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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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Como é possível assistir em Portugal ao assassinato e esquartejamento público de um pessoa, através da comunicação social e perante o delírio alarve da multidão irracional que se manifesta nas redes sociais, com base exclusivamente numa declaração de uma pessoa que se dedica à nobre arte da prostituição, mas que, pelos vistos, decidiu violar o segredo profissional para convencer os deputados a legalizar a profissão?

Hoje vivemos num tempo absolutamente aterrador que recorda os anos negros da Inquisição em que bastava alguém apontar o dedo a uma pessoa de que não gostasse e chamar-lhe "herege" para a turba o linchar imediatamente e arrastar o corpo pelas ruas da cidade.

Desconheço, como é óbvio, se a gravidade da acusação imputada ao juiz (não o conheço) pela sindicalista das prostitutas tem algum fundo de verdade, resulta de puro despeito ou vingança pessoal de quem lhe contou a história ou é apenas fantasiosa.

Sei, no entanto, duas coisas: que existem cada vez mais pessoas a dar crédito a gente sem credibilidade nenhuma e que é capaz de dizer o que for preciso para ter tempo de antena; que uma acusação deste teor tem efeitos muito mais graves e causam muito mais sofrimento, quer a nível pessoal, profissional ou social, do que levar um tiro.

Sendo certo que o simples o facto de a comunicação social se prestar a destruir a vida de uma pessoa com base apenas numa declaração desta gravidade e que, no mínimo, devia suscitar alguma reserva, com o único objectivo de satisfazer o prazer sexual mórbido daqueles que se gostam de masturbar nas redes sociais com este tipo de notícias, diz muito sobre o estado de corrupção e depravação moral e ética em que vivemos.

Santana-Maia Leonardo

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Este cartoon brasileiro resume na perfeição quer o debate político entre a esquerda e a direita, quer o debate futebolístico entre o Benfica e o Porto, no nosso país, seja na comunicação social, seja nas redes sociais, seja na mesa do café.

Com efeito, a argumentação ideológica e futebolística dos adeptos de ambas as partes esgota-se na troca de insultos absolutamente similares e só é possível distinguir os intervenientes destes acesos debates pela cor da camisola.

Nenhum deles se defende das acusações feitas ao seu partido, ao seu clube ou aos seus dirigentes dizendo que é mentira. Bem pelo contrário, nem sequer contestam a acusação, limitando-se a atribuir ao partido, clube e dirigentes do seu oponente a prática de factos do mesmo calibre e gravidade ou ainda pior. 

E o mais triste de tudo isto é que ambos não só  têm razão na acusação que fazem à outra parte como nenhum deles faz tenções sequer de não fazer o mesmo de que acusa os adversários de fazer se tiver a oportuniddade.

04 Jul, 2020

Uma casa de putas

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A política portuguesa transformou-se numa autêntica casa de putas onde uma mulher séria não deve pôr os pés e por duas razões.

Em primeiro lugar, porque não consegue mudar o destino à casa, até porque a clientela vai lá à procura de putas e não de mulheres sérias.

Em segundo lugar, porque não se livra da má fama.

Eu falo, por experiência própria. Não adiantou nada eu pagar do meu bolso duas campanhas eleitorais e grande parte da terceira para não ficar dependente de ajudas de empresários. Não adiantou nada eu ter recusado sempre lugares remunerados. Não adiantou nada eu não ter ficado com um tostão das senhas de presença que recebi. Não adiantou nada eu ter recusado receber ajudas de custo a que tinha direito por lei.

E porquê? Porque, para os portugueses, a política é uma casa de putas, o que significa que qualquer pessoa que lá entre, por muito séria que seja, não se livra da fama.

Santana-Maia Leonardo

04 Jul, 2020

Os Vampiros

Vamos lá a chamar os Vampiros pelo nome. Quem são hoje em Portugal "aqueles que comem tudo e não deixam nada"?

Comecemos, como ensinou o Padre António Vieira, do geral para o particular.

Qual é a Região de Portugal que, sendo uma das mais ricas da Europa, se apropria do grosso dos fundos europeus destinados à coesão (a que, em boa verdade, não tinha sequer direito)? Lisboa.

Qual o sector de actividade que mais sugou os contribuintes para enriquecer os Donos-Disto-Tudo e os seus séquitos compostos por governantes nacionais, regionais e locais? A nossa banca (CGD, BES, Novo Banco, BPN, BP, Montepio e BANIF).

Quais os clubes que ficam com a totalidade das receitas da liga portuguesa, deixando os restantes na miséria? Benfica, Sporting e Porto.    

