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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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A direita portuguesa é tão revolucionária como a esquerda (se não for mais), fruto do facto de muitos dos seus quadros provirem da extrema-esquerda.

Por isso, não é de estranhar que toda a minha gente neste país, desde o mais ilustre comentador até ao mais ignorante opinador das redes sociais, passando pelos políticos nacionais, regionais e locais de todos os quadrantes, defendam intransigentemente a urgência de reformas estruturais. Reformas estruturais que, em boa verdade, são revoluções estruturais, com a destruição e substituição de sistemas, organizações e instituições que consideram obsoletos e verdadeiros entraves ao desenvolvimento de Portugal.

Infelizmente, nem os nossos políticos, nem os nossos comentadores, conseguem perceber uma coisa que é óbvia para qualquer alentejano: por mais que se legisle e se reforme, os sobreiros não dão laranjas. É possível melhorar a qualidade da cortiça e a sua produção, mas não há nenhuma lei ou reforma estrutural que faça um sobreiro dar laranjas.

Ora, sem perceber isto, não vale a pena levar a cabo qualquer reforma estrutural. Um português não é, nem nunca será um alemão, um sueco ou um polaco. O nosso problema é cultural, não é estrutural.

Santana-Maia Leonardo - Diário As Beiras de 17-8-2020

15 Ago, 2020

A Lolita

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Todos os cães que tive, e já foram muitos, têm uma história, mas nenhum deles teve preço. Quem nunca se vendeu também não gosta de comprar.

Eu sei que hoje toda a gente gosta de programar a sua vida desde o nascimento do filho até à escolha da raça do animal de companhia. Mas eu nunca fui racista, nem garota de programa.

É certo que fui sempre eu quem escolheu os caminhos que trilhei, mas as minhas escolhas foram sempre feitas em cima da hora e, quase sempre, em cima do joelho. Basta dizer que, quando me fui matricular no Liceu de Portalegre, no meu 6.ºano de escolaridade (hoje, equivalente ao 10.º ano), saí de casa com o objectivo de me matricular em Ciências, em virtude de as disciplinas onde eu era melhor aluno serem Matemática, Ciências e Física-Química, e vim de lá matriculado em Letras. E porquê? Porque, no preciso momento em que me ia matricular, senti nascer, em mim, uma irresistìvel vocação para as Letras, sobretudo quando constatei que os alunos de Ciências tinham um horário de 25 horas lectivas e os de Letras um horário de apenas 19 horas.

Também nunca fui de escolher as minhas companhias. Todas elas foram-me saltando ao caminho como os cães, se bem que dos cães nunca tive razão de queixa…

E foi assim que conheci a Lolita, uma Setter Irlandesa, muito bonita e muito querida, mas que, como tantas vezes acontece, não era nada fotogénica. Não tenho uma única foto em que a Lolita não ficasse desfavorecida. Por mais que se arranjasse, penteasse, se visse ao espelho, escolhesse a pose… nunca ficava bem na fotografia.

Vim a saber, um mês mais tarde, pela boca do seu dono (um caçador que a tinha comprado por cem euros para a caça) que, naquele dia de Fevereiro de 2002 em que a Lolita me apareceu no monte, tinha ido dar uma volta com ela ao campo para testar os seus dotes de caçadora. Só que a Lolita era uma daquelas raparigas modernas que nasceu para viver na cidade e dormir até tarde e não para andar a bater mato, de madrugada, na companhia de gente armada em soldado e com a barba por fazer.... E mal apanhou uma oportunidade foi ter comigo ao monte e pediu-me boleia para a cidade.

A Lolita era tão bonita e tão meiga que os meus filhos apaixonaram-se, de imediato, por ela. E ela não se fazia rogada, passando a vida no sofá deitada em cima de quem lá estivesse sentado.

