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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

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"Vender a SAD do Sporting a um investidor seria uma boa solução", disse Roquete. Foi o que bastou para se levantar um clamor de indignação entre os sportinguistas. Roquete, no entanto, limitou-se a dizer o óbvio. Mas, com disse Clarice Lispector, "o óbvio é a verdade mais difícil de enxergar". E, então em Portugal, o povo cega tanto com as mentiras que todos os dias lhe impingem que é totalmente incapaz de ver um palmo à frente do nariz, quanto mais o óbvio. 

Quando Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira defendem que a maioria do capital da SAD deve estar nas mãos do clube, é importante perceber qual o significado de clube para Bruno de Carvalho e Filipe Vieira. Ora, como qualquer pessoa que os ouvia e ouve falar já percebeu, o clube, para qualquer deles, confunde-se com eles próprios. Ou seja, eles não querem que o clube mande na SAD, porque os sócios efectivamente não mandam nada, quanto muito são manipulados. Eles querem é mandar na SAD para poderem enriquecer como enriqueceram os administradores dos bancos portugueses. E o esquema é semelhante.

Aliás, os sócios dos clubes nem direito têm a participar nas Assembleias da SAD e a ser informados sobre o que lá se passa. As SAD, em Portugal, visam precisamente excluir os sócios de toda a informação revelante, tornando opaco o processo de decisão, para permitir que gente muito pouco recomendável e vendedores de banha da cobra possam fazer os negócios que lhes apetecer e como muito bem lhes apetecer. Sempre no superior interesse do clube, bem entendido. Aliás, em Portugal, todos os grandes assaltos a bancos e as maiores aberrações sempre foram feitos em nome em nome do superior interesse público, das crianças ou de Portugal. 

Ora, das duas uma: se querem que sejam os sócios a mandar nos clubes, acabem com as SAD (o Barça e o Real Madrid não têm SAD); se querem que seja a SAD a mandar, deve mandar quem tiver dinheiro para a comprar, como sucede em Inglaterra.

Agora, este modelo de SAD portuguesa, à semelhança de todas as organizações construídas com base na nossa legislação, só serve para atrair e enriquecer gente sem escrúpulos. É uma vergonha!

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 28-01-2020

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A apresentação de Setién teve alguma coisa de bucólico e de romântico. Setién, um técnico de 61 anos sem currículo, estava a pastorear as suas vacas quando é chamado para cumprir o sonho da sua vida: treinar as vacas sagradas do Barça.

As vacas de Setién fizeram-me lembrar o meu tio Armando. Ambos gostavam do campo e das vacas, mas, enquanto Setién sonhava treinar as vacas sagradas do Barça, o meu tio preferia os toiros e as touradas espanholas. E nunca me esqueço daquilo que o meu tio me dizia sobre a grande diferença entre as touradas espanholas e portuguesas. Segundo o meu tio, a grande diferença residia no conhecimento que o espectador espanhol tinha dos toiros e da lide, ao contrário do português que era absolutamente ignorante, manifestando contentamento por palhaçadas e por brincadeiras que demonstravam o absoluto desconhecimento da lide e dos toiros.

Gosto tanto de futebol como o meu tio gostava de touradas e também eu vou praticamente tantas vezes a Espanha ver jogos de futebol do Barça como o meu tio ia ver touradas. E relativamente ao futebol, também pude constatar que a opinião do meu tio sobre o espectador espanhol se aplica.

Com efeito, enquanto o espectador português revela uma boçalidade e um entusiasmo pelo futebol absolutamente anedótico, o adepto espanhol é um profundo conhecedor e apreciador do jogo, não se deixando iludir por faenas que não revelam qualquer coeficiente de dificuldade e que apenas são possíveis com toiros sem trapio.

Basta, aliás, ir assistir a um jogo na Luz ou em Alvalade e a um jogo a Camp Nou, Sevilha ou Madrid, para constatar isso mesmo. Os adeptos do Benfica e do Sporting exultam com a lide sem perceberem sequer que o toiro é manso. Os espanhóis detestam touradas com toiros mansos.

Santana-Maia Leonardo

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Escrevo esta crónica de Manchester, onde venho todos os anos por esta época para assistir ao vivo à festa do futebol inglês. E, como facilmente se constata, os adeptos ingleses são declaradamente contra o VAR e os cânticos, quando o VAR é chamado a intervir, não enganam: "It's not football anymore!"

