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COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

COLUNA VERTICAL

"Barcelona respira liberdade e harmonia por todos os poros."

 

Em primeiro lugar, e para aqueles que possam achar que vesti a camisola de um partido, gostaria de salientar que não gosto de laranja e muito menos de cor-de-rosa. Prezo a liberdade e, dado que, “quando duas pessoas pensam da mesma maneira, uma é dispensável”, aceitei o desafio de colaborar com amarabrantes.
 
Nasci em Abrantes, mas cresci e fui criada em Mouriscas, de onde saí para estudar, primeiro na minha cidade e depois na cidade de Évora. Acalentei o sonho de poder permanecer na minha terra e aí criar os meus filhos e dar-lhes a qualidade de vida a que todas as crianças têm direito.
 
Vivemos numa terra com História e de muitas histórias e as histórias preenchem os sonhos. Basta olhar para a paisagem deslumbrante deste rio, olhar para o castelo de Abrantes pousado numa nuvem de neblina ou assistir às cores do Sol poente e a alma de cada mourisquense torna-se mais forte. Foi esta terra que escolhi para viver, na esperança de aí construir o meu futuro. E Mouriscas é uma terra com futuro, mas que não seja apenas para os que, tendo nascido fora, escolhem esta terra para viver, mas também para todos aqueles que aqui nasceram.
 
Tenho assistido ao crescimento da minha cidade e, de facto, Abrantes está diferente, para melhor, diga-se de passagem. Tornámo-nos mais urbanos, enfeitámos a zona ribeirinha, construímos um estádio municipal e até teremos um Museu Ibérico, vejam só! Ficámos mais refinados e mais vendáveis aos olhos dos que estão fora do concelho, somos excelentes no marketing! E falo no plural dado que, também eu, enquanto cidadã, cumpri o meu dever através do voto. Mas fomos enganados.
 
Em Mouriscas, na maior parte das ruas, não existe rede de esgotos. Os que existem correm a céu aberto no primeiro riacho, mas cuidadosamente escondidos dos olhares dos forasteiros. O fedor e os mosquitos é que não se podem disfarçar nas noites quentes de verão. É vulgar ver nas valetas as águas residuais das máquinas que vão directas para os ribeiros onde a minha mãe, quando eu era miúda, lavava a roupa.
 
Os jovens pais, casais cheios de sonhos, vêem-se obrigados a levar os filhos para creches e escolas de outras freguesias, por falta de respostas para as suas necessidades de apoio à família. Sortudos aqueles que têm os avós disponíveis para cuidar deles após a hora do Jardim-de-infância ou do Primeiro Ciclo! Os pais, sobretudo os mais preparados, não têm outro remédio senão procurar emprego noutras cidades, muitos têm mesmo que abandonar a freguesia e até mesmo a cidade por falta de empregos compatíveis com as suas qualificações.
 
Os nossos filhos senhores, com sorte, vão duas vezes por ano usufruir do nosso estádio municipal que está praticamente às moscas (obséquio da Câmara Municipal).
 
A maioria dos nossos pais, com emprego precário e poucas qualificações, tomara terem dinheiro suficiente para sustentar a família até ao fim do mês quanto mais para os levar à piscina!
 
Na nossa cidade, ao contrário do que acontece em outras não muito distantes, não existe habitação social para apoiar os que mais precisam!
 
Em Mouriscas, à semelhança de muitas outras escolas, são os pais que contribuem, todos os meses, para comprar o papel que se gasta na escola nas fotocópias necessárias.
 
No Jardim-de-infância, são os pais que pagam as senhoras que dão apoio às crianças à hora do almoço e isto, pasme-se!, no tempo do Magalhães! Alguns até podem passar necessidades, mas o Magalhães parece que já ninguém lhes tira!
 
Não há um parque infantil para as nossas crianças e, para os estudantes que vão para o 5º ano, bem podem esperar sentados que quem de direito se preocupe em adequar os horários dos transportes públicos às necessidades das crianças! Mais vale deixá-los ir para Mação ou para Sardoal, até fica mais barato à Câmara!
 
É por estas e por outras que digo que fomos enganados. Como no tempo dos Descobrimentos, continuamos não a apostar nas pessoas, mas nas grandes obras que só servem o interesse de muito poucos, mas que ficam para a História! Esquecemo-nos contudo, que as obras estão por pagar e, mas cedo ou mais tarde, é do bolso de cada um de nós, mais uma vez, que sai o dinheiro!