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Não há nada que arruíne mais um povo do que um país pequeno com a mania das grandezas. Os países, tal como as pessoas, se querem viver felizes, têm de se conformar com o seu tamanho.

Não confundir, no entanto, mania das grandezas com ambição, porque não só não são sinónimos como são antónimos. A ambição parte sempre do reconhecimento daquilo que se é, enquanto a mania das grandezas assenta num complexo de inferioridade que pretende esconder aquilo que se é. Uma pessoa ambiciosa quer mais do que aquilo que tem, enquanto o megalómano complexado contenta-se apenas em alardear o que não tem.

Além disso, não é inteligente uma pessoa que só ganha mil euros por mês, endividar-se para comprar um Ferrari, só para se armar em rico por uns dias e arruinar-se para toda a vida. E Portugal continua com a mania das grandezas, como o caso da TAP é um exemplo flagrante, gastando o que não tem e o que não pode, para fingir aquilo que não é. E ai de quem tenha a ousadia de dizer o óbvio a alguém com o complexo de inferioridade e a mania das grandezas, porque é, imediatamente, enxovalhado. É preferível fazer como fazem os estrangeiros que olham para nós, riem-se nas nossas costas, entram na brincadeira, elogiando o fanfarrão, e ainda lhe dão uma gorjeta pelo divertimento.   

E lá voltamos ao futebol que é o espelho do que nós somos. Benfica, Sporting e Porto apropriam-se da totalidade das receitas geradas pelo futebol português, arruinando todos os clubes, destruindo a competitividade e o interesse da liga portuguesa e apropriando-se ainda de fundos públicos, para quê? 

Para encherem o peito cá no burgo por jogarem 5 jogos na Europa... Que orgulho?!... Que mais pode desejar um adepto de um Grande do que ver o seu clube no sorteio das provas europeias, ao lado do Real Madrid, Barcelona, United, Liverpool?!... E então, se conseguirem ganhar um jogo ao Basileia ou ao Lille, sentem-se os maiores do mundo?!...

Mas os portugueses são mesmo assim. São capazes de arruinar toda a sua vida e da sua família apenas para poderem fazer figura de ricos por um dia... O resto que se lixe! Alguém há-de pagar a conta...

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 10-7-2020

01 Jul, 2020

A Filipa

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Nunca gostei de gatos. Ou melhor, nunca gostei de gatos até ao dia 3 de Setembro de 2006 em que a minha filha encontrou à porta do escritório, na pequena valeta entre o passeio e a estrada, uma gatinha que cabia na palma da mão.

Como na altura, tinha dois cães no escritório e o terceiro vinha a caminho, demos-lhe água e comida dos cães a que chamou um figo. E, como era muito pequenina, resolvemos dar-lhe dormida, por uns dias, até que ganhasse força para a viagem.

Eu não sou supersticioso, nem acredito no destino. Mas nunca fiando, sobretudo quando se trata de coincidências. O meu amigo padre Fernando costumava dizer que só acreditava em coincidências quando atirassem um caixote cheio de letras do cimo da Torre Eiffel e, na queda das letras no solo, ficasse escrito o nome dele. Eu não sou tão exigente. Para acreditar em coincidências, bastava que saísse uma inicial do meu nome. Em todo o caso, nunca fui homem de acreditar em bruxas, ainda que tenha o hábito de nunca me deitar sem me certificar que não está nenhuma debaixo da minha cama. Cautelas e caldos de galinha…

Mas, afinal, onde estava a coincidência da chegada ao escritório da menina Filipa, assim baptizada por uma amiga nossa que gostava de gatos? É que a menina Filipa tinha entrado no meu escritório, que tinha sido a casa do meu pai até se licenciar em Direito pela Universidade de Coimbra, precisamente no dia do aniversário do meu pai, nascido no longínquo dia 3 de Setembro de 1930. Há cada coincidência! E depois ainda querem que uma pessoa não seja supersticiosa!...

Mas as coincidências não se ficaram por aqui. Quem criou o meu pai, nesta casa que é hoje o meu escritório, foi a minha tia Maria, uma daquelas mulheres que já não se fabricam hoje. Com efeito, perante a morte da mãe, após o nascimento do meu pai, a minha tia Maria, vinte anos mais velha do que o meu pai, sacrificou a sua vida para cuidar do seu pai (meu avô) e criar o seu irmão (o meu pai).

Ora, para a minha tia Maria, a quem nunca foi dada a oportunidade de continuar os estudos, não havia nada mais importante na vida do que ser doutor de leis e pela Universidade de Coimbra. Porque, para a minha tia Maria, ser doutor tinha esta sina: saber cantar o fado e usar capa e batina.