Passado um mês deste doce enleio, o dono da Lolita, tendo sabido que eu tinha encontrado a cadela, veio a minha casa agradecer-me por ter cuidado dela e para a levar. Só que, quando chegou à sala, não teve coragem de a levar perante o cenário de tragédia clássica com que se deparou. Os meus filhos, agarrados à cadela (que também não queria ir), choravam desalmadamente e num tal desespero que até a minha mulher já fazia coro, na choradeira.

É melhor fazermos assim, disse-me o caçador: o senhor compra-me outro cão idêntico e fica com a Lolita. E assim foi. Comprei-lhe o cão, mas nunca o vi, nem quis ver, para não correr o risco de vir a ficar também com ele. Gato escaldado…

A Lolita foi a primeira cadela que tive e toda a gente gostava dela. Aliás, era impossível não gostar de uma cadela tão bonita, tão meiga e tão carinhosa. Até o Calvin, um podengo formado na universidade da vida e muito cioso das suas coisas e do seu território, se comportava com a Lolita como um verdadeiro gentleman, chegando a ceder-lhe o seu lugar no sofá para ela se sentar.

Quando o Calvin faleceu no dia 30 de Abril de 2008, fazendo-nos viver a primeira e dolorosa experiência de ver partir um ente familiar de quatro patas, pensámos que tão depressa não iríamos voltar a passar pelo mesmo, tendo em conta a idade dos outros cães. E a Lolita, com apenas seis anos, estava no fim da lista.

Acontece que, pouco tempo após o Calvin falecer, ou seja, quando a Lolita estava na flor da idade, apareceu-lhe aquela maldita doença que afecta tantas mulheres: um tumor nas mamas. Foi operada por uma médica veterinária em quem depositávamos muita confiança e ficámos esperançados de que o problema tivesse sido descoberto a tempo e ficasse resolvido. Não ficou. Passado uns meses, o maldito tumor voltou a aparecer e a ramificar-se.

Hoje, quando penso na Lolita, lembro-me sempre da minha sobrinha que, com apenas trinta e cinco anos e pouco depois de ter tido a suprema alegria de ver nascer a sua filha... Maldita doença!

No dia 15 de Agosto de 2009, tive de chamar o veterinário a minha casa porque a Lolita permanecia deitada e já não se conseguia levantar. E, na verdade, já não havia nada a fazer. Fiz-lhe umas festas na cabeça, enquanto ela olhava fixamente para mim com aquele olhar de despedida que nos entra pela alma dentro e fica guardado para sempre dentro de nós. O mesmo olhar que voltei a ver nos olhos da minha sobrinha no último dia em que a vi no IPO do Porto. Um olhar sereno, eterno e penetrante que ambos sabíamos que era o último.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 2/9/2022

12 Ago, 2020

O Simba

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O Simba nasceu no dia 12 de Agosto de 1999.

Era um Husky Siberiano branco, com um olho azul e outro castanho, que parecia uma daquelas crianças de cara redonda e bolachuda a que só apetece apertar as bochechas. Era um autêntico peluche e só queria brincadeira. Quando chegávamos, enrolava-se no chão aos nossos pés para lhe fazermos cócegas na barriga e, depois, fazia uma festa.

Chegou a minha casa, a meu pedido, com o objectivo de permitir que eu voltasse a dormir as noites descansadas. E porquê? Porque tinham dado um Husky Siberiano preto à minha filha de prenda de aniversário que era um chato, porque passava a vida a uivar sempre que ficava sozinho. Segundo me explicaram, os Husky Siberianos são cães de matilha que não gostam de estar sozinhos, o que significava que a solução era encomendar outro, que foi precisamente o que eu fiz, depois de ter passado umas noites sem dormir. Mas deu resultado.

O Claine e o Simba cresceram como irmãos, apesar de serem muito diferentes.  O Claine era preto, reservado, de poucas falas e não se dava com qualquer cão. Pelo contrário, o Simba era branco, muito sociável, dava-se com todos os cães e toda a gente gostava dele. Ou seja, o Claine era a minha cara chapada e o Simba era o meu filho em pessoa. Escusado será dizer que o Simba era o cão preferido da minha mulher.

