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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

20 Mai, 2022

A Verdade

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No julgamento de Cristo, segundo o Evangelho de S. João, Pilatos faz a famosa pergunta: “Que é a verdade?

Em Portugal, não conheço nenhum português que não se professe um amante da “Verdade”. No entanto, quando a verdade não lhes convém, remetem, de imediato, a descoberta da verdade para os tribunais. E todos sabemos porquê: quem não tem razão deposita sempre nos tribunais a última réstia de esperança de o tribunal lhes vir a dar razão.

Ora, não há maior cinismo e hipocrisia do que remeter para os tribunais a descoberta da verdade. A verdade judicial NUNCA é a VERDADE. A verdade judicial, na melhor das hipóteses, é a verdade possível, se bem que, na maioria dos casos, seja a verdade conveniente ou a verdade negociada. E isto não tem a ver nem com os juízes, nem com os procuradores, nem com as leis.

Para que percebam o que realmente estou a dizer, dou-lhes um exemplo prático que é do meu conhecimento pessoal. Imaginem que são vereadores e a aprovação de um projecto depende do vosso voto. O dono do projecto entra no vosso gabinete e propõe-vos comprar o voto em notas. Como são pessoas sérias, não aceitam o que lhes é proposto.

Agora imaginem que decidem denunciar o caso ao Ministério Público. Como é evidente, o processo não só é arquivado por falta de provas (é a vossa palavra contra a palavra do corruptor), como ainda se arriscam a ser arguidos num processo de difamação instaurado pelo corruptor e andar nas bocas do mundo. Vergonha é precisamente o que não falta a este tipo de gente.

E termino fazendo-lhes a mesma pergunta de Pilatos com que começámos esta conversa: Que é a verdade? A verdade é aquilo que se passou efectivamente no vosso gabinete em que o dono do projecto vos propôs a compra do vosso voto ou o que resulta do processo judicial que absolveu o corruptor e vos condenou por difamação?

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 20/5/2022

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Um reformado foi assaltado três vezes pelo mesmo indivíduo e sempre da mesma forma. Como a casa é de telha vã, o jovem retirou umas telhas, introduziu-se na sua casa e furtou-lhe, por três vezes, os 200€ da sua magra reforma. As três vezes foi apanhado pela GNR, as três vezes foi presente ao juiz e as três vezes foi posto em liberdade, como manda o Código de Processo Penal.

O dia da sentença foi uma festa. Para o criminoso, respectiva família e amigos, bem entendido, que nunca acreditaram que ele ficasse em liberdade. Foi condenado em pena suspensa e a pagar ao reformado a quantia que lhe tinha roubado.

O reformado, no início, também ficou contente até lhe explicarem que, apesar de o criminoso ter sido condenado a indemnizá-lo da quantia que lhe roubara (3 x 200€), ele nunca a iria receber, porque o criminoso, um jovem toxicodependente, não tinha quaisquer bens.

«Então mas se ele foi condenado, o tribunal não o vai obrigar a pagar-me?», perguntou-me o pobre reformado.

É absolutamente revoltante a forma como a nossa justiça goza com as vítimas, proferindo sentenças que só servem para enfeitar, para gáudio dos criminosos e derradeira humilhação das vítimas.

Santana-Maia Leonardo - A Ponte de 16/5/2022

13 Mai, 2022

Ser português aqui

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Vou relatar um episódio que aconteceu comigo e que ilustra na perfeição essa estranha forma de ser português aqui. E digo AQUI, porque lá fora os portugueses não são assim.

No início dos anos 90, eu e a minha irmã pertencíamos ao conselho pedagógico da Escola Secundária de Ponte de Sor e éramos orientadores de estágio.

Na altura de decidir qual o prazo que devia ser fixado para a entrega dos relatórios finais, só eu e a minha irmã discordámos do prazo de 15 dias que foi proposto, por considerarmos que era demasiado apertado. No entanto, na altura da votação, o prazo de 15 dias foi aprovado com apenas dois votos contra: o meu e o da minha irmã.

