Ao ponto a que chegámos...

Como é possível assistir em Portugal ao assassinato e esquartejamento público de um pessoa, através da comunicação social e perante o delírio alarve da multidão irracional que se manifesta nas redes sociais, com base exclusivamente numa declaração de uma pessoa que se dedica à nobre arte da prostituição, mas que, pelos vistos, decidiu violar o segredo profissional para convencer os deputados a legalizar a profissão?
Hoje vivemos num tempo absolutamente aterrador que recorda os anos negros da Inquisição em que bastava alguém apontar o dedo a uma pessoa de que não gostasse e chamar-lhe "herege" para a turba o linchar imediatamente e arrastar o corpo pelas ruas da cidade.
Desconheço, como é óbvio, se a gravidade da acusação imputada ao juiz (não o conheço) pela sindicalista das prostitutas tem algum fundo de verdade, resulta de puro despeito ou vingança pessoal de quem lhe contou a história ou é apenas fantasiosa.
Sei, no entanto, duas coisas: que existem cada vez mais pessoas a dar crédito a gente sem credibilidade nenhuma e que é capaz de dizer o que for preciso para ter tempo de antena; que uma acusação deste teor tem efeitos muito mais graves e causam muito mais sofrimento, quer a nível pessoal, profissional ou social, do que levar um tiro.
Sendo certo que o simples o facto de a comunicação social se prestar a destruir a vida de uma pessoa com base apenas numa declaração desta gravidade e que, no mínimo, devia suscitar alguma reserva, com o único objectivo de satisfazer o prazer sexual mórbido daqueles que se gostam de masturbar nas redes sociais com este tipo de notícias, diz muito sobre o estado de corrupção e depravação moral e ética em que vivemos.
Santana-Maia Leonardo