E foi também o meu filho que o baptizou, porque, nisto de escolher os nomes, eu só servia mesmo para pagar o baptizado. E o nome escolhido foi, como não podia deixar de ser, o do Rei Leão, não só por ser um filme que marcou a geração do meu filho, mas por ter herdado do meu avô materno uma costela leonina.

No início do ano de 2012, o Claine, a aproximar-se dos catorze anos e com alguns problemas de saúde e de visão, começava a dar sinais de que a sua vida não ia durar muito. No entanto, o Simba, um ano mais novo e sempre mais vivaço e brincalhão, parecia que tinha saúde para dar e vender. Mas um inchaço nos sacos anais chamou-me a atenção. Levei-o ao veterinário e o diagnóstico foi o pior possível. Tratava-se de um tumor maligno, já num estado adiantado pelo que devia ponderar a hipótese de eutanásia.

Quanto tempo mais poderia viver? Umas semanas, na melhor das hipóteses, mas era necessário limpar-lhe todos os dias os sacos anais e dar-lhe medicamentação duas vezes ao dia, para que pudesse ter alguma qualidade de vida.

Quando temos vinte ou trinta anos, a vida só faz sentido se não virmos o fundo ao tacho. Com efeito, para quem pensa viver até aos noventa anos, algumas semanas de vida não têm significado, nem justificam o sacrifício. Para quê prolongar artificialmente a vida apenas por mais umas semanas? Se fosse por um ano ou dois, ainda vá que não vá... Mas por umas semanas? Que sentido faz?

É óbvio que não faz qualquer sentido, a não ser para quem esteja na mesma situação do Simba que era precisamente o meu caso. Aqui é que a porca torce o rabo… Com efeito, quando, por força da idade ou da doença, começamos a ver a cova, cada dia passa a ser saboreado como se fosse o último cigarro do condenado à morte.

Ora, eu e o Simba, naquele momento, estávamos na mesma onda. Ambos tínhamos aprendido à nossa custa que, na vida, todos os dias fazem sentido, sob pena de a vida não fazer sentido nenhum. E um milhão de anos, na linha do tempo à escala da eternidade, é um minúsculo ponto que ocupa o mesmo espaço de um dia.

Deixemo-nos de fantasias. Todos havemos de morrer e todos seremos esquecidos. Os homens eternos raramente sobrevivem à terceira geração e passados cem mil anos já ninguém vai saber sequer que existiu Portugal, nem portugueses, nem a língua portuguesa, nem Camões, nem Beethoven. E cem mil anos passam num instante. Basta olhar para trás. Se cem mil anos demorassem muito tempo a passar, eu ainda não tinha nascido.

Ora, como ensina o Novo Testamento, deixemo-nos de filosofias baratas e saibamos gozar o dia que passa sem lhe acrescentar outras preocupações. “Basta a cada dia o seu dia.” E, algumas semanas de vida, para quem vive na iminência de morrer a qualquer momento, é uma eternidade.

E, a partir daquele momento, passei a tratar o Simba como se o Simba me estivesse a tratar a mim. Todos os dias, o Simba vinha ter comigo, deitava-se para eu lhe limpar os sacos anais e dar-lhe os comprimidos. E os dias foram-se passando e as poucas semanas de vida que lhe tinham sido prognosticadas foram-se estendendo por meses. Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho…

No dia 14 de Julho de 2012, ainda foi comigo ao velório e ao funeral do seu amigo Claine que teve uma daquelas mortes que todos gostaríamos de ter. Na véspera, deitou-se, adormeceu e já não acordou.

