Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

COLUNA VERTICAL

"A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras.." (Aristóteles)

4040b37d-ef0f-4729-812e-e344d39b27f7.jpg

O Benfica, com o aplauso de Rui Santos, quer um árbitro estrangeiro para arbitrar o seu jogo com o FC Porto. E tem razão. Não está aqui em causa a qualidade dos árbitros, mas a inexistência de condições objectivas para poderem exercer as suas funções com independência e imparcialidade. E não é muito difícil perceber porquê.

Se eu tiver um litígio com o meu vizinho, a condição essencial para um juiz poder dirimir o conflito entre nós com isenção e imparcialidade é nem ser da minha família, nem da do meu vizinho, nem viver na minha casa, nem na casa do meu vizinho. A competência vem a seguir.

Acontece que, em Portugal, não há nenhum árbitro que reúna estas condições mínimas para poder arbitrar um jogo do Benfica, Sporting e Porto. Mesmo que, por hipótese, exista um árbitro que não seja adepto, nem simpatizante de nenhum destes clubes (o que será extremamente difícil), a verdade é que, em qualquer cidade portuguesa em que resida, vive rodeado por fanáticos destes três clubes: em casa, no café e no trabalho.

E, sendo assim, forçoso será concluir que Portugal não reúne condições que garantam a imparcialidade e isenção dos seus árbitros em provas em que entre qualquer um destes clubes. Um árbitro estrangeiro pode até ter menos qualidade do que um árbitro português, mas, quando regressar à sua casa e ao seu país, não vai certamente viver rodeado de fanáticos do Benfica, Sporting e Porto.

No entanto, não nos iludamos. O problema da liga portuguesa não se esgota na arbitragem. Com efeito, não basta que estejam reunidas as condições de isenção e imparcialidade dos árbitros para que a integridade da competição esteja salvaguardada. Para que exista competição, é necessário, em primeiro lugar, que existam clubes diferentes que compitam entre si. E o que é um clube de futebol? A melhor definição é a de Bobby Robson: “É o barulho, a paixão, o sentimento de pertença, o orgulho na tua cidade.”.

Ora, à excepção do Benfica, do Sporting, do Porto, do Guimarães e, muito recentemente, do Braga, a todos os outros clubes falta-lhes o mais importante: os adeptos. O Benfica, inclusive, gaba-se de jogar todos os jogos em casa, o que significa que joga contra clubes que não têm adeptos para encher o seu próprio campo. E se não têm adeptos para encher o seu estádio, não são verdadeiros clubes pelo que não deviam poder participar na liga. Os estádios dos chamados clubes pequenos não estão às moscas por causa do preço dos bilhetes, nem da hora do jogos. Tanto assim é que se enchem quando os bilhetes são mais caros.

Mas o problema da integridade da liga portuguesa não termina aqui. Com o boicote da centralização dos direitos televisivos por parte de Benfica, Sporting e Porto, os clubes pequenos ficaram sem adeptos e sem dinheiro. E clubes sem adeptos e sem dinheiro só conseguem sobreviver vivendo amancebados com um clube rico que lhes vá pagando as contas ou vendendo uns jogos ao melhor preço, como as putas da beira da estrada. E com os jogadores passa-se o mesmo. Pessoas com salários em atraso e com família para sustentar e renda de casa para pagar são extremamente vulneráveis a determinadas ofertas. E Benfica, Sporting e Porto reduziram à indigência os outros clubes precisamente para os poderem mais facilmente corromper.

Concluindo: não basta apenas árbitros estrangeiros para que a verdade desportiva na liga portuguesa fique salvaguardada. É necessário também clubes estrangeiros para que exista uma verdadeira competição.

Santana-Maia Leonardo - O Mirante de 17/3/2023

Sem nome.jpg

Na sequência da revolução do 25 de Abril, a esmagadora maioria dos professores foram saneados. Deixou de haver exames e faltas às aulas. Era o tempo das R.G.A. e das passagens administrativas.

No ensino básico e secundário, a maior parte das disciplinas ou não tinha professores ou os professores eram nossos colegas do ano anterior. Segundo os sindicatos de professores, o professor melhor preparado para dar aulas aos alunos do 5.º ano (hoje 9.º ano) era aquele que tinha acabado o 5.º ano há pouco tempo, porque era o que melhor conhecia os problemas dos alunos.

Só nos anos 90, os professores passaram a ser obrigados a dar o programa completo, com grande resistência por parte da maioria dos professores.

E, como no acesso à carreira docente (e outras), o que contava eram as classificações e não a competência e o conhecimento, começaram a surgir como cogumelos Universidade Privadas que vendiam cursos, ao domicílio, com altas classificações que era o que o mercado pedia.

É, por isso, absolutamente natural que as gerações que hoje têm entre 45 e 70 anos tenham horror aos exames e a ser avaliadas. E as gerações mais novas tiveram a infelicidade de ser educadas e formadas por estas gerações que conseguiram aceder às diferentes classes profissionais sem nunca terem sido verdadeiramente avaliadas e sem terem de realizar uma verdadeira prova de acesso que valorizasse o mérito e impedisse o acesso daqueles que não tinham conhecimentos, nem formação, nem competência, nem preparação para exercer as diferentes profissões.

E são precisamente estas gerações que hoje dominam a escola pública, o comentário político, as diferentes instituições e os partidos políticos que têm o descaramento de atormentar a geração dos meus netos com o “facilitismo”, sobrecarregando-a de trabalhos de casa e de disciplinas (umas inúteis e outras com programas idiotas) como se fossem burros de carga. É preciso mesmo não ter vergonha nenhuma. Mas vergonha é precisamente aquilo que nunca tiveram.

Santana-Maia Leonardo - A Ponte de 13/3/2023