Acontece que, findo o prazo de 15 dias concedido para a entrega dos relatórios finais, apenas dois membros do conselho pedagógico tinham entregado os respectivos relatórios. Adivinhem agora quais foram os dois únicos membros do conselho pedagógico que entregaram os respectivos relatórios dentro do prazo? Exactamente. Precisamente eu e a minha irmã.

E o que é que ganhámos em ter sido os únicos a cumprir o prazo? Recebemos algum louvor? Não. Recebemos alguma palavra de agradecimento e estímulo? Não. Fomos dados como exemplo a seguir? Não. Passámos a ser mais respeitados pelos nossos colegas? Obviamente que não. Passámos a ser mais considerados pela Direcção da Escola? Obviamente que não.

Para além de termos perdido dois fins-de-semana a trabalhar, o que ganhámos foi ser objecto da chacota e da troça dos nossos colegas que aprovaram o prazo de 15 dias, com o nosso voto contra, e estiveram-se a borrifar para cumprir o prazo que aprovaram.

No entanto, sempre aprendemos uma grande lição que é muito útil para quem vive neste país: só os tontinhos e os idiotas, como eu e a minha irmã, é que se preocupam em cumprir os prazos, as leis e as regras.

E não deixa de ser absolutamente surpreendente que, num país em que ninguém se preocupa em cumprir um simples prazo ou chegar a horas de um compromisso, não haja um único português que não clame por mais leis, por mais normas e por mais regras. E se se apanhar num cargo que lhe permita fazer leis e normas, puxa logo da caneta e é um ver se te avias. Fica ali tudo regulado e regulamentado ao mais ínfimo pormenor. Não escapa nada!

Agora cumprir as normas, as leis e os prazos que se fixaram com tanta determinação e afinco?!... ‘Tá quieto! E se alguém se armar em parvo e se tornar mais exigente, há sempre alguém disponível para atestar a doença súbita do incumpridor, inventar uma desculpa do mesmo género ou, em último caso, revogar a norma ou dar-lhe uma interpretação que não lembra o diabo. Imaginação para justificar os incumprimentos e salvar os incumpridores é precisamente o que por aqui abunda.... E, na verdade, quem é que não adoece num país com leis tão exigentes e miudinhas que só mesmo os tontinhos é que se esforçam por cumpri-las?

Portugal tem demasiada gente que se ocupa e muito pouca gente que se preocupa. E os países para saírem da cepa torta não precisam de gente que se ocupa, mas de gente que se preocupa.

Eu e a minha irmã fomos os únicos a votar contra o prazo porque, pelos vistos, éramos os únicos que estávamos preocupados em cumpri-lo. Com efeito, quem não faz conta de cumprir um prazo qualquer prazo serve.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 13/5/2022

11 Mai, 2022

A corrida de burros

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Imagine uma corrida entre um burro e um carro de Fórmula 1, numa pista de alta velocidade. Quem acha que ganhava a corrida? 

A resposta correcta é só uma: depende do condutor.

Sendo certo que os portugueses, na sua maioria, conseguiam chegar ao fim montados no burro, mas não conseguiam sequer arrancar com o carro de Fórmula 1. 

Ora, as nossas repartições públicas, tribunais, escolas, empresas, etc. estão cheias de gente que só tem formação e capacidade para andar de burro.

Se queremos empresas competitivas, uma justiça célere e justa, serviços públicos eficientes, uma escola competente e exigente e partidos que não promovam nem premeiem o chico-espertismo, ou seja, se queremos dotar a sociedade portuguesa de verdadeiros "Fórmula 1" para competir ao mais alto nível, comecemos, então, pela selecção e pela formação dos condutores, antes de lhe pormos o carro nas mãos.

Santana.Maia Leonardo - A Ponte de 9-5-2022