Entretanto, Julho chegou ao fim e seguiu-se-lhe Agosto, Setembro, Outubro e Novembro. Onze meses a limpar-lhe todos os dias os sacos anais e a medicá-lo, o que fez com que a nossa relação se fortalecesse muito. Mas no dia 30 de Novembro de 2012, quando fui para lhe fazer o tratamento, o Simba disse-me que tinha chegado a sua hora. “Já não me consigo levantar. Tens de chamar a veterinária”. Liguei à veterinária que não demorou. O Simba, então, deitou-se de lado, agradeceu-me, fechou os olhos e foi ter com o seu amigo Claine que já estava cheio saudades suas.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 26/8/2022

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Barcelona é a minha cidade do coração. A cidade onde (re) nasci. Se cada um já é livre para mudar de sexo e de pais, por maioria de razão deverá poder mudar o lugar de nascimento.

Em todo o caso, o facto de ter decidido nascer em Barcelona, não faz de mim um catalão, espanhol ou português, no sentido nacionalista do termo, por uma razão simples: não sou religioso, nem nacionalista.

Aliás, considero as religiões e os nacionalismos os principais causadores das grandes tragédias do mundo.

Sou apenas um cidadão europeu que se reconhece nos valores da civilização europeia, designadamente na Carta Universal dos Direitos Humanos. E chega!

Santana-Maia Leonardo

08 Ago, 2020

A minha Vitória

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A Vitória nasceu no dia 8 de Agosto de 2008. Provavelmente por ser alentejano, sempre tive uma queda pelos rafeiros alentejanos. E, quando são cachorros, são cães com quem apetece brincar, porque são vivaços, brincalhões e robustos, o que significa que não se corre o risco de se partirem.

No entanto, a Vitória, felizmente, não teve como destino a minha casa. Era o que mais faltava! Eu já tinha cães que chegassem. Até já lhes tinha perdido a conta. Já nem me lembro se eram sete, oito ou nove. E para quem foi educado para não querer cães em casa, qualquer dia ainda era eu que era posto na rua da minha casa por tanto cão.

É claro que os cães não são como as pessoas, mas, por este andar, qualquer dia nem num cão uma pessoa pode confiar. Aliás, não me admirava nada, com tanto socialista a passar-lhes a mão pelo pêlo, que um dia destes ainda se lembrassem de convocar uma assembleia de pata no ar para correr comigo de casa.

Mas da Vitória, pelo menos, estava eu livre. Foi oferecida ao meu filho para guardar o monte pelo que não havia qualquer hipótese de aterrar na minha casa.

À medida que foi crescendo, a Vitória transformou-se numa cadela imponente, bonita e muito meiga. Só tinha um defeito: gostava mais das galinhas e dos borregos do que eles gostavam dela. Essa foi a justificação que me deram para a terem presa à corrente numa casota pequena ao pé do monte. Não a podiam soltar, caso contrário a criação levava sumiço…

Aquilo mexeu comigo, porque sou um amante incondicional da liberdade e não me consigo imaginar sequer enfiado numa gaiola, seja em Caxias, no Aljube ou no Tarrafal. Na noite seguinte, quando cheguei a casa, estava a chover torrencialmente. Quando me ia deitar, veio-me à memória a imagem da Vitória presa à corrente naquela casota. Levantei-me, meti-me no carro, fui ao monte, carreguei a Vitória e fiquei atascado no meio do caminho. No entanto, lá consegui desenvencilhar-me com a ajuda de um tractor. Mas, nessa noite, a Vitória já dormiu, em liberdade, na minha casa. No fundo, é essa a vantagem de ter muito cães: eram tantos que já ninguém dava pelo acrescento.

Todavia, a Vitória não veio para a minha casa sem mais nem menos. Tive, nessa noite, uma conversa a sério com ela e ela teve de assumir um compromisso comigo. Como eu lhe disse nessa noite, eu tinha tantos cães na minha casa que já não mandava nada e qualquer dia ainda corria o risco de ser posto na rua pelo que, se ela queria vir comigo, tinha de me prometer que metia ordem na casa e que não deixava que os outros cães me faltassem ao respeito.

