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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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Portugal é hoje um micro-país que reproduz em ponto grande o mesmo modelo de desenvolvimento dos micro-municípios em que está sub-dividido: uma sede de concelho desproporcionada em relação às restantes localidades do município que, numa primeira fase, cresce à conta do esvaziamento das freguesias rurais para, numa segunda fase, ela própria se começar a esvaziar para Lisboa, perdendo população activa e massa crítica. Ou seja, começa-se por migrar dentro do próprio território para depois se emigrar.

Um território com dez milhões de habitantes é uma pequena cidade. Acontece que os sucessivos governos, em vez de governarem Portugal como se fosse uma cidade, continuam a governar Lisboa como se fosse o país.

Para haver crescimento sustentável e renovação das gerações num pequeno país como o nosso, é necessário, antes de mais, que não o tornemos ainda mais pequeno, amontoando tudo o que mexe dentro de uma região superlotada. Cabe, pois, ao poder político esticar a área territorial da Grande Lisboa a todo o território nacional, em vez de continuar a encolher Portugal para melhor caber dentro da capital.

Recordo que somos o único país da Europa onde todos os poderes e praticamente todas as sedes do poder político, administrativo, judicial, financeiro e da comunicação social nacional estão concentradas na capital. E o pior é que ninguém quer de lá sair.

Face ao esvaziamento vertiginoso de todo o território nacional para Lisboa, apenas a cidade do Porto, com a sua tradição liberal e de resistência contra o poder da Corte e de Salazar, tem hoje dimensão e capacidade para defender o território contra o centralismo retrógado e criminoso de Lisboa.

Acontece que Salazar, seguindo de perto os ensinamentos de Mussolini, o primeiro político a ter consciência da importância do futebol na manipulação das massas, conseguiu transformar os clubes de Lisboa, promovendo e estimulando a rivalidade acéfala e doentia entre Benfica – Sporting, nos dois únicos clubes nacionais. Quem não era do Benfica era do Sporting e vice-versa. Não havia alternativa.

E hoje, 50 anos após o 25 de Abril, Benfica e Sporting continuam a ser os dois grandes eucaliptos, ao serviço de Lisboa, que esvaziam qualquer mobilização nacional contra o centralismo. Rui Moreira, na sua recente declaração sobre a forma privilegiada como Lisboa é tratada pelo Governo, tem inteira razão e devia revoltar, mobilizar e indignar todos os portugueses que vivem fora da região de Lisboa e que são tratados pelo Governo, como se vivêssemos num verdadeiro regime de Apartheid.

Dou dois exemplos. Os alentejanos são hoje tratados abaixo de cão pelo Governo que olha para o Alentejo como um local aprazível para os alfacinhas irem passear o cão ao fim-de-semana e para os alentejanos como as personagens das anedotas que contam aos amigos. Por sua vez, a região de Abrantes está-se a transformar numa região fantasma de casas em ruínas que nada tem a oferecer às gerações mais novas e mais qualificadas. Quanto a Santarém, já está reduzida a um dormitório de Lisboa, passando os seus políticos mais representativos mais tempo em Lisboa do que em Santarém.

No entanto, se Rui Moreira levantar a voz contra Lisboa, os alentejanos e os abrantinos, em vez de se colocarem ao lado de Rui Moreira, atacam-no e colocam-se ao lado de Lisboa. E porquê? Porque são do Benfica e do Sporting e Rui Moreira é do… Porto.

Tal como ensinou Mussolini, transformar a rivalidade de dois clubes da capital numa rivalidade nacional é o segredo para a coesão nacional em torno de Roma, uma vez que o futebol consegue hoje aquilo que, na Europa, nem a política, nem a religião conseguem: unir e mobilizar os cidadãos na defesa do seu clube contra os interesses da sua própria família, do seu partido, da sua religião e das suas cidades.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 30-5-2021

e Observador de 7-6-2021

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A bola tanto pode educar como deseducar. Qualquer desporto assente na cultura do fair play, do respeito pelo outro, da superação e do mérito não só educa como é absolutamente essencial na formação dos cidadãos. Por outro lado, qualquer desporto assente na cultura da ganância, da batota, do ganhar de qualquer jeito (nem que seja com um golo com a mão e em fora-de-jogo), do fanatismo e do espírito de cruzada não só impossibilita a formação do indivíduo como cidadão como o transforma numa besta.

Desafio, por isso, o leitor a fazer um pequeno teste para avaliar o seu grau de portuguesismo, nesta matéria.

Numa corrida de Corta-Mato, o queniano Abel Muttai, que estava a poucos metros da meta, pensou que já havia concluído a prova, quando ainda faltavam alguns metros. O espanhol Iván Anaya, que vinha em segundo lugar, apercebendo-se do erro do queniano, começou a gritar para que o queniano continuasse a correr, mas Muttai não entendia o que o colega dizia. O espanhol, em vez de o ultrapassar e vencer a corrida, resolveu empurrar o queniano para a vitória. No final, um jornalista perguntou a Iván por que razão deixou ganhar o queniano. E Iván respondeu-lhe: "Eu não o deixei ganhar, ele ia ganhar." O jornalista insistiu: "Mas o senhor podia ter ganhado!" E Iván respondeu-lhe aquilo que devia ser óbvio para toda a gente: "Mas qual seria o mérito da minha vitória? O que é que a minha mãe iria pensar se eu ganhasse dessa forma?

Escolha agora apenas uma das quatro hipóteses:

(1) O espanhol Iván Anaya agiu correctamente e eu fazia o mesmo.

(2) Apesar de valorizar o comportamento ético do espanhol Iván Anaya, eu não iria perder a oportunidade de vencer a corrida. O etíope enganou-se, paciência! A culpa não era minha.

(3) O espanhol é um tótó. Eu fazia o mesmo, mas era o caraças!

(4) Eu fazia o mesmo, mas era o caraças! Mas, neste inquérito, vou dizer que escolho a primeira hipótese para pensarem que eu sou uma pessoa íntegra e honesta.

Resultado do teste:

Se escolheu a hipótese (1), não é português de certeza absoluta. Pode ter nascido em Portugal, mas, nas suas veias, não corre uma gota de sangue lusitano.

Se escolheu a hipótese (2), é um português aculturado. Ou seja, é descendente de estrangeiros que se fixaram em Portugal e se adaptaram aos nossos costumes.

Se escolheu a hipótese (3), muitos parabéns: é um português dos pés à cabeça. E, nessa cabecinha, todas as células foram fabricadas made in Portugal e com materiais genuinamente portugueses.

Se escolheu a hipótese (4), é um português de corpo inteiro nascido para a vida política. E se quer chegar ao mais alto cargo do Estado, deve começar já a treinar em casa a pôr condecorações em série, ao mesmo tempo que repete, em frente do espelho e sem se deixar rir, que os portugueses são os melhores dos melhores.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 23-5-2021

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