem obter porque estão directamente relacionadas com a atractividade global das competições em que participam.

Pelo contrário, em Portugal, os presidentes dos grandes clubes sabem que o grosso das suas receitas depende da venda de jogadores, o que significa que, para sobreviverem, têm de garantir o acesso à montra europeia, o que implica recorrer a todos os meios para salvaguardar a sua posição dominante e vedar o acesso à montra dos outros clubes.

Daí que o futebol português seja dominado por organizações verdadeiramente mafiosas que lutam pelo controlo do negócio da venda de jogadores, não tendo qualquer interesse em investir na competitividade do campeonato que colocaria necessariamente em risco a sua posição dominante no mercado da compra e venda de jogadores. E, como todas as organizações mafiosas, os grandes clubes portugueses também têm os seus tentáculos no mundo da política, no mundo do banca, no mundo dos fundos e dos empresários do futebol e no sub-mundo do crime, ligado às máfias da noite e ao tráfico de droga.

Bruno de Carvalho foi o único dirigente do Sporting que percebeu como isto funcionava e quis entrar no jogo recorrendo aos mesmos métodos e disputando o território à lei da bala, sem olhar a meios. Bruno de Carvalho não foi derrotado nem pelos sportinguistas, nem pelos actos de demência que levou a cabo, mas por um erro de casting, o ataque a Alcochete, a que o Benfica, que, na altura, se encontrava nas cordas, se agarrou desesperadamente, supervalorizando a gravidade do ataque, através dos meios políticos e da comunicação social que controla, ao ponto de transformá-lo num ataque terrorista e, desta forma, assinar a sentença de morte de Bruno de Carvalho.

É precisamente por esta razão que Benfica e Porto não querem ouvir sequer falar em centralização dos direitos televisivos: os grandes clubes portugueses vivem da venda de jogadores, não vivem da venda do espectáculo, como acontece com todos os grandes clubes europeus. E quando ouvimos falar em 2028 para a implementação da centralização dos direitos televisivos em Portugal, só podemos desatar a rir às gargalhadas. Vivemos no século XXI. Daqui a dez anos já não haverá sequer televisões e, provavelmente, nem  liga portuguesa, quanto mais direitos televisivos.

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Sexta-feira, 01.11.19

Mas afinal o que é um alentejano?

Santana-Maia Leonardo

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Se não sabe o que é um alentejano, já vai sendo tempo de saber para não fazer figuras tristes. Eu sei que não há muitos por aí… A qualidade sempre foi um bem escasso. E, neste país, uma pessoa tem de explicar tudo tim-por-tim e, mesmo assim, têm dificuldade em perceber.

Em todo o caso, desta vez e à boa maneira alentejana, eu vou explicar bem devagar como se quem não soubesse o que é um alentejano fosse muito burro como efectivamente não pode deixar de ser.

A maioria das pessoas que não são alentejanas acham que um alentejano é um indivíduo que nasceu no Alentejo. Ora, é preciso não ter dois dedos de testa para não conseguir distinguir um alentejano de um indivíduo que nasceu no Alentejo mas que não é alentejano.

Qual é que é a diferença? Ora essa!... Então está-se mesmo a ver: o indivíduo que não é alentejano acha que é alentejano por ter nascido no Alentejo. Esta é que é a grande diferença. Qual é que é o alentejano que acha que é alentejano por ter nascido no Alentejo? Só se fosse estúpido é que pensava isso que é precisamente aquilo que um alentejano não é.

Eu sei que isto é um bocadinho difícil de perceber para quem não é alentejano, até porque é preciso ter um bocadinho de inteligência que é precisamente aquele bocadinho que mais falta por aqui. Mas eu vou tentar explicar. Ao contrário dos transmontanos, alfacinhas, beirões, minhotos e algarvios, um alentejano não se define pelo local do nascimento, até porque um alentejano não é esquisito: um alentejano nasce num sítio qualquer. Desde que não falte o pão, bem entendido...

Como já aqui expliquei um dia, ninguém nasce alentejano, é-se alentejano. O alentejano tem a ver com o SER e não com o NASCER.

Em todo o caso, não sei para que estou aqui com tantas explicações quando Sá de Miranda, no poema “A El-Rei D. João”, há mais de 400 anos, fez o retrato do alentejano com tanto rigor e pormenor que é preciso mesmo ser muito ignorante para não saber o que é um alentejano.

Como escreveu Sá de Miranda, um alentejano é precisamente isto sem tirar nem pôr:  “Homem de um só parecer,/ D'um só rosto, uma só fé,/ D'antes quebrar, que torcer, / Ele tudo pode ser/ Mas de corte homem não é.

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