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COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

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No dia 25 de Abril de 1974, tinha 15 anos e andava no 5.º ano (hoje, 9.º ano). E qual a consequência do 25 de Abril no Ensino em Portugal? A esmagadora maioria dos professores foram saneados. Deixou de haver exames e faltas às aulas, ou melhor, deixou de haver aulas. Um conhecido meu, que trabalhava em Lisboa, inscreveu-se em Economia para poder ir comer à cantina e, no ano seguinte, quando regressou à Universidade para se voltar a inscrever no 1.º ano para poder continuar a comer na cantina, constatou que já estava no 2.º ano, tendo passado a todas as disciplinas.

No ensino básico e secundário, a maior parte das disciplinas ou não tinha professores ou os professores eram nossos colegas do ano anterior. Segundo os sindicatos de professores, o professor melhor preparado para dar aulas aos alunos do 5.º ano (hoje 9.º ano) era aquele que tinha acabado o 5.º ano há pouco tempo, porque era o que melhor conhecia os problemas dos alunos.

No ano lectivo de 1977/78, fui colocado na Faculdade de Letras de Lisboa, mas em Janeiro, tive de pedir a transferência para Coimbra, porque a Faculdade de Letras estava em greve, porque era contra o fim das avaliações por trabalhos de grupo a que o novo ministro da Educação Sottomayor Cardia queria pôr cobro.

No ano lectivo 1981/82, comecei a dar aulas, sem ter concluído a licenciatura, e era um dos professores com mais habilitações da minha escola.

Só nos anos 90, com a ministra da Educação Manuela Ferreira Leite os professores passaram a ser obrigados a dar o programa completo, com grande resistência por parte da maioria dos professores. Ou seja, até aos anos 90, como os professores não eram obrigados a dar a matéria toda, os alunos mais penalizados nas provas de acesso ao Ensino Superior eram precisamente aqueles que tinham os professores mais exigentes e cumpridores. E porquê? Porque, nos exames de Acesso Superior, os alunos só eram obrigados a responder às perguntas das matérias leccionadas, o que significa que, quanto menos matéria tivessem dado, menos tinham de estudar.

E, como no acesso à carreira docente (e outras), o que contava eram as classificações e não a competência e o conhecimento, começaram a surgir como cogumelos Universidade Privadas que vendiam cursos, ao domicílio, com altas classificações que era o que o mercado pedia.

Nos anos 90, uma colega minha de Português, licenciada com uma boa classificação (muito melhor do que a minha) e professora efectiva, teve a humildade de me pedir para lhe ensinar como se colocavam os sinais de pontuação, nomeadamente as vírgulas e os pontos finais, porque nunca ninguém lhe tinha ensinado. E relativamente aos professores das outras disciplinas, nem se fala… porque a teoria em voga na altura era de que só os professores de Português é que tinham a obrigação de saber escrever com um mínimo de correcção.

É, por isso, absolutamente natural que as gerações que hoje têm entre 45 e 70 anos tenham horror aos exames e a ser avaliadas. E as gerações mais novas tiveram a infelicidade de ser educadas e formadas por estas gerações que conseguiram aceder às diferentes classes profissionais sem nunca terem sido verdadeiramente avaliados e sem terem de realizar uma verdadeira prova de acesso que valorizasse o mérito e impedisse o acesso daqueles que não tinham conhecimentos, nem formação, nem competência, nem preparação para exercer as diferentes profissões.

E são precisamente estas gerações que hoje dominam a escola pública, o comentário político, as diferentes instituições e os partidos políticos que têm o descaramento de atormentar a geração dos meus netos com o “facilitismo”, sobrecarregando-a de trabalhos de casa e de disciplinas (umas inúteis e outras com programas idiotas) como se fossem burros de carga. É preciso mesmo não ter vergonha nenhuma. Mas vergonha é precisamente aquilo que nunca tiveram.

Santana-Maia Leonardo O Mirante de 3/3/2022