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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

11 Jun, 2022

A semana de 4 dias

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Quando comecei a dar aulas em 1981, todos os professores tinham um dia livre. Ou seja, a semana de trabalho dos professores era de 4 dias. E não era preciso ser muito inteligente para perceber que a semana de 4 dias era benéfica para toda a gente. Os professores, que se encontravam deslocados, tinham a oportunidade de poder estar mais tempo com a sua família. Os professores residentes tinham um dia para poder tratar de assuntos que, noutras circunstâncias, os obrigariam a faltar, como por exemplo: ir a conservatórias, finanças, notários ou câmaras municipais, ir ao médico ou ao dentista, fazer a revisão do carro, etc.

Por sua vez, os alunos também beneficiavam por duas vias: por um lado, os professores tinham menos motivos para faltar às aulas; e por outro, os professores andavam menos stressados, menos deprimidos e mais felizes, porque tinham mais um dia de descanso. E professores menos stressados e mais felizes significa automaticamente melhores professores. Além disso, mais um dia de descanso propiciava mais momentos de lazer, o que também era bom para a economia: hotéis, restaurantes, cafés e comércio, em geral.

Acontece que os governantes portugueses, em vez de estenderem uma experiência de sucesso a outras áreas do funcionalismo público e ao mundo empresarial, enquanto não arranjaram forma de acabar com o dia livre dos professores não descansaram. A estupidez sempre teve honras de Estado neste país. Graças a Deus!

Como todos sabemos, um jogo de futebol tem 90 minutos seja em Portugal, na Alemanha ou Inglaterra. No entanto, em Portugal, como todos também sabemos, o tempo útil de jogo não chega aos 45 minutos. O mesmo se passa com os horários de trabalho em que o tempo útil de trabalho fica quase sempre pela metade, no máximo dos máximos: abrir o computador e ligar o ar condicionado; tomar o café da manhã e a meio da tarde; ir à casa de banho; tirar a tarde para ir às reuniões da escola do filho ou com o filho ao médico ou ao dentista, etc. etc. etc. Se o tempo de trabalho fosse contabilizado ao cronómetro, havia muita gente que só trabalhava um dia por semana.

Ora, como os nórdicos já perceberam, aumentar o horário de trabalho e reduzir a semana de trabalho a quatro dias é bom para toda a gente. Trabalha-se mais (na medida em que, por um lado, se reduzem automaticamente as vezes que se liga e desliga os computadores e as pausas para o café, e, por outro, deixa de haver motivo para faltar para tratar de assuntos pessoais); os trabalhadores andam mais motivados e felizes (o que rentabiliza o trabalho); os serviços têm horários mais abrangentes, o que permite aos utentes poder aceder-lhes sem ter de faltar ao seu trabalho (o que é bom para as empresas e para a economia); e o turismo só tem a ganhar com mais dias de lazer dos trabalhadores.

É um verdadeiro ovo de Colombo, como eu constatei quando comecei a dar aulas em 1981. Como explicou António Cerejeira, «O que faz a diferença são as pessoas. Se tivermos empregados motivados, isso terá impacto no resultado.» Como é óbvio.

No entanto, a semana dos 4 dias vai esbarrar inevitavelmente com a resistência dos “chefes”, dos “chefinhos” e dos “chefões” que odeiam empregados motivados e felizes, porque isso fá-los sentir menos “chefes”. O empregado é para estar ali à sua disposição e sob o seu poder, a salivar, a implorar e a contar os minutos para ir para casa. Sem isso, a vida do “chefe” lusitano não dá “tusa”.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 11/6/2022

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O memorando da troika fez-me acreditar que PSD e CDS não iriam perder a oportunidade única de levar a cabo as reformas estruturais essenciais para tirar Portugal do fundo poço onde tinha sido enfiado pela associação de malfeitores que nos tinha governado até então. E o anúncio de Passos Coelho de que pretendia ir além da troika ainda me fez acreditar mais na vontade reformadora do Governo.