E a verdade é que nunca tive razões de queixa da Vitória. Toda a gente gostava dela, mas, quando algum cão se armava em esperto, bastava ela abrir os olhos que eles ficavam logo com os cabelos em pé. E os meus netos adoravam-na. Ela consentia que eles lhe fizessem todas as tropelias com uma paciência verdadeiramente alentejana.     

Cada vez que eu chegava corria desenfreada, de alegria, de um lado para outro até eu estacionar o carro e depois atravessava-se à minha frente para eu lhe ir a fazer festas até casa. Gostava mesmo daquela cadela que ainda por cima tinha o nome do clube da minha infância.

No verão de 2018, quando fez dez anos, as corridas que fazia, quando eu chegava, passaram a ser substituídas por um andar cambaleante, igual ao meu quando fiz sessenta anos. Quando era novo também me fartava de correr, mas, com o passar dos anos, a suspensão e as dobradiças começaram a dar sinal de desgaste e com a Vitória passava-se o mesmo. Como eu a compreendia! Mas nunca deixou de vir ter comigo e de se atravessar à minha frente para eu lhe estar sempre a fazer festas.

No dia 25 de Agosto de 2019, quando me preparava para ir gozar a minha semana de férias ao Algarve, ao despedir-me da Vitória, tive um estranho pressentimento de que poderia ser aquela a última vez que a via. Mas afastei esta ideia, porque sabia que ela nunca iria partir sem se despedir de mim.

Na quarta-feira, dia 28 de Agosto, a minha mãe ligou-me a dizer que a Vitória tinha um grande inchaço na pata direita, dando a sensação de ter sido mordida por um bicho. A veterinária receitou-lhe uns anti-inflamatórios e, como o inchaço se mantinha, na sexta-feira, dia 30 de Agosto, levaram-na para lhe tirar uma radiografia à pata. Um cancro ósseo extremamente doloroso e agressivo tinha-lhe corroído os ossos da pata direita, estando em risco de se fracturar, e já se tinha expandido para os ossos do tronco. A cadela tinha de ser imediatamente abatida. Mas não é possível esperar por segunda-feira?... Face ao meu pedido, a veterinária lá receitou umas bombas atómicas para tornar a dor suportável e ficou marcado, para segunda-feira, o dia da grande viagem.

Quando cheguei a Ponte de Sor, a Vitória, surpreendentemente, fez um esforço enorme e lá se conseguiu levantar para cumprir o mesmo ritual de sempre. A minha chegada tinha-lhe dado um acrescento de alma que fez com que eu, na segunda-feira, resolvesse adiar mais uma vez a viagem. Mas, na quinta-feira, percebi que já era desumano prolongar o sofrimento da Vitória, por mais tempo, e tive de marcar, para o dia 6 de Setembro, pelas dezasseis horas, o dia da partida.

Passei toda a noite com a Vitória a falar da nossa vida, dos tempos em que éramos novos e parecia que a vida nunca mais acabava. Mas a nossa hora, por mais que se adie, acaba sempre por chegar.

“Eran las cuatro en punto de la tarde./ (…) ¡Ay, qué terribles cuatro de la tarde!/ ¡Eran las cuatro en todos los relojes! /¡Eran las cuatro en sombra de la tarde!

Abracei-a com toda a força, enquanto a veterinária lhe entregava o bilhete para a sua última viagem.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 21/10/2022

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Junto à Basílica de Santa Maria del Mar que tem o escudo do Barça num dos seus vitrais em reconhecimento à ajuda na sua construção após o incêndio que a devastou, é altura de falar dos dois valores que faltam.

Já vimos dois: AMBIÇÃO e RESPEITO, o terceiro e o quarto, respectivamente. Falta ver o primeiro, o segundo e o quinto: HUMILDADE, ESFORÇO e TRABALHO EM EQUIPA.

Estes cinco valores são a trave mestra do clube e são ensinados, praticados e cultivados em todos os escalões de formação.

Vou dar alguns exemplos para perceberem a diferença.