Com a morte do meu pai, a minha tia fazia questão que eu lhe seguisse os passos. E atraído pelo grito académico do F.R.A. do meu pai, que ainda me ecoava nos ouvidos, e pelas histórias coimbrãs contadas pelo meu pai, pelo meu avô materno, pelo meu tio Armando e pela minha mãe, todos estudantes de Coimbra, acabei por lhe fazer a vontade e lá fui bater com os costados na velha universidade. Mas fiquei-me por aí, uma vez que nunca fui dado a praxes, nem para andar vestido de padre… Aliás, em Coimbra (eu nem devia dizer isto, não vão os meus filhos ler), fui uma daquelas más companhias contra quem os meus avós me preveniram. Mas isso só veio provar a tese de Laborinho Lúcio: “todo o jovem que não transgride é um adulto mal formado.

Ora, a menina Filipa, apercebendo-se da monotonia dos meus dias e noites no escritório a trabalhar sozinho e sem ninguém com quem falar, resolveu ficar por ali a fazer-me companhia e a aconselhar-me sobre os processos mais complicados. Na verdade, tal como eu vim a constatar, a Filipa percebia muito mais de direito do que eu. Até parecia uma doutora de Coimbra de capa e batina dos tempos da minha tia Maria, ou seja, daquele tempo em que ainda se aprendia alguma coisa na universidade. Com efeito, enquanto eu tropeçava, me enleava e enredava na legislação e jurisprudência, sem saber como dali sair, a Filipa encontrava sempre uma saída. Era uma gata com faro para o direito.

Devo, aliás, confessar que foi a minha melhor professora de Direito e a minha verdadeira patrona de advocacia. Não houve um único caso, por mais rebuscado que fosse, que ela não conseguisse resolver. Na Universidade, aprendi teorias sem qualquer utilidade prática; com a Filipa aprendi o sentido prático das coisas e da vida.

E com o nascimento do Sebastião, no dia 19 de Setembro de 2006, a Filipa acabou por encontrar neste podengo o seu discípulo natural. E era com um enorme prazer que eu, nas minhas horas vagas, assistia embevecido à Filipa a dar aulas de Direito ao Sebastião que anotava, com uma fidelidade canina, tudo o que a sua professora lhe ensinava.

E para que me pudesse dar aulas de cátedra e fazer-me companhia, comprei-lhe uma pequena poltrona que ainda tenho em cima da minha secretária. E assim se passaram sete anos. Mal me sentia chegar ao escritório, trepava para a sua poltrona e ali ficava a ver-me trabalhar, a aconselhar-me e a corrigir-me, até eu me ir embora.

Em finais de Junho de 2014, reparei que a Filipa, que foi sempre muito asseada, estava a urinar fora da caixa. Levei-a ao veterinário, fez-lhe análises… E lá voltaram as coincidências.  Não bastava a Filipa ter chegado ao escritório no dia de nascimento do meu pai, como agora decidia partir, inesperadamente, como o meu pai, na força da idade e com o número sete nas costas, o número das sete vidas dos gatos. O meu pai partiu com trinta e sete anos e a Filipa decidia partir com sete anos de idade.

Além disso, ambos escolheram o primeiro dia do mês: a Filipa o dia 1 de Julho de 2014 e o meu pai o dia 1 de Dezembro de 1967. Cinco meses de diferença. E qual é o meu número preferido? Precisamente o número cinco. Meu querido amigo padre Fernando, desta vez a caixa das letras da torre Eiffel não se limitou a escrever o meu nome: foi nome, morada e número de telefone.

Francamente, nunca pensei que fosse tão doloroso despedir-me de uma gata. Logo eu que não gostava de gatos. Talvez a Filipa já estivesse farta da advocacia e do direito. O que é que eu lhe havia de dizer? Já não conseguia imaginar a minha vida sem ela, mas também não tive coragem, ao ver a sua cara de sofrimento, para lhe pedir para ficar mais um pouco.

Vieram-me à memória as palavras de Charlie Chaplin: “Durante a nossa vida, conhecemos pessoas que vêm e que ficam, outras que vêm e passam. Existem aquelas que vêm, ficam e, depois de algum tempo, se vão. Mas existem aquelas que vêm e se vão com uma enorme vontade de ficar...”

Agarrei a Filipa carinhosamente e coloquei-a em cima da mesa, no cais de embarque. Eram sete horas da tarde do mês sete. Outra vez, o número sete. Numa tarde quente de Verão. E, ao vê-la partir para a sua última morada, li no seu olhar de despedida que a morada de destino, afinal, era uma rua frondosa dentro do meu coração.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 7/10/2022

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