Não foi, no entanto, preciso esperar muito tempo para perceber que a expressão “ir além da troika” usada por Passos Coelho não tinha nada a ver com as reformas estruturais de que o país carecia, mas com o esmifrar da classe média e das pequenas e médias empresas até à indigência e à insolvência, ao mesmo tempo que reduzia Portugal à cidade Lisboa-Porto, a sua idealizada Singapura.

Como ensinou Aristóteles e os governantes do PSD e do CDS não podiam deixar de saber, “A estabilidade das repúblicas depende, essencialmente, quer do apoio das classes médias, quer da atenção dada à situação difícil e penosa dos pobres.”

Acontece que, perante a desgraça e a miséria crescente, ainda tínhamos de gramar com a cínica justificação, repetida até à exaustão, como se fôssemos todos analfabetos e estúpidos, de que “Não havia alternativa”.

Acontece que Mário Centeno, num governo socialista aliado à extrema-esquerda, demonstrou que era possível reduzir o défice a zero e criar superavit com o simples controlo da despesa pública (que era precisamente o que Passos Coelho prometeu que ia fazer, quando se candidatou), sem necessidade de reduzir brutalmente os modestos rendimentos da classe média portuguesa.  

Depois das profundas cicatrizes que deixaram com a sua desumana governação, não é possível o PSD e o CDS voltarem a merecer a confiança da classe média, nem dos pequenos e médios empresários.  

Santana-Maia Leonardo - A Ponte de 6/6/2022

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Não existe no nosso espectro político um único partido ou político que ponha em causa o modelo de Lisboa, como Cidade-Estado, que é precisamente o grande responsável pela desertificação do território, o problema demográfico, a fuga dos quadros mais qualificados, a pobreza generalizada e os baixos salários, a pressão urbanística na região da Grande Lisboa, o problema dos transportes e da mobilidade a nível nacional, a corrupção generalizada, etc. etc.

Não é, pois, de admirar que todas as reformas acabem sempre por aprofundar ainda mais as desigualdades reais entre os portugueses, agravando cada vez mais o fosso económico e social entre Lisboa, a Cidade-Estado, e o resto do território nacional.

As democracias, tal como as ligas de futebol, se não tiverem sistemas de correcção que equilibrem os dois pratos da balança, levam ao aprofundamento e agravamento das desigualdades e dos desequilíbrios estruturais, uma vez que as regiões mais ricas são precisamente as regiões com mais eleitores. E, em Portugal, é precisamente isso que se passa com a nossa democracia e com a nossa liga, onde Lisboa e Porto e os chamados “três grandes” impõem a sua vontade ao resto do território por força do seu peso eleitoral e do número de adeptos.

A saída da Câmara Municipal do Porto da Associação Nacional de Municípios, significa que a cidade do Porto percebeu que o municipalismo português é o palhaço pobre da política portuguesa à conta do qual Lisboa, o palhaço rico, vive, cresce e enriquece. A Câmara do Porto quer agora tratar dos seus assuntos directamente com o Governo, sem estar dependente do bodo aos pobres com que o Governo vai contentando a ralé.

Há 30 anos que a nossa classe política propõe e anuncia como salvíficas reformas que são, em boa verdade, reformas de “tirar água à nora”, porque criam a sensação no burro de que o país está a avançar, quando, afinal, não sai do mesmo sítio. Aliás, os nossos reformistas só me lembram o Mr Bean, quando entrou em casa e viu um dos quadros que estavam pendurados na parede fora de esquadria. E à semelhança dos nossos reformadores de serviço, Mr Bean, em vez de endireitar o quadro que estava torto, entortou todos os outros que estavam direitos.

Além disso, é importante não esquecer, quando se pretende levar a cabo reformas estruturais, uma coisa óbvia: por mais que se legisle e se reforme, os sobreiros não dão laranjas. É possível melhorar a qualidade da cortiça e a sua produção, mas não há nenhuma lei ou reforma estrutural que faça um sobreiro dar laranjas. 

Ora, sem perceber isto, não vale a pena levar a cabo qualquer reforma estrutural. Um português não é, nem nunca será um alemão, um sueco ou um polaco. Nem Portugal é a Alemanha, a Suécia ou a Polónia. O nosso problema é cultural, não é estrutural.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 3/6/2022

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