Não é permitido a qualquer jogador do Barça das camadas jovens receber troféus individuais em qualquer competição, seja melhor jogador, melhor guarda-redes, etc.

Todos os jogadores, independentemente da sua valia, devem intuir que o futebol é um jogo de equipa e que o sucesso ou insucesso é sempre o resultado do trabalho em equipa, é responsabilidade de todos e que nada se consegue sem muito trabalho e sem esforço. Por isso, não é possivel encontrar no Barça, em qualquer escalão, o discurso centrado no "eu".

E reparem na forma como os jogadores do Barça festejam os golos. Todos os golos são festejados colectivamente e com a mesma felicidade, independentemente de quem o marque. A cara dos jogadores não muda se o golo for marcado por ele ou por outro colega.

Mesmo Messi nunca fala na primeira pessoa, colocando sempre a tónica no colectivo. E a melhor prova disso é que todos os prémios individuais ganhos por Messi (6 Bolas de Ouro e 6 Botas de Ouro) foram oferecidos ao Barça e aos seus adeptos e fazem parte do espólio do Museu do Barça.

Iniesta é o símbolo da Masia. Tem as suas opiniões mas nunca se põe em bicos dos pés, reclama protoganismo ou critica os adversários. É o exemplo a seguir.

Também nunca ninguém ouviu Puyol, Xavi, Messi ou Busquets auto-elogiarem-se, pôrem-se em bicos dos pés, dizerem que são os melhores do mundo ou declararem que querem ganhar prémios individuais.

Piqué só este ano entrou na lista dos capitães precisamente por ter um perfil de excesso de protoganismo com declarações bombásticas que não agrada a um plantel onde a discrição e a humildade são valores a praticar.

Santana-Maia Leonardo

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Na vida há os poetas e os outros. E para se ser do Barça tem de se gostar de poesia e ter alma de poeta.

Ontem vimos a diferença ideológica entre ser do Barça e ser madridista, onde pudemos constatar que a estrutura organizativa dos nossos clubes e a ideologia do adepto português se identifica com Madrid e não tem nada a ver com o Barça.

Hoje vamos ver a diferença estética entre o Barça e os outros. E para isso temos de falar de Johan Cruyff, o poeta do futebol que revolucionou o futebol do Barça e lhe impôs a dimensão estética da poesia que é hoje a sua imagem de marca.

E basta recordar três frases históricas de Cruyff, para perceberem a que me refiro: (a) "O futebol é um jogo que se joga com a mente. (b) Prefiro ganhar por 5-4 do que ganhar por 1-0. (c) O futebol é um espectáculo em que não basta ganhar, é necessário jogar bem.

Enquanto, para um adepto do Madrid, o importante é ganhar e, para os resultadistas italianos, o importante é não sofrer golos, para um adepto do Barça não basta ganhar é necessário jogar bem e dar espectáculo, correndo todos os riscos que isso comporta. Ser do Barça é assumir a dimensão estética da Poesia.

Ganhar por 1-0 e jogar mal não satisfaz um adepto do Barça que aceita melhor perder se a equipa jogou bem e fez tudo para merecer a vitória.

E aqui chegados temos outro dos valores do Barça que é ensinado e cultivado em La Masia.

Ontem vimos o RESPEITO, um dos valores fundacionais e uma das imagens de marca do clube e que é praticado e cultivado por todos os jogadores, dirigentes e sócios do clube, constando expressamente dos estatutos para admissão de sócio.

Hoje vimos outro dos cinco valores do clube: A AMBIÇÃO. Porque é necessário ter a ambição desmedida dos poetas para apenas ficar satisfeito com a vitória, assumindo o risco de jogar de peito aberto, dando espectáculo e jogando bem.

Como vêem, basta ouvir falar os treinadores e os adeptos portugueses em que o importante é ganhar seja lá como for, para se constar que não têm nada a ver com o Barça e têm tudo a ver com a escola resultadista italiana.

Santana-Maia Leonardo