Mas a abissal diferença entre a liga portuguesa e a inglesa é a forma como os clubes são tratados. Em Inglaterra, um lance polémico no jogo entre o Burnley-Aston Villa tem o mesmo destaque e o mesmo tratamento dum lance num jogo entre o City-Liverpool e é analisado da mesma forma em todas as televisões e por comentadores especialistas (ex-árbitros, ex-treinadores e ex-jogadores) imparciais e que colocam o futebol acima de qualquer interesse clubista.

Em Inglaterra, todos os clubes são iguais, independentemente da sua classificação, história, palmarés ou poderio económico, sendo extremamente fácil um clube histórico e com palmarés descer de divisão e um clube da II Liga transformar-se num grande clube inglês. Qualquer clube inglês é atractivo para um investidor porque a igualdade de tratamento está garantida.

Em Portugal, tal como no livro "O Triunfo dos Porcos", não existe qualquer possibilidade de isto suceder porque o elevador social, pura e simplesmente, não funciona. E não funciona por imposição legal dos animais que são mais iguais do que os outros. E quais são esses animais? Os Porcos, como não podia deixar de ser.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 8-1-2020

04 Jan, 2020

A Pocilga

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Portugal já ultrapassou, há alguns anos, a fase do triunfo dos porcos com que termina a "Quinta dos Animais" de George Orwell.

Portugal é, aliás, a continuação da história.

Com efeito, já há alguns anos que os Porcos transformaram esta Quinta dos Animais numa enorme Pocilga onde só os porcos, os leitões e os leitõezinhos conseguem sobreviver e suportar o cheiro.

Santana-Maia Leonardo 

 

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Futebol inglês, americano e português são três modalidades desportivas totalmente diferentes, apesar de usarem o mesmo nome. Em todo o caso, ainda existe algumas semelhanças entre o futebol inglês e americano, apesar de o futebol americano se assemelhar mais ao rugby, designadamente na competitividade das ligas e na forma como os adeptos entendem e sentem o jogo.

O futebol português, pelo contrário, é uma modalidade de cariz religioso que não tem nada a ver com as outras duas. O futebol português é um resquício dos tempos em que os santinhos da devoção dos portugueses iam em peregrinação pelas igrejas e capelinhas desse país fora para que os devotos os pudessem adorar de perto e onde as criancinhas desde o berço eram educadas na devoção do santinho da moda. E sempre que a igreja da terrinha se tornava pequena para tanto devoto, o palco era mudado para um recinto maior.

O futebol português não é nada mais nada menos do que isto. A Senhora da Luz, o Senhor de Alvalade e Santinha das Antas, para além das missas quinzenais nas suas catedrais, vão, durante a época, em peregrinação pelos estádios desse país fora para que os devotos os possam aplaudir e lhes tocar, à espera de uma relíquia. Só Nossa Senhora de Fátima se lhes compara em devoção e na comercialização das relíquias. Não é, aliás, por acaso que os portugueses relacionam sempre o futebol português com padres, Papas, igrejas e catedrais.

O futebol inglês não tem nada a ver com isto. Desde logo porque cada jogo é jogado como uma verdadeira final disputada entre clubes que representam cidades ou regiões, sendo absolutamente indiferente a classificação de cada clube, e onde o fair-play é a pedra de toque. O anti-jogo causa repulsa aos adeptos de qualquer equipa. O futebol inglês é jogado por guerreiros destemidos que representam uma cidade ou uma região e não por cobardes, batoteiros ou palhaços. E todos clubes são tratados com a mesma dignidade, seja pela televisão, seja pela imprensa. Em Inglaterra, não há jornais desportivos, nem programas de comentário desportivo com comentadores-adeptos.

Em segundo lugar, porque os adeptos ingleses, como os americanos, detestam provas sem emoção e de baixo nível competitivo. Como dizem os ingleses, só se vê se um cavalo é bom nos obstáculos altos. Por isso, os direitos televisivos são partilhados quase irmamente para que todas as equipas se possam tornar em obstáculos altos para qualquer equipa.

Em terceiro lugar, porque o factor casa aumenta em muito o grau de dificuldade dos jogos para qualquer equipa, uma vez que a massa esmagadora e ensurdecedora dos adeptos da casa empurra a equipa para a vitória. Ao contrário do futebol de sacristia que se disputa em Portugal, os estádios ingleses são feitos à medida da equipa da casa e não para vender bilhetes aos visitantes. Aqueles clubes que dão mais importância às receitas de bilheteira do que ao resultado do jogo deviam ser proibidos competir e ser convidados a montar uma banca na feira ou a dedicar-se ao circo.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